Feng Shui: nove peixes e um cão com ténis

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Em Macau, assim que entramos numa loja de comércio tradicional ou restaurante típico deparamo-nos sempre com um aquário cheio de peixes, muito bem cuidado, como se fosse o coração do estabelecimento. Não é só moda, é Feng Shui vivo, palpável.

Ao contrário dos ocidentais que, ao se mudarem para uma casa nova correm para comprar um tapete de entrada ou uma planta para a sala, os chineses têm uma prioridade diferente: antes de mais nada tem que haver um aquário com peixes ou uma gaiola com um passarinho.

A semelhança fonética de peixe-dourado com as palavras “ouro” e “abundância” impulsiona o mantra chinês de colocar nove peixes num aquário: oito vermelhos ou alaranjados e um preto. O peixe preto absorve o mau “Chi”, enquanto que os de tons quentes trazem prosperidade. Quando um morre, não há drama, é interpretado como um sinal… Sinal de que o peixe levou com ele o azar.

Os pássaros têm outra função. Um canário na varanda, a cantar de manhã, ativa o “Chi” do sucesso e do reconhecimento. Os mais velhos juram que o canto abre caminhos. Quando o pássaro morre, a gaiola fica três dias virada para a parede em sinal de respeito e prevenção de energia estagnada.

Na China continental, a relação com os animais sempre foi mais pragmática. Durante séculos, nas regiões mais frias, no solstício de inverno comia-se carne de cão pois acreditava-se que aquecia o corpo e aumentava o “yang”. Já dizia o ditado: “quando chegar o inverno, um cão vale três casacos de pele”. Era sazonal, quase ritual. Em Yulin, o festival da carne de cão ainda resistiu até há bem pouco, mas a pressão urbana, as novas gerações, os valores internacionais e a globalização fizeram com que o costume recuasse. Hoje, em quase toda a China urbana, o cão é tratado como um elemento da família, com direito a tosquia da moda e roupa de marca.

É por isso que em Macau se costuma dizer, meio a brincar meio a sério, quase sempre para justificar o choque cultural sentido em tantas áreas, que “nós passeamos os cães e comemos os pássaros; eles comem os cães e passeiam os pássaros”. A realidade local, porém, desmente o estereótipo. Em Macau o cão sempre foi de guarda ou companhia, nunca panela. Talvez por influência intencional dos portugueses, talvez porque o dinheiro dos casinos chegou cedo e trouxe outros luxos ou, talvez, porque a região é abençoada por invernos curtos e soalheiros. Em Macau o ladrar mais comum é o de um micro caniche dentro de um carrinho de bebé, com uns ténis calçados para não queimar as patinhas no alcatrão escaldante dos meses de verão e uma conta de Instagram com mais seguidores do que muitos humanos.