A China retirou, pelo menos, nove altos responsáveis militares da Assembleia Nacional Popular, dias antes da abertura da sessão anual do Parlamento, numa nova vaga de purgas no Exército, sob a liderança do Presidente Xi Jinping.
A Assembleia Nacional Popular (ANP) actualizou a lista de delegados provenientes do Exército de Libertação Popular e da Polícia Armada do Povo, reduzindo o total para 243, segundo o jornal de Hong Kong South China Morning Post. Entre os afastados, estão cinco generais de quatro estrelas, um tenente-general e três major-generais.
Os cinco generais são Li Wei, comissário político da Força de Apoio à Informação; Li Qiaoming, comandante das forças terrestres; o ex-comandante da Marinha Shen Jinlong; o ex-comissário político da Marinha Qin Shengxiang; e o ex-comissário político da Força Aérea Yu Zhongfu.
Foram igualmente removidos o tenente-general Wang Donghai, comissário político do Departamento de Mobilização de Defesa Nacional da Comissão Militar Central, e os major-generais Bian Ruifeng, Ding Laifu e Yang Guang. As autoridades não divulgaram as razões para as destituições.
Também na quinta-feira, o Comité Permanente da ANP aprovou a destituição de Wang Xiangxi do cargo de ministro da Gestão de Emergências.
Segundo um estudo, publicado esta semana pelo projeto ChinaPower do ‘think tank’ Center for Strategic and International Studies (CSIS), 87% dos 47 generais nomeados a partir de 2022 foram investigados ou afastados. No total, cerca de 52% dos cargos superiores do ELP terão sido alvo de investigação ou purga nos últimos anos, refletindo uma reestruturação sem precedentes sob a liderança de Xi.
As destituições ocorrem num contexto de investigações em curso a dois generais de topo, Zhang Youxia e Liu Zhenli, por “suspeitas de graves violações da disciplina e da lei”, fórmula habitualmente utilizada na China para casos de corrupção.
A ANP reúne-se esta semana em Pequim para a sessão anual conhecida como “Duas Sessões”, que congrega delegados de todo o país e define as principais orientações políticas e económicas para o ano.
Relatório destaca purga sem precedentes
A purga nas Forças Armadas chinesas é “muito mais extensa do que se pensava”, tendo atingido pelo menos 101 oficiais superiores desde 2022, incluindo “nos níveis mais altos da liderança militar”, segundo o ‘think tank’ CSIS.
O estudo, publicado pelo projecto ChinaPower do Center for Strategic and International Studies (CSIS), descreveu a campanha anticorrupção como uma vaga de purgas “sem precedentes” na história recente do Exército de Libertação Popular (ELP), com impacto transversal em praticamente todos os seus ramos.
De acordo com a base de dados compilada pelos investigadores, 36 generais e tenentes-generais foram oficialmente afastados desde 2022. A estes juntam-se 65 oficiais de alto escalão classificados como “desaparecidos ou potencialmente afastados”, com base na ausência prolongada de aparições públicas, reuniões institucionais e outras actividades formais.
No total, o relatório identificou 101 casos confirmados ou possíveis, concluindo que a dimensão real da campanha “vai muito além do que é amplamente conhecido”.
Segundo o CSIS, as purgas atingiram departamentos da Comissão Militar Central (CMC) – o órgão máximo de comando das Forças Armadas chinesas – bem como todas as principais forças de serviço: Exército, Marinha, Força Aérea e Força de Mísseis. Também foram afectados comandos regionais estratégicos.
O estudo destacou particularmente o impacto na Força de Mísseis do ELP, responsável pelo arsenal convencional e nuclear da China, bem como em estruturas diretamente subordinadas à CMC. A concentração de purgas em áreas sensíveis sugere, segundo os autores, que a campanha não se limitou a casos isolados.
Em janeiro, o ministério da Defesa da China anunciou investigações a Zhang Youxia, de 75 anos e vice-presidente da CMC, e ao general Liu Zhenli, então chefe do Estado-Maior Conjunto da mesma comissão, por “graves violações da disciplina e da lei”, expressão habitualmente usada em casos de corrupção.
Zhang é considerado o número dois das Forças Armadas chinesas, abaixo apenas do Presidente chinês, Xi Jinping, que lidera a CMC. É também um dos 24 membros do Politburo do Partido Comunista Chinês, órgão central de decisão política.
O relatório do CSIS afirmou que as purgas dos últimos anos “esvaziaram significativamente” o topo da hierarquia militar, deixando múltiplas posições por preencher ou ocupadas de forma interina. Em alguns casos, funções de elevado nível permaneceram vagas durante períodos prolongados.
Embora Pequim apresente os afastamentos como parte de um esforço de combate à corrupção, o estudo observou que a escala, o ritmo e o alcance institucional da campanha são invulgares. A análise notou que a campanha não se restringiu a uma única geração de oficiais, mas atravessou diferentes segmentos da liderança.
Apesar da amplitude das purgas, o CSIS indicou que não há evidência de interrupções graves nas operações rotineiras do ELP. Exercícios, patrulhas e actividades militares continuam a decorrer normalmente.
Os investigadores alertaram, porém, que a remoção de um número tão elevado de oficiais experientes pode afectar a “planificação estratégica e a coordenação de actividades complexas”, sobretudo num momento em que o ELP está empenhado numa modernização acelerada e na integração de capacidades avançadas.
O relatório sublinhou que a substituição simultânea de vários quadros superiores cria desafios adicionais na preservação de conhecimento institucional, na coesão interna e na consolidação de cadeias de comando estáveis. O relatório concluiu que a escala das purgas “é muito mais ampla do que se pensava anteriormente” e que Xi Jinping terá agora de “reconstruir os escalões superiores da liderança do ELP”. Lusa













