Ao PONTO FINAL, Michael Share, professor da Universidade de Macau especializado em história russa, analisou a situação actual no que toca ao conflito militar russo-ucraniano num prisma histórico. O académico defende que quanto mais tempo as guerras durarem, mais perigosas são e mais descontroladas ficam, alertando que se o confronto geopolítico não for abordado de maneira apropriada poderá levar a uma terceira guerra mundial.
Desde que a Rússia lançou uma invasão militar em larga escala à Ucrânia em 24 de Fevereiro de 2022, os combates causaram centenas de vítimas civis e levaram dezenas de milhares de ucranianos a fugir para os países vizinhos. Perante o conflito militar russo-ucraniano, na opinião de Michael Share, académico universitário especializado em história russa, as forças de Putin não estão a proceder tão bem como ele próprio pensava. “Penso que Putin pensou inicialmente em termos de guerra blitzkrieg de estilo alemão da II Guerra Mundial”, observou o historiador norte-americano.
Michael Share notou que o progresso da coluna militar russa de mais de 60 quilómetros vinda do Norte tem estado parado há dias e há progressos no Sul, visto que a cidade de Kherson tem sido ocupada pelas forças russas. “Os ucranianos estão a lutar melhor do que o esperado, mas ainda em menor número e sem armas”, frisou o professor da Universidade de Macau.
“Julgo que a Agência de Inteligência da Rússia talvez tenha prestado a Putin um mau serviço. Acho que lhe disseram que o povo ucraniano iria saudar as forças russas, com flores e doces, e em vez disso as forças russas encontraram muito mais resistência do que o que esperavam,” disse o académico.
O historiador norte-americano referiu que a Ucrânia começou a sua resistência bastante atrasada, embora mais tarde se tenha mobilizado. Tendo refeito as suas forças, os ucranianos receberam armas da União Europeia e dos EUA, e com o apoio popular, as forças armadas controlaram as ruas, estabelecendo posições defensivas em torno das cidades principais.
Os russos, por sua vez, após terem ocupado uma parte do território ucraniano, particularmente a norte em redor de Chernobyl e a norte da península da Crimeia, praticamente pararam. Na opinião de Share, as forças russas tomaram poucas grandes cidades da Ucrânia.
Face às derrotas iniciais, as forças russas repensaram e mobilizaram posteramente a sua coluna militar, que tem cerca de 60 quilómetros de comprimento e se estende ao longo do caminho de norte a sul até à cidade de Kiev. A coluna militar não foi equipada com combustível ou alimentos suficientes e parou a caminho. O principal aeroporto ucraniano fora de Kiev já não funcionava bem, pelo que os ucranianos não podem utilizar muitos aviões, nem têm aviões teleguiados. “Assim que a coluna militar chegar à periferia de Kiev, a expectativa é que se espalhe pela cidade e conduza um cerco de estilo medieval em Kiev. Não permitirão então qualquer reabastecimento de comida, água e suplementos médicos para a cidade. Acho que eles esperavam que uma vez iniciado o cerco, a cidade fosse rapidamente cercada, entrariam e rapidamente conquistaram a cidade”, advertiu Share.
Relativamente à segunda maior cidade ucraniana, Kharkiv, o académico esperava que os russos fizessem uma estratégia semelhante à que fizeram na capital, Kiev. As forças militares russas tomaram então uma decisão semelhante. Foi em Kharkiv que explodiram o edifício da administração pública no centro da cidade. Os ucranianos já estão a planear combater rua a rua, indicou o especialista em história russa.
O avô de Share nasceu em Odessa, a terceira maior cidade ucraniana. “Todos acreditam que as forças russas querem estabelecer uma grande ponte entre o território que actualmente detêm no sudeste da Ucrânia até à Crimeia. Presumo que irá haver uma batalha em Odessa, que pode acontecer nestes dois dias”, alertou. Para Share, a questão é até que ponto os ucranianos serão capazes de aguentar contra forças cada vez mais esmagadoras. O académico norte-americano acredita que um cerco vai ser conduzido, em torno da capital, Kiev, e da segunda maior cidade, Kharkiv, mas realçou que “quanto mais tempo durar, mais confusa ficará a guerra”. “Talvez depois de alguns dias bombardeiem a maioria das cidades, é assim que o vejo acontecer,” alertou o professor universitário.
Conflito em evolução
A ser questionado sobre para como irá evoluir o conflito russo-ucraniano, Michael Share acredita que a guerra irá durar muito mais tempo do que o esperado e recordou a I e II Guerras Mundiais na história para explicar a situação actual: “As grandes potências no início da I Guerra Mundial, durante o Verão de 1914, pensaram que um ou outro lado poderia ganhar rapidamente, e aí poderiam realizar o jantar de Natal em 25 de Dezembro de 1914. No entanto, a guerra ficou cada vez mais fora de controlo e, inesperadamente, durou de facto mais de quatro anos. No início da II Guerra Mundial, Hitler invadiu a Polónia em Setembro de 1939 e esperava uma conquista rápida. Os britânicos e franceses acreditavam que a paz chegaria até Novembro do mesmo ano, porém, a guerra surpreendentemente durou mais de cinco anos”.
O académico acredita que, quanto mais tempo as guerras durarem, mais perigosas são, e mais descontroladas ficam. “Creio que aquando da entrada do conflito militar com a Ucrânia, Putin pensava que a guerra seria curta, com poucas mortes, os soldados seriam saudados como libertadores e não como inimigos, podendo ocupar o país inteiro e matar ou deter o actual governo ucraniano, instalando uma facção de Moscovo. Em vez disso, os ucranianos de facto estão a resistir muito, o seu presidente Zelensky agora parece ser um herói nacional”, referiu o historiador.
Para a Europa, Michael Share acredita que existe algum risco potencial. “Se há muitas forças ucranianas a tentarem fugir para a Polónia, e a força russa continuar a persegui-las e não pararem na fronteira polaca, isto poderia facilmente envolver tropas norte-americanas, e depois começa-se a falar de um confronto entre tropas norte-americanas e tropas russas, e ambas têm armas nucleares, e aí estaremos na III Guerra Mundial. Isto é o que pode acontecer quando se inicia uma guerra, as coisas podem acontecer de uma forma que ninguém esperava”.
Michael Share é um académico universitário especializado em história russa que propôs a criação do programa semestral para o Centro Russo na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau, onde pretende leccionar aulas introdutórias em matéria da língua e cultura russa no território. No entanto, o programa está a enfrentar dificuldades devido às crises emergentes, inclusivamente a restrição da mobilização entre Hong Kong e Macau e a falta de apoio financeiro da Fundação Russkii Mir.
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