CRÓNICA

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Paul French

 

             Vengeance (2009) – O Elvis francês num noir de Macau

 

O realizador de filmes de acção Johnnie To, de Hong Kong, e a super-estrela francesa do rock, Johnny Hallyday (“o Elvis francês”) juntam-se para fazer um filme em Macau! É uma ideia formidável… e aconteceu mesmo. O filme é Vengeance (Fuk Sau), de 2009. Realizador e actor estavam ambos no topo das suas carreiras, cada um habitando um mundo distinto e sem contacto com o outro. Como é que surgiu esta junção de um realizador, pouco conhecido em França (excepto entre os fãs de cinema de Hong Kong), e um cantor francês pouco conhecido fora do mundo francófono?

Como sempre, há uma história…. Diz-se que, inicialmente, Johnnie To queria Alain Delon (que morreu em Agosto desse ano), depois de ter visto Le Samouraï (1967) e outros clássicos protagonizados pelo actor, mas Delon não gostou do guião e, por isso, os co-produtores franceses sugeriram Hallyday. Johnnie To nunca tinha ouvido falar do cantor, apesar de ser um nome sobejamente conhecido em França, mas viu alguns dos filmes em que Hallyday entrava e decidiu arriscar.

Hallyday era um homem grisalho e bronzeado que já andava pelos sessentas quando fez o filme. Tinha o aspecto de um anti-herói noir. Ao mesmo tempo, o argumentista Wai Ka-Fai tinha no currículo vários filmes de vingança, duros e sombrios, um género sempre muito bem tratado por Johnnie To. Com um elenco secundário de talentos de Hong Kong – Anthony Chau-sang Wong, Suet Lam, Gordon Lam Ka-tung, Simon Yam Tat-wah e Michelle Ye (Ye Xuan) – e uma cinematografia soberba de Cheng Siu-Keung, Vengeance revelou-se um par de horas de acção atravessadas por várias cenas de Macau e Hong Kong.

Hallyday interpreta o papel de Francis Costello, um antigo assassino transformado em chefe de cozinha, que viaja de França para Macau para vingar a morte da sua família. Três homens tinham-lhe invadido a casa, mataram o seu genro, dispararam sobre a sua filha e assassinaram-lhe os netos. Levada de urgência para o hospital, a filha de Costello sussurra-lhe “venge moi” (“vinga-me”). Estrangeiro em Macau, Costello recruta três assassinos locais para o ajudarem na sua missão. Há algumas reviravoltas: Costello está a perder a memória devido a uma bala no cérebro, acidente de uma vida passada, que não pode ser removida. Acaba por esquecer-se de quem está a vingar e porquê. Os seus aliados assassinos têm de procurar o seu próprio chefe da tríade. Há tiroteios em câmara lenta, muitas relações que se estabelecem entre as personagens masculinas e, claro, vingança sangrenta. Há também, é certo, alguns momentos em que o guião não faz muito sentido e a cronologia se desvia um pouco, mas é perdoável e, como o ritmo nunca abranda, quase não temos tempo para matutar nas lacunas do enredo.

Vengeance teve bons resultados na Ásia e em França, fez algum dinheiro na bilheteira e ganhou alguns prémios menores. Os filmes de vingança funcionam igualmente bem na Ásia, Europa e América do Norte. Hallyday é um homem de poucas palavras – talvez seja melhor assim, porque não fala cantonês e o seu inglês é um pouco difícil. Insiste em passear por Macau de gabardine cintada e chapéu de feltro, o que não é o melhor traje para a humidade local, mas é a imagem certa para um noir europeu. Wong, Lam Suet e Gordon Lam são uma equipa hábil de assassinos contratados, Simon Yam é um divertido chefe de gang, completamente maníaco.

Johnnie To não prescinde de alguns truques cinematográficos. A certa altura, Costello e o seu trio de assassinos revisitam o local dos homicídios – vemo-los examinar os destroços, recriar o crime e depois vemos o verdadeiro acontecimento a desenrolar-se em sequência.

E depois há Macau. To demora-se no néon dos casinos Lisboa e Wynn e na vista da cidade a partir da Ponte de Lótus. Um dos temas cinematográficos de To é o tiroteio à queima-roupa e aqui aborda-o com bons resultados nas ruas secundárias de Macau, bem como num esconso de Hong Kong e num parque local, onde os pistoleiros dependem do luar para verem os seus adversários. Se alguém se sentir tentado a parar o filme antes do fim, diga-se que há um excelente tiroteio final que começa no Largo da Sé e se espalha pelas ruas circundantes.

Há, naturalmente, temas mais importantes do que a simples vingança. Anthony Wong, o líder dos assassinos contratados por Costello, começa por ser um assassino aparentemente amoral, um seguidor acéfalo de ordens, um bandido que não vê consequências nos seus actos. Ao longo do seu tempo com Costello, é levado a ganhar uma espécie de moralidade, o que não impede que as balas voem.

Teria Vengeance sido um filme melhor se Johnnie To tivesse conseguido contratar Delon? Talvez tivesse suscitado um pouco mais de interesse internacional – Delon foi durante muito tempo uma estrela na China graças ao sucesso do seu Zorro, de 1975, um dos poucos filmes ocidentais lançados na República Popular da China na altura (os aldeões que lutam contra os proprietários de terras eram um tema popular nessa época). A sua fama permitiu-lhe visitar regularmente o país e criar produtos com a marca Alain Delon, desde cigarros a meias, malas de homem e fatos. É impossível dar uma resposta fechada, mas digamos que o rosto cinzelado de Hallyday e os seus intensos “olhos de lobo” azuis conferem uma certa vibração do outro mundo à sua actuação neste filme. E é uma vibração que contrasta bem com a personalidade depressiva de Wong e com a imagem psico-gangster de Yam, que se combinam para nos dar um pouco de Johnnie To…. Em Macau.