A campanha para o parlamento de Hong Kong recomeçou ontem, uma semana após um incêndio que causou pelo menos 159 mortos, mas com maior incerteza sobre a votação no domingo. Os debates entre candidatos ao parlamento voltaram a realizar-se, após seis dias de interrupção, embora as restantes atividades públicas da campanha eleitoral permaneçam suspensas. O comentador político Sonny Lo disse à Lusa que o incêndio nos Novos Territórios aumentou a incerteza em torno da votação de domingo, que será “um indicador mais claro da credibilidade do Governo”. Os residentes descontentes com a resposta do executivo à tragédia têm três escolhas possíveis, sublinhou o analista: “não votar, votar em candidatos do centro ou independentes, ou apresentar um voto inválido”.
O líder do Governo da região administrativa especial anunciou na terça-feira que as eleições “serão realizadas como previsto” no domingo. Manter a data das eleições para o Conselho Legislativo (LegCo, na sigla em inglês), que o executivo ponderou adiar, “é respeitar a ordem constitucional e o Estado de direito”, insistiu John Lee. Um anúncio que não chegou a toda a gente, incluindo a John Malig, um português nascido em Hong Kong: “A sério? Pensei que as iam adiar”. Nada que mude a vida do cantor: “Eu não voto desde que nasci aqui e não tenciono votar [no domingo]. Além disso, a minha família também nunca votou, por isso não me afeta muito”. Malig explicou à Lusa que nunca votou porque, como euro-asiático, descendente de portugueses da vizinha região de Macau e de filipinos, sempre se sentiu um forasteiro em Hong Kong. Mas mesmo para os residentes de etnia chinesa, o impacto do pior incêndio a afectar a cidade desde 1948 não deixa de pairar sob as eleições legislativas de domingo.
Após o recorde de baixa participação de 30,2% na votação de 2021 – a primeira após uma reforma eleitoral que afastou os democratas – as autoridades tinham lançado uma campanha para atrair os eleitores. Sonny Lo admitiu ser impossível prever as intenções dos votantes, uma vez que a revisão de 2021 tornou a incitação pública ao boicote eleitoral, ao voto em branco ou nulo, um crime punido com pena de prisão até três anos. No entanto, o comentador político sublinhou que, além dos descontentes, o incêndio pode também levar a uma menor mobilização dos partidos alinhados com o Governo e com Pequim. Dos 90 lugares no LegCo, apenas 20 são eleitos (entre 51 candidatos) por sufrágio universal direto em círculos geográficos, com 30 eleitos (entre 60 candidatos) por distintos sectores de atividade e os restantes 40 (entre 50 candidatos) designados por um colégio eleitoral, cujos 1.500 membros são, na sua maioria, pró-Pequim.













