A década de 1950 assistiu, na televisão norte-americana, à moda dos documentários policiais dramatizados, com retratos realistas do trabalho da polícia e do combate ao crime organizado, muitas vezes num estilo noir. Programas populares como Dragnet e The Untouchables foram expoentes desta tendência nos EUA, ao mesmo tempo que no Reino Unido surgia Scotland Yard, apresentado pelo escritor de mistérios e criminologista Edgar Lustgarten. Esta popularidade cruzou-se com outro fenómeno, do dos documentários ficcionais passados em várias “capitais do pecado” internacionais, apostados em mostrar o trabalho do policiamento internacional, sobretudo contra o contrabando de estupefacientes. Cairo Road (1950) mostrava o trabalho do Egyptian Narcotics Bureau. Flight to Tangier (1953) contava uma história semelhante passada na Zona Internacional de Tânger. Flight to Hong Kong (grande parte do qual se passa, na verdade, em Macau) insere-se solidamente nestes dois géneros populares dos anos 50 – o drama-doc policial e o thriller noir, que enfatizavam o cinismo e a indiferença moral. Apostando num suposto realismo do guião, Flight to Hong Kong inclui até um pequeno discurso de um agente da polícia de Hong Kong sobre o papel desta força no combate ao crime internacional.
Eis o enredo: num avião com destino a Hong Kong, Tony Dumont (Rory Calhoun) sente-se atraído por uma bonita romancista, Pamela Vincent (Barbara Rush), que retribui a sua atenção. O avião é desviado e um carregamento de diamantes é roubado. Mais tarde, descobrimos que Dumont está por detrás do sequestro e é, na verdade, o cérebro de um sindicato que faz contrabando de diamantes com ligações a São Francisco, Banguecoque, Rio de Janeiro e Tânger, operando a partir de Macau, onde Tony cresceu e teve uma infância dura. De volta a Macau, Tony vive uma vida de luxo com a dançarina Jean (Dolores Donlon) e passa a maior parte do tempo num casino gerido por Mama Lin (Soo Yong). Há um senão: Tony está apaixonado por Pamela. Acabará por trair o seu bando e seguir Pamela até São Francisco, levando os diamantes com ele. Para Pamela, Tony era apenas uma diversão momentânea, um breve e excitante caso na exótica Macau que ela não esperava voltar a ver, e por isso o afasta, um pouco envergonhada perante os seus amigos. Perseguido pela polícia e pelo sindicato, Tony regressa a Macau para conhecer o seu verdadeiro destino.
Macau acaba por ser a estrela do filme, mesmo que, para além de algumas imagens de arquivo da linha do horizonte e da Praia Grande, os locais de Hong Kong substituam invariavelmente a então colónia portuguesa. Ao chegar para continuar o seu namoro com Tony, Pamela diz: «Li algures que Macau é a cidade mais perversa do mundo». E é bem possível que tenha lido – a reputação de Macau como “cidade do pecado”, inicialmente estabelecida nas décadas de 1920 e 30, continuava a ser incessantemente reciclada pelos meios de comunicação europeus e norte-americanos na década de 1950. Em 1954, a revista de Hollywood Variety publicou um artigo onde se lia:
A aventura continua a dominar Macau; há raparigas que lhe servem o seu ópio na cama, no hotel.
Talvez sim, talvez não – mas a lenda estava criada. Certo é que os espectadores ocidentais conheciam a colónia como um centro de jogo, bem como de contrabando de ouro e diamantes.
Pamela e Tony divertem-se todas as noites no Mama Lin’s, uma fantástica casa de jogo com cestos em roldanas que descem cheios de dinheiro e apostas para a mesa de baixo, vindos dos grandes apostadores das varandas superiores e, com sorte, voltam a subir com algum lucro. O realizador francês Jean Delannoy utilizou esta imagem na sua evocação da velha Macau em 1940, L’enfer du Jeu (na verdade, tudo filmado na Riviera Francesa) e aparece também em The Shanghai Gesture, de Josef von Sternberg, em 1941, no casino “Mother Gin Sling’s” (embora, para ser tecnicamente correto, o sistema de cestos e roldanas nunca tenha sido utilizado em Shanghai).
Tony Dumont é uma auto-criação – originalmente António Dumonez. Abandonado num bar aos quatro anos e adoptado por Mama Lin, cresceu e formou um gangue de rua e, mais tarde, um sindicato criminoso em parceria com o seu colega Michael Quisto e um amigo, o emigrante russo Boris, interpretado por Mel Welles (que um ano antes tinha aparecido como o sombrio jogador e raptor de Macau Rocha no filme de Clark Gable/Rita Hayworth, Soldier of Fortune). Agora, Tony vive num apartamento art-déco numa colina, com a dançarina Jean, mas continua a sonhar com Pamela. O apartamento poderia facilmente ser a bela casa art-déco Skyline House, na colina da Penha, mas foi substituída por uma casa modernista semelhante na South Bay Road de Hong Kong. Os cais de Macau foram substituídos por Sham Shui Po e Porto Interior pela “cidade das sampanas” de Aberdeen.
Por fim, lembremos que este é um drama policial e que, por isso, Tony não pode ficar com a rapariga ou fugir com os diamantes. Os polícias apanham sempre o seu homem. Em última análise, Tony revela-se um bandido, disposto a trair amantes e amigos de longa data para salvar o seu próprio couro. Reforça-se assim o velho e desgastado topos de que a lei e a ordem são praticamente inexistentes ali… em Macau… mas que Hong Kong é um parceiro seguro e fiável no combate ao crime global. A mensagem é clara – não se pode fugir à lei – mesmo na velha Macau!
Flight to Hong Kong está disponível no YouTube.










