Coutinho quer ser a voz que incomoda

Depois de afastados os democratas da Assembleia Legislativa (AL), José Pereira Coutinho quer ser agora a única voz divergente no hemiciclo. “Vamos continuar a ter uma voz, nem que seja só uma”, afirmou o cabeça de lista da Nova Esperança. Ontem, em conferência de imprensa, Coutinho assumiu que serão as “eleições mais difíceis” desde 2005 e que, por isso, a sua expectativa é que a sua lista eleja só um mandato.

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FOTOGRAFIA: GONÇALO LOBO PINHEIRO

José Pereira Coutinho, cabeça de lista da Nova Esperança, organizou ontem uma conferência de imprensa para dar a conhecer os candidatos e o seu programa político. Ao longo de quase duas horas, Coutinho falou sobre as dificuldades que este ano deverá encontrar para ser reeleito e sobre as dificuldades que virá a ter no hemiciclo, caso venha mesmo a ser reeleito.

Para Coutinho, estas são mesmo as “eleições mais difíceis” desde que chegou ao hemiciclo. Assumindo que a expectativa é que a lista Nova Esperança eleja apenas um deputado, Coutinho disse que foi com tristeza que viu a desqualificação dos democratas da corrida à Assembleia Legislativa (AL) e afirmou: “Não deitem a toalha ao chão. Macau tem futuro. Vamos continuar a ter uma voz, nem que seja só uma”. “Se a Nova Esperança não for eleita, imaginem o que vai ser daquela assembleia”, lançou.

Ainda sobre os democratas afastados da AL, Pereira Coutinho  admitiu: “Vai ser difícil trabalhar sem os meus bons amigos democratas”. O cabeça de lista disse até que, quando chegou à AL, em 2005, tomou como referência Ng Kuok Cheong e Au Kam San. “Aprendi bastante com eles. Sinto pena de eles não poderem estar connosco na AL. Se eu for eleito vou ter uma vida muito difícil”, frisou o candidato.

O presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM) tinha afirmado numa conferência de imprensa anterior que a AL era um “mero carimbo do Governo”. Ontem completou para dizer que isto já acontecia durante a administração portuguesa. “Não há uma maioria democrática eleita na AL. Dos 33 deputados, somente 14 são eleitos pela população”, explicou, acrescentando: “Carimbo a mais carimbo a menos, pelo menos têm uma voz. A voz faz falta porque incomoda e o Governo presta atenção”.

Nas linhas programáticas da Nova Esperança, a lista propõe: uma habitação pública para cada residente, 12.000 patacas de comparticipação pecuniária, distribuição de 3% da receita bruta de Jogos a todos os residentes, ensino superior gratuito, restituição de 7.000 patacas do Fundo da Previdência Central aos idosos e sistema de cuidados de saúde gratuitos. Questionado sobre se a lista fez as contas ao impacto orçamental que estas medidas teriam para o Governo, Coutinho respondeu: “Não estou preocupado. Têm tantos milhões”.

Durante a conferência de imprensa, Coutinho focou-se no desemprego. “Nós achamos que isto tem a ver com o facto de esses postos de trabalho terem sido ocupados com os trabalhadores não residentes”, frisou o candidato, descrevendo a lista que encabeça como “uma ponte de ligação entre os cidadãos de Macau e o Governo”.

Coutinho disse até que foi graças à sua pressão que o Governo atribuiu apoios à população e empréstimos às empresas no âmbito da pandemia. Além disso, afirmou também que a sua lista tem ajudado trabalhadores da Rua da Emenda que se viram privados de ir trabalhar durante duas semanas e os residentes burlados na compra de habitações no interior da China. “Nós trabalhamos, nós insistimos, nós chamamos à pedra o senhor Chefe do Executivo e os secretários”, frisou.

O deputado disse ainda que outra das prioridades será a responsabilização dos titulares dos principais cargos públicos. “Não é responsabilizar directores, é secretários e o Chefe do Executivo. Queremos responsabilidade política pelos erros, pelas omissões”, referiu, salientando que, no futuro, vai continuar a fiscalizar a utilização do erário público.