Cuca Roseta já percorreu o mundo com o seu fado, com salas lotadas em locais tão díspares como Espanha, Brasil ou até mesmo a China. No dia 11 de Outubro, pelas 20h, é altura de se apresentar pela primeira vez ao público de Macau, em conjunto com a Orquestra Chinesa de Macau (OCM). Em conversa com o PONTO FINAL, a artista promete uma noite de diálogo entre diferentes culturas e sonoridades, sem perder a essência daquilo que torna o fado o género português por excelência.
Embora alguns tradutores continuem a defender que a palavra “saudade” é intraduzível, a sua definição extrapola constrangimentos linguísticos. Mesmo sem legendas ou intérpretes, qualquer audiência de qualquer parte do mundo percebe o que exprime a voz comovida da fadista, o que transmitem os gemidos da guitarra portuguesa que a acompanham. Dispensam-se as palavras: talvez o fado seja a melhor tradução de um conceito que, afinal, é universal.
Cuca Roseta, uma das mais importantes fadistas contemporâneas, reconhece este poder transcendente da música que interpreta. Chama-o até de “medicina”; um bálsamo em forma de melodia que purifica tanto o artista como o ouvinte. As raízes portuguesas deram forma a este género musical e tornaram-no um símbolo imaterial de um pequeno país, mas não o delimitam, diz. Cada vez mais artistas escrevem, compõem e dão um cunho mais actual aos conteúdos dos temas – e já Amália Rodrigues incorporava diferentes instrumentos e línguas na sua música.
É este fado saudosista e contemporâneo, tradicional e de braços abertos para o mundo, que Cuca Roseta apresenta em Macau este sábado. O primeiro concerto no território aconteceu em 2019 em formato de vídeo, devido às restrições da pandemia, e apenas aguçou a vontade de conhecer de perto um público que, mesmo no outro lado do globo, ainda demonstra “uma grande ligação a Portugal”. A Orquestra Chinesa de Macau confere um toque oriental à poesia cantada em português, aprofundando os laços entre um e outro ponto do mundo. E, quiçá, haverá ainda espaço para deixar “um miminho” especial ao público de Macau, confidencia a artista.
Os bilhetes para o espectáculo, a decorrer no grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM), estão disponíveis para venda com preços que oscilam entre as 150 e as 400 patacas.
Esta é a primeira vez que se apresenta em Macau, depois de um concerto em vídeo em plena pandemia. Que memórias tem desse espectáculo?
Foi um concerto muito bom… mas, claro, já foi em 2019. Ficámos sempre com vontade de regressar a Macau e de poder actuar presencialmente. Recebemos um ‘feedback’ fantástico desse concerto, mas estamos muito, muito, muito felizes de finalmente podermos ir a Macau. A Orquestra Chinesa de Macau também nos fez ficar com mais água na boca.
O que podemos esperar deste primeiro espectáculo ao vivo?
Como o anterior deixou muita vontade de regressar presencialmente, este será com certeza muito mais especial. Estamos a preparar-nos também para isso. No ano passado festejámos em Dezembro os 15 anos de carreira e fizemos um espectáculo especial para esse momento, no Meo Arena [o maior espaço de eventos em Lisboa, localizado no Parque das Nações], e portanto andamos com esse concerto pelo mundo, que passa pela tradição, pelo fado, mas não só. Há músicas tradicionais de outros lugares do país – por exemplo, o folclore e as marchas populares – e também, claro, as músicas que foram fazendo mais sucesso ao longo dos anos. Portanto, estamos muito, muito ansiosos, principalmente com esta orquestra fantástica [OCM].
O concerto é descrito pelo Instituto Cultural de Macau como “uma fusão entre Oriente e Ocidente”. O alinhamento pensado para 11 de Outubro reflecte esta ideia? Alguma das canções foi escolhida especificamente para Macau?
