Nome fundamental do modernismo em Macau, projectou edifícios como o Centro de Reabilitação de Cegos da Santa Casa da Misericórdia de Macau, na Areia Preta, e o Conjunto de São Francisco. Interventivo e humilde, assim o descreveram o último presidente do antigo Leal Senado, José Luís de Sales Marques, a arquitecta Carlotta Bruni, bem como o advogado Jorge Neto Valente, numa sessão de tributo realizada no sábado, integrada no Festival Literário de Macau, moderada pela arquitecta Maria José Freitas.
Discreto na vida profissional e pessoal, o arquitecto José Maneiras, fundador da Associação de Arquitectos de Macau, é considerado um homem conciliador e interventivo na vida política, civil e profissional. “Foi o meu primeiro amigo em Macau”, diz o advogado Jorge Neto Valente. Quando chegou ao território, a 5 de Outubro de 1970, para cumprir o serviço militar, vinha com uma referência do capitão do quartel militar de Castelo Branco. “Tenho lá o meu padrinho, José Maneiras, apresente-se!”
Quando Neto Valente chegou a Macau e esbarrou no arquitecto, deu-se a conhecer e assim ficaram amigos. Foram caminhando juntos pela vida, até chegarem a 1974, ano da Revolução de Abril, em Portugal, altura em que o arquitecto era membro do então Conselho Legislativo de Macau. A seguir ao Levantamento das Caldas, uma tentativa de golpe de Estado falhada a 16 de Março de 1974, numa reunião do Conselho Legislativo, procurou-se alinhavar um telegrama oficial, manifestando repúdio. “Nessa altura, o José Maneiras não subscreveu o telegrama”, conta Neto Valente.
Depois do 25 de Abril, o Conselho Legislativo voltou a reunir-se cinco dias depois. José Maneiras leria então um poema de Manuel Alegre.
No geral, descreve Neto Valente, José Maneiras foi “uma pessoa discreta, mas que sempre afirmou a sua maneira de pensar”. Manifestou “um espírito que era genuíno e democrático”, e era “um homem que procurava harmonia e congregar vontades”.
Um modernista
No espectro político, “teve uma atitude interventiva”, sem dar nas vistas, mas “foi fazendo”, refere Maria José Freitas, passando a palavra à colega, Carlotta Bruni. Representando a associação Docomomo, a arquitecta refere a exposição, patente na Casa Garden, com fotografias da obra de José Maneiras, da autoria de António Mil-Homens, que se focam no período de 1962 a 1975. “No nosso entender, é o período mais criativo da actividade dele”, diz Bruni. Olhando para a intervenção no espaço do arquitecto, refere ainda que, apesar das mudanças de Macau, o arquitecto continuou sempre a “tirar o maior proveito do menor número de metros quadrados”.
Entre alguns traços visíveis na sua arquitectura, encontram-se o cuidado com “os pormenores, as vigas em betão bruto, as janelas que têm todas um frame específico, as caixilharias.” Foi buscar ao brutalismo brasileiro algumas inspirações, para criar uma certa arquitectura.
José Maneiras costumava, em entrevistas, definir o seu trabalho como adoptando “um estilo simples e escorreito”. Bruni discorda. “De facto, é muito desenhado, não é nada simples e escorreito.”
José Maneiras fundou ainda a Associação de Arquitectos de Macau. “Temos de encarar a arquitectura como serviço à sociedade e não só aos nossos clientes”, diz.
A arquitecta destacou ainda o projecto residencial inovador para invisuais em Macau, no início da década de 1970, além do Conjunto de São Francisco. “No complexo à frente do Clube Militar, tenta ultrapassar os constrangimentos da densidade urbana e, sem nunca abdicar do seu estilo, desenhar edifícios que estejam em diálogo com o contexto que está à volta”, destaca.
Antigo presidente do Leal Senado
José Maneiras foi ainda presidente do Leal Senado, entre 1989 e 1993, antes de José Luís Sales Marques, presente na Casa Garden para falar sobre esse período em que lhe sucedeu. Procurou aprender com ele a “parte da gestão, da atitude e de um posicionamento no que diz respeito a um órgão municipal, o Leal Senado”, que, em 1988, teve uma oportunidade para se aproximar aquilo que seria uma câmara municipal em Macau, com elevado grau de autonomia administrativa e financeira. “Foi o primeiro presidente a ter de encarar o aspecto mais formal de como é que uma câmara funcionaria num contexto de transição de soberania, mas também num contexto de que havia uma participação superior das representações da sociedade civil das associações chinesas”, recorda. “O que aprendi com ele foi o grande respeito por este funcionamento democrático”, diz. Aprendeu a construir uma “certa atitude” em relação ao poder central.
José Maneiras conseguiu definir como seria essa relação, ajudando à entrada em cena de Sales Marques. “Herdei uma relação que depois foi muito fácil para mim gerir”, diz. Era um “municipalista”, com “espírito crítico”.












