A Many Splendoured Thing, de Han Suyin (1952)

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A Many Splendoured Thing, de Han Suyin (1952)

Por Paul French  |  ilustração rui rasquinho

Agosto de 1949. Han Suyin, uma bela mulher euro-asática, vestida com um cheongsam de seda, apanha o ferry do final da tarde de Hong Kong para Macau. Ao chegar à colónia portuguesa, vagueia pelas ruas, apreensiva com o encontro com o seu amante britânico, Mark Elliot:  «Passei pelas pequenas ruas de calçada ao cair da noite, que se aproximava rapidamente, adiando o momento em que encontraria Mark… Vagueei, subindo uma rua e descendo outra, observando os artigos de couro, os santos de gesso, as igrejas. Parei para contemplar a fachada da Igreja de São Paulo, desprovida de qualquer interior ou paredes, um adereço de palco abandonado no alto de uma colina, com o céu nocturno nas portas e nas janelas.»

A relação entre ambos é um caso, um affair discreto. Ela é médica na colónia britânica, ele é jornalista e cobre a região do «Extremo Oriente». Estão apaixonados, mas ele é casado e tem uma mulher que o espera fielmente em Singapura. A relação entre ambos é delicadamente escandalosa. E é assim que chegam à colónia portuguesa de Macau, para desafiar as convenções e deixar para trás o mundo puritano do Peak e a sempre indiscreta Repulse Bay.

Han Suyin encontra Mark no Havana Hotel, «um edifício alto e imponente na maior das avenidas». É claro que se trata de uma recriação do antigo, e agora renovado, Hotel Central. O casal janta no restaurante do hotel – o que teria sido o famoso Golden City, no Central, servindo pratos cantoneses. Jogam nos andares superiores. Visitando a cidade na mesma época, o autor de James Bond, Ian Fleming, é mais preciso e conta-nos, em exclusivo, que o fan-tan era jogado especificamente no sexto andar…

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O romance de Han Suyin, publicado em 1952, passa-se principalmente em Hong Kong, com excursões a Chongqing e Macau. Embora seja uma obra de ficção, A Many Splendoured Thing é profundamente autobiográfico. Tal como a sua homónima na narrativa, Han Suyin ficou viúva em 1947, era médica formada em Londres e teve um caso apaixonado com Ian Morrison, um correspondente australiano morto na Guerra da Coreia e filho do lendário jornalista do Times e especialista em assuntos chineses do início do século XX, George Morrison. O livro foi um bestseller, um filme de Hollywood com um «O amor é…» explicitamente anexado, caso o tema principal não fosse evidente para o público americano, e com as estrelas William Holden e Jennifer Jones (Mark torna-se americano; Jones interpreta uma personagem asiática). O filme inclui o romance do casal em Macau, com o Havana a tornar-se, por alguma razão, o Macau Gran Hotel. Vale a pena ver, mas o livro é uma experiência muito mais envolvente, especialmente do ponto de vista de Macau. 

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A Many Splendoured Thing mostra uma Macau que contrasta com Hong Kong em 1949. A colónia britânica está agitada com os rumores de revolução na China, migrantes a fugir pela fronteira, hospitais sobrecarregados e alojamentos lotados. Por outro lado, como diz o gerente do hotel a Suyin, «Macau está cheia de pessoas ricas, todas a gente tem dinheiro, é segura, pacífica…» Macau é um refúgio temporário, uma série de diversões inofensivas (fan-tan, dim-sum, namoro) que afastam Suyin e Mark da realidade da guerra e da revolução. 

O que o casal aprecia é aquilo que lhes parece a irrealidade de Macau – o seu ambiente europeu, antigo. Sentam-se junto à Fonte Wallace, no final da Avenida da Praia Grande. Passeiam pelas ruas tranquilas de Nam Van e São Lourenço, admirando as placas das lojas chinesas e as encantadoras lojas de quinquilharias. Na década de 1940, a variedade de bebidas alcoólicas em Hong Kong era limitada sobretudo ao baijiu chinês, ao wisky e ao gin. Suyin, como todos os turistas que chegam de Hong Kong aos fins de semana, compra licores exóticos Aqua Vita e Bols. Por fim, os dois regressam ao hotel, tomam banho e fazem amor –  «o maior prazer do mundo, algo que eu nunca tinha conhecido antes, nunca, nunca assim». Quando o fim de semana chega ao fim, Suyin apanha o ferry de regresso a Hong Kong. Sentada na popa, vendo Macau desaparecer à distância, aceita  finalmente que está apaixonada por Mark. 

Em Hong Kong, a vida de todos os dias retoma imediatamente o seu curso. Torna-se evidente que esta relação é desastrosa para Suyin – a sua carreira está destruída, sente-se ostracizada pela sociedade chinesa, Mark está ausente em reportagem. Mas, por um breve momento, ela conheceu aquela «coisa maravilhosa» – o amor – e conheceu-a em Macau. 

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Para Han Suyin, Macau representava uma fuga, um lugar de refúgio e isolamento das duras realidades do seu relacionamento. As acções de Suyin são transgressivas quer aos olhos dos chineses mais conservadores, quer aos dos expatriados de Hong Kong. Mark, apesar de casado, é um homem branco, com uma certa posição social e, por isso, tem grande liberdade de acção. No entanto, Suyin está ciente da transitoriedade que Macau representa – é um cenário de teatro, um mundo construído de prazeres e entretenimentos fugazes, curiosidades e guloseimas. Macau não é o mundo real, mas apenas um alívio temporário. «Teremos sempre Paris», diz Rick a Elsa em Casablanca. Han Suyin poderia facilmente ter dito ao seu amante Mark: «Teremos sempre Macau».

A Many Splendoured Thing, de Han Suyin, está disponível em diversas edições.

O filme Love is a Many Splendored Thing (1955) pode ver-se em várias plataformas de streaming.