Eu acho que este encontro entre o Ocidente e o Oriente tem mais a ver com o facto de uma música do Ocidente – a tradição portuguesa, neste caso – ser tocada por uma orquestra chinesa, por músicos do Oriente, com instrumentos típicos. Automaticamente, existe essa fusão. Ainda estamos a tentar, mas gostaríamos de tentar cantar uma música tradicional para que essa fusão fosse ainda mais bonita. Seria também como um miminho que se deixa ao público de Macau.
Em Setembro, já tinha participado na campanha turística “Sentir Macau”, em Lisboa. Pensa no fado como uma ponte de ligação entre as duas culturas?
É verdade, fiz parte do “Sentir Macau”. Fui convidada para cantar e é muito interessante realmente perceber que não existem coincidências, não é? Há uma ponte, sim; ainda há uma ligação grande de Macau a Portugal. Penso que ainda há interesse dos dois lados pela cultura, pela tradição. Acho que há muita curiosidade dos portugueses com Macau e dos macaenses com portugueses.

Já tinha actuado em várias cidades da China, como Pequim ou Xangai. Como é que acha que o fado é compreendido do outro lado do mundo, longe das origens lusófonas? Será a melancolia do fado universal, capaz de transcender as barreiras linguísticas?
O fado é muito bem recebido na China. Aliás, nós quando cantámos pela última vez em Xangai, foi um concerto na rua, que tinha 2.500 lugares, e esgotou em 20 minutos. Portanto, não só é um público fantástico, que é extremamente atento e curioso, como também se vê um interesse pelas diferentes culturas. Neste caso, pela cultura portuguesa. Uma das frases que eu mais digo é que não existem fronteiras para o fado – e daí ter-se tornado património imaterial da humanidade, não é? O fado vem de um país muito pequeno, mas é uma canção que é valorizada e escutada no mundo inteiro, maioritariamente pelos estrangeiros e não pelas comunidades. Há um pouco uma ideia de que os fadistas viajam muito pelo mundo, mas cantam para as comunidades. Não, não é a verdade. No ano passado, fizemos uma contagem dos diferentes países para os quais cantámos, e só dois deles é que foram para comunidades – Suíça e França, e mesmo assim aí também cantámos para os suíços e para os franceses – e os outros 54 países foram para estrangeiros que não entendem absolutamente nada da língua. Na China foi exactamente igual: havia muitas pessoas a reagirem ao fado de uma forma muito emocionante. É uma música que não tem fronteiras e que vai para além da língua. É um sentir, uma vibração, uma energia… vem desta cultura saudosista e sebastianista, mas que realmente vai de alma para alma, que toca num lugar mais profundo, não tão mental ou superficial. Embora a palavra e a poesia sejam extremamente importantes para o fado e para quem o canta – e é importante que o fadista ou que o intérprete realmente se emocione com essa verdade daquilo que canta – do outro lado basta isso. Basta sentir essa verdade que vai directa ao coração.
A Cuca distingue-se no panorama contemporâneo do fado pela sua visão moderna, que muitas vezes integra outros géneros musicais. Teria interesse em juntar o fado a instrumentos tradicionais chineses?
Eu tenho todo o interesse em juntar o fado aos instrumentos tradicionais chineses. Acho isso lindíssimo. Gosto muito de fusões, mantendo-me sempre no fado e na raiz. E acho que estas portas foram abertas já pela Amália: nós ouvimos a Amália cantar em italiano, em espanhol, em inglês. Ela não cantava só fado. Onde ela ia ela cantava também noutras línguas e noutros géneros musicais, mas a sua pele, a sua essência, era no fado. Acho que comigo também se passa um pouco o mesmo. Fui a Cabo Verde fazer uma turné e quis cantar em crioulo, por exemplo, as mornas de cada ilha. Depois fui a Goa e quis aprender algumas músicas em concani. Acho que é sempre muito interessante manter-se, obviamente, o fado, mas poder cantar uma música ou outra aos lugares onde vamos, onde as pessoas estão de coração aberto para receber a nossa tradição… Acho que é até um gesto bonito, de gratidão, fazer-se essa fusão entre as culturas que têm interesse em receber Portugal, em receber a tradição portuguesa, e o fadista que homenageia e agradece a esse público cantando ou convidando músicos que tragam um pouco da tradição desse país. Isso é algo que eu gosto muito de fazer e que faço muitas vezes. Já cantei em russo, hindi, espanhol, italiano, inglês. Em georgiano, em Tiblíssi. É muito bonito poder fazer sempre essa fusão.
