A relação de Macau com a morte foi moldada tanto pelas tradições chinesas como pela influência da administração portuguesa. O professor Carlos Ka Nok Lo apresentou ontem, na Fundação Rui Cunha, uma palestra em que se traçou o percurso do território desde o século XIX até ao impacto da Segunda Guerra Mundial, que ainda hoje se faz sentir nas práticas contemporâneas de homenagem aos antepassados.
Do Festival Qingming à queima de notas de papel, a cultura chinesa tem uma forma muito própria de lidar com a morte e de prestar culto aos antepassados. Até a comunidade emigrante segue determinados costumes com raízes ancestrais, como o de transladar o corpo de volta ao local de nascença: “as folhas caídas voltam às suas raízes”, segundo um provérbio chinês. Em Macau, porém, a atitude perante a morte adquiriu contornos bastante especiais, moldada ao longo dos séculos pela influência portuguesa, o controlo político e as alterações demográficas do território.
O tema esteve ontem em discussão na Fundação Rui Cunha, numa palestra apresentada pelo orador Carlos Ka Nok Lo. Durante cerca de uma hora, o historiador e professor assistente da Universidade de Macau fez uma viagem até meados do século XIX e apresentou alguns dos acontecimentos que definiram a relação peculiar que a região ainda hoje mantém com a morte. Afinal, a indústria funerária em Macau continua actualmente a ser bastante limitada e, em alguns serviços, dependente dos recursos do interior da China. Também no cemitério de Heluoshan, em Zhuhai, os enterros de residentes de Macau representam mais de 60% do total. Mas em que contexto surgiram estes “funerais transfronteiriços”, e como tem sido a sua evolução ao longo dos séculos?
Recuemos até ao século XIX, quando a população chinesa residente em Macau ainda podia enterrar livremente os seus parentes falecidos no território, através da compra ou da ocupação de terrenos. O cenário começou a mudar por volta de 1845, quando Portugal declarou (unilateralmente) Macau como porto franco e intensificou o seu domínio sobre a cidade. A Rebelião Taiping decorreu nos anos seguintes, provocando um enorme êxodo de imigrantes vindos de diversas regiões do interior da China, como Cantão ou Fujian. “Em 1848, a população rondava os 20.000 habitantes. Depois da Rebelião Taiping, em 1868, havia já cerca de 100.000 habitantes”, explicou Carlos Ka Nok Lo.

Perante a súbita sobrepopulação de Macau e a escassez de recursos, o então governador de Macau, João Ferreira do Amaral procurou recuperar o controlo português da cidade com a apresentação de várias propostas – uma delas tão polémica que, segundo o orador, terá sido o principal factor para a sua morte prematura. A proposta de prolongar as muralhas da cidade até à fronteira chinesa exigiria a realocação dos túmulos chineses do seu local original para um cemitério específico a ser construído na zona de Mong Há. A ideia de perturbar o descanso dos antepassados não foi bem acolhida entre a comunidade chinesa, tendo o governador sido assassinado em 1849 perto do Templo Lin Fong.
Apesar de os projectos para este cemitério não terem avançado, o domínio português em Macau continuava a intensificar-se. Enquanto os portugueses e macaenses católicos poderiam continuar a ser enterrados no território, a fé e as tradições diferentes dos chineses obrigariam a que os enterros na península de Macau passassem a ser proibidos a partir de 1865. A remoção das sepulturas chinesas ocorreu, lentamente, ao longo das três décadas seguintes.
Em 1881, a administração portuguesa conseguiu evitar um conflito directo com a população chinesa ao permitir que as questões funerárias fossem tratadas por um intermediário: o hospital Kiang Wu. Foi então finalmente criado um cemitério de caridade chinês, gerido pela Associação de Beneficência do Kiang Wu, perto da fronteira com o continente.
Carlos Ka Nok Lo referiu também a Segunda Guerra Sino-Japonesa como outro dos grandes factores que marcaram a vida – e da morte – dos residentes de Macau. Na década de 1940, Macau acolheu um grande número de refugiados do interior da China e de Hong Kong que fugiam à agressão japonesa nas áreas circundantes e procuravam abrigo no território protegido pela neutralidade portuguesa. Com uma explosão populacional sem precedentes, o território foi palco de uma extrema escassez de alimentos e recursos – e, como consequência, de um pico de mortalidade até então inédito.
Para além do excesso de população viva, também o cemitério de Kiang Wu estava totalmente lotado, como atestam as notícias dos jornais da época. A solução passava pelas valas comuns, localizadas um pouco por todo o território. “Na altura, se se escavasse um buraco numa qualquer localização aleatória, havia uma grande possibilidade de se encontrar um corpo ou um caixão”, salientou o orador. Para os chineses de Macau, a solução passava por aderir à fé católica para conquistar o direito a ser enterrados com dignidade.

Face a esta situação crítica, o governo português acabou por anunciar que também os chineses não crentes poderiam ser enterrados nos cemitérios católicos de Macau por um curto espaço de tempo. Depois da rendição dos japoneses, muitos destes restos mortais foram trasladados para o cemitério de Heluoshan, do outro lado da fronteira. O professor Carlos Ka Nok Lo refere que, “todos os anos, no Festival Qingming, milhares – não, centenas de milhares de pessoas de Macau atravessam a fronteira e prestam homenagem aos seus antepassados enterrados neste cemitério”.
A palestra de ontem inseriu-se no Ciclo de Palestras Públicas de História e Património, organizado em parceria regular entre a FRC e o Departamento de História e Património da Universidade de São José. A apresentação baseou-se na investigação que Carlos Ka Nok Lo está a desenvolver para a sua segunda monografia, “Morte e Práticas Funerárias na Região Administrativa Especial de Macau, China”, prevista para publicação em 2026.












