CRÓNICA
Dora Nunes Gago
Recebi, enviado por um colega, um vídeo que tem circulado pelas redes sociais: adapta uma canção natalícia, substituindo “noite de paz, noite de amor” por “Noche de iPad, noche de iPhone” – a mensagem é clara, não podia ser mais actual: que as redes sociais não impeçam a partilha com a família. Com efeito, o cenário parodiado no vídeo em torno de uma mesa de consoada, cada um exilado no seu iPad ou telemóvel, ilustra, sem dúvida, o momento mais intenso da pura ausência – não se trata de uma presença compartilhada, mas sim de uma “não presença” a impedir qualquer partilha. Este é um quadro repetido cada vez com mais frequência: gente fisicamente reunida e espiritualmente ausente, distante. Aliás, um estado de alienação individual a extravasar para o colectivo – e não, não se diga que são apenas os jovens, pois vejo-o transversal a várias faixas etárias – que, de tão banal, já se converteu numa insólita normalidade. Se, há alguns anos, ver num restaurante de Macau um casal sem trocar uma palavra, sem se olhar, sem qualquer lastro de interacção, a comer mecanicamente, cada um mergulhado no seu exílio “wébico” me parecia estranho, hoje, acredito que essa atitude seja cada vez mais frequente nos mais diversos locais do mundo e contextos. E não consigo deixar de me questionar: como chegámos a este ponto? Que linha da convivência humana se terá quebrado? Com quem estão estas pessoas que não querem (ou não conseguem) estar umas com as outras? Trocarão mensagens com amigos, conhecidos ou familiares distantes, também eles alienados de quem está ao seu lado, à sua frente? Postam talvez fotografias para validar os efémeros actos do quotidiano, como se isso lhes garantisse a existência. Como se a casca do dia-a-dia, a aparência de uma felicidade tantas vezes fingida, mil vezes aprovada por likes, se convertesse na mera essência. Como se o que nos humaniza fosse cada vez mais relegado para um espaço virtual longínquo, longe dos olhos e do coração. Como se ..? E, contudo, sim, é verdade, o mundo continua subjugado por uma pandemia que converteu o virtual em rei e senhor. Também não podemos negar as vantagens desse novo reino nos mais diversos contextos – senti-as na pele, confinada num território longínquo do sul da China, durante os últimos dois anos, podendo, apesar disso, comunicar com a família e amigos distantes, participar em reuniões, conferências, ouvir palestras, enfim, ter acesso aos mais diversos eventos distantes da minha esfera, aos quais não acederia presencialmente. Por isso, sem dúvida, o nosso mundo redimensionou-se. Mas… e o resto? Esse “resto” que é, no fundo, o essencial, a pedra de toque? O que nos humaniza, o que nos converte em seres de afectos? Talvez seja no âmago desse “resto” que o Natal possa adquirir algum sentido – como tempo de partilha, independentemente das crenças religiosas, da febre consumista – tempo de interagir com quem está ao nosso lado, à nossa frente, de tirar os olhos do ecrã. Tempo de reencontrar os gestos, os ritos puros, essenciais: o olhar, o riso, a conversa, que precisamos de resgatar além de todos os abraços adiados.