O fado, apesar de muito ligado à tradição, tem vindo a evoluir bastante nos últimos anos. É difícil manter este equilíbrio entre a essência do fado e a sua modernização, com laivos mais experimentais?
Eu acho que não é difícil, não é difícil manter a raiz do fado. Quando deixa de ser fado, nota-se logo que já não é fado. O fado é algo específico: tem aquela cadência, utiliza muitos tons menores; é esta declamação de poesia cantada, uma história que se conta de algo que é verdadeiro, que o intérprete tem de ter vivido. É este fechar dos olhos para olhar para o coração, esta introspeção, esta profundidade… Não é superficial, não é para mostrar o vestido e a roupa e a cara bonita. É mesmo uma canção de quem olha para dentro, para o coração, e partilha todas essas emoções de um lugar profundo para um lugar profundo. Em relação à modernização do fado, acho que o fado se adapta apenas aos tempos em que está. No fundo, adapta-se através… não musicalmente, musicalmente mantém-se igual, mas adapta-se através das letras novas, mais actuais, porque hoje em dia muitos compõem e escrevem. Antigamente, se calhar, falava-se de uma Lisboa mais saudosista, mais triste, mais melancólica… dos maridos que partiam nos barcos e as mulheres não sabiam quando regressariam. Hoje em dia canta-se a saudade e canta-se o amor, canta-se Lisboa, cantam-se os bairros típicos e as festas tradicionais, igualmente, mas de forma mais actual. Em relação aos instrumentos, penso que não há nada de muito novo. Já foram utilizados todos os instrumentos no fado. Vimos a Amália a cantar com orquestra, e tudo o que vier vai sempre enriquecer. Também é muito bonito ir à fonte, cantar apenas com a guitarra portuguesa e com a viola. Quiçá acrescentar um baixo, uma percussão… acho que isso só acrescenta. Moderniza, de uma certa forma, mas não tira absolutamente nada da essência do fado.
Enquanto uma das vozes mais importantes do género, como vê o futuro do fado? Acredita que concertos além-fronteiras – como este em Macau – contribuem para que o fado se venha a consolidar como uma linguagem musical global?
Eu vejo um grande futuro para o fado. Por acaso, vejo-o muito estável comparativamente com a era em que nos encontramos, porque há sempre muitas músicas que vão e que vêm e o fado mantém-se. É uma tradição que está sempre viva. É óptimo continuar a levar o fado além-fronteiras, como a Amália começou a fazer. O fado continua a ser uma música do mundo, que chega a cada vez mais pessoas, e continua para mim a ser um pouco uma música que está entre o canto devocional e a performance. Não é nem uma coisa nem outra. Existe uma cura; há sempre uma catarse para quem canta fado e para quem escuta fado, mesmo não entendendo nada. Acho que vai sempre haver um espaço para esta música viajar o mundo. Vai sempre haver espaço para ela chegar a quem aprecia música e quem quer viajar por esta arte que se transforma, que se converte nas tristezas de um povo, estas tristezas que se convertem em beleza e arte e que inspiram o mundo. Inspiram e curam. Porque esta canção, quando as pessoas cantam… É sempre uma fórmula de abrir tampas que estão fechadas. Tampas emocionais. É sempre uma cura, um momento de alívio, de deixar para trás algo que já não nos pertencia mais. Então eu acho que existirá sempre lugar para esta medicina – posso-lhe chamar medicina. Existirão sempre portas abertas no mundo e mais lugares onde levar esta canção.











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