Treinador sugere apoio do Governo para “impulsionar desenvolvimento” da ginástica

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FOTOGRAFIA ELOI CARVALHO

 

Fundado em 2013 por Nuno Fernandes e Ana Conde, o Gymnastics Club Macau (GCM) tem vindo a consolidar-se como uma referência na promoção e desenvolvimento da ginástica entre crianças, jovens e adultos em Macau. O projecto nasceu de uma paixão genuína pela modalidade e de um compromisso com a comunidade local. Em declarações ao PONTO FINAL, Nuno Fernandes partilha a história do clube, os desafios enfrentados no início e o impacto que tem tido no presente, num território onde a cultura gímnica ainda está em fase de crescimento.

 

“A ginástica é mais do que apenas uma modalidade desportiva, é um exercício mental e físico completo. Uma base fundamental”. Foi assim que Nuno Fernandes explicou o âmago de um pequeno clube de Macau com grandes ambições. O seu Gymnastics Club Macau (GCM) não foi criado de uma forma planeada, mas sim a partir de uma evolução natural, quase uma consequência de uma paixão que cresceu ao longo do tempo.

O treinador explica que tudo começou em 2013, após o encerramento do seu ciclo com o Cirque du Solei em Macau, no espectáculo ZAiA. Com uma formação em Ciências do Desporto e Educação Física, Nuno começou a explorar a área do treino personalizado, na área do “Condicionamento Físico e Força”. Mas foi numa manhã de Verão que uma mãe interessada no seu trabalho sugeriu que fizesse aulas de ginástica para as suas filhas. Sem material, numa sala pequena, com apenas alguns puzzles e com muita criatividade, Nuno e Ana Conde, a sua companheira de atletismo e vida, começaram a dar aulas a um grupo de crianças, inicialmente cerca de dez, durante o mês de Agosto.

De forma totalmente improvisada, com recursos escassos e espaço limitado, o que inicialmente era uma experiência pontual, acabou por revelar-se um sucesso. O interesse das famílias cresceu rapidamente. Depois do programa terminar, receberam muitas perguntas e pedidos de continuidade. Assim, o projecto foi crescendo lentamente, sempre com um espírito de hobby, mas com muita dedicação. Com o passar do tempo, o clube continuou a evoluir, com a adição de mais equipamentos e a expansão das aulas para diferentes faixas etárias, incluindo crianças pequenas que, devido à sua experiência, se adaptaram facilmente às actividades, agora num novo espaço no subsolo do Edifício Industrial Va Nam na Taipa.

 

Um desporto familiar com pouco reconhecimento

 

“O impacto do GCM é, sobretudo, a nível familiar”, destaca Nuno. Muitas crianças que começaram no clube continuam a treinar durante anos, algumas até ajudam na formação de novos alunos ou até funcionam como treinadores adjuntos. Ainda assim, Nuno reconhece que o impacto no panorama geral do desporto em Macau é limitado, principalmente porque a infraestrutura, a formação de técnicos, árbitros e a própria estrutura de competições ainda são muito incipientes no território. Para ele, o verdadeiro progresso no desporto em Macau depende de apoios de “cima para baixo”, de políticas públicas que invistam na formação de quadros, na criação de instalações adequadas e na organização de uma estrutura competitiva sólida e acessível.

Apesar dessas limitações, o GCM criou as suas próprias competições, como o “Macau Trampolin Gymnastics Championship”, uma iniciativa que nasceu da necessidade de oferecer oportunidades de competição aos seus atletas, uma vez que Macau não possui uma estrutura oficial de desporto competitivo na modalidade.

Relativamente às participações internacionais, Nuno Fernandes conta que, embora o clube não possa representar oficialmente Macau devido às restrições impostas pela associação de ginástica local, conseguiu participar em competições em Hong Kong e em outros locais da região de forma independente. “Embora gostássemos de carregar a bandeira de Macau, de momento ainda não é possível”, esclareceu. Destaca que, na sua última experiência em Hong Kong, os seus atletas tiveram resultados surpreendentes, conquistando posições de destaque e recebendo elogios de juízes. Essas experiências internacionais mostram que, apesar das dificuldades, há talento e potencial que podem ser desenvolvidos com o apoio adequado.

Quando questionado sobre o percurso de um atleta talentoso que queira seguir uma carreira na ginástica, Nuno explica que, devido à ausência de uma estrutura competitiva forte em Macau, esses atletas precisam de procurar oportunidades fora do território, como em Portugal ou Hong Kong. “Para quem desejar uma carreira mais profissional, é indispensável uma estrutura de competições regular, formação de treinadores, juízes, instalações de alta qualidade e uma rede de apoio que permita o desenvolvimento contínuo”, afirma o treinador, acrescentando que tudo isto só pode ser criado com investimento público, uma vez que o sector privado, por si só, não consegue sustentar uma estrutura de alta qualidade em Macau

“Se existisse um centro de ginástica com apoio público, poderíamos incluir mais crianças de diferentes classes sociais, sem que o factor financeiro fosse uma barreira”, afirma. Para o treinador, o investimento nesta infraestrutura é fundamental para que o desporto evolua de forma sustentável e para que Macau possa competir em pé de igualdade com regiões vizinhas, como Hong Kong ou o interior da China.

No que diz respeito aos planos futuros, Nuno ressalta que o objectivo maior é continuar a oferecer um serviço de alta qualidade, agora também com a ajuda de uma equipa maior de treinadores dedicada, que inclui o atleta Tomek Kapuscinski, e uma estrutura que permita aos jovens e adultos alcançar os seus objectivos, sejam eles de diversão ou de competição. “Na GCM esperamos criar uma cultura de ginástica acessível a todos, independentemente do nível de experiência ou condição social”, expressou.

Quanto à prática de ginástica em si, Nuno destaca que a modalidade traz benefícios físicos e mentais únicos, que ajudam a melhorar a postura, flexibilidade, força, equilíbrio e coordenação, além de promover uma maior autoconfiança, num ambiente descontraído e de superação de medos. Para o treinador, a ginástica é uma base fundamental para qualquer prática desportiva, um conceito que remete às suas próprias origens como atleta e ao papel que o movimento desempenha no desenvolvimento humano desde os tempos mais remotos. “Quem é que não gosta de andar ali a rebolar e a saltar? Aqui há esse lado dos alunos sentirem que, depois de algumas aulas, estão mais à vontade e mexem-se muito melhor. O controlo sobre o próprio corpo é uma sensação que dá uma enorme satisfação e aumenta a confiança de quem a pratica”, concluiu Nuno Fernandes.