A passada quinta-feira fica para a história de Macau por vários motivos: para além de ter motivado o mais longo sinal preto de chuva intensa, foi ainda o segundo dia mais chuvoso desde que há registos. Desde tempestades tropicais a temperaturas elevadas, os dados dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) indicam que o território tem vindo a testemunhar fenómenos meteorológicos extremos com cada vez maior frequência e intensidade.
O dia 14 de Agosto, passada quinta-feira, foi o segundo dia mais chuvoso no território desde que há registos, de acordo com dados disponibilizados pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) e analisados pelo PONTO FINAL. O recorde continua a remontar ao dia 1 de Junho de 2021, quando as estações de monitorização em Macau registaram 288 mm de precipitação – mais 22,6 mm em relação aos 265,4 mm verificados na quinta-feira.
O mau tempo que se abateu sobre o território levou à emissão do segundo sinal preto de chuva intensa deste ano, que permaneceu em vigor durante três horas e 48 minutos. Este foi o sinal preto mais longo desde a implementação do Sistema de Sinais de Chuva Intensa em Macau, a 1 de Setembro de 2020, dividido em três níveis de impacto: amarelo, vermelho e preto. Segundo esta classificação, o sinal preto representa chuva intensa de cerca de 80 mm, registada “ao longo de uma hora numa vasta área da RAEM”, existindo o risco de deslizamentos de terras ou de inundações muito graves.
Foi este o caso na tarde de quinta-feira, quando as chuvas torrenciais provocaram inundações em várias zonas de Macau, obrigando ao encerramento de estradas, túneis e rotundas e motivando 55 pedidos de ajuda às autoridades. A convergência da circulação periférica do tufão Podul e de um fluxo de ar sudoeste, associada a outros factores, resultou numa área de chuva “estagnada sobre a área do Cotai durante muito tempo”, explicam os SMG.
Os sinais de tempestade tropical e os sinais de chuva intensa foram cancelados no mesmo dia, pelas 18h35. O afastamento progressivo do tufão e a influência de um anticiclone de alta altitude fizeram abrandar a chuva durante o fim-de-semana, mas por pouco tempo: no início desta semana, uma depressão tropical originária no Mar do Sul da China voltou a desestabilizar o tempo em Macau e obrigou a que o sinal n.º 3 de tempestade fosse içado durante a tarde de anteontem.
Segundo os registos de precipitação dos SMG, que remontam a 1952, o dia mais chuvoso em Macau ocorreu a 1 de Junho de 2021. No período de maior precipitação, por volta das 5h da madrugada, os SMG emitiram pela primeira vez o sinal preto de chuva intensa desde a implementação do novo sistema de classificação, no ano anterior.
FENÓMENOS EXTREMOS CADA VEZ MAIS FREQUENTES
Os dados dos SMG sugerem que fenómenos meteorológicos extremos – como chuvas intensas, temperaturas elevadas e passagens de tufões – têm sido cada vez mais frequentes e intensos no território, sobretudo a partir de 2008.
No dia 20 de Julho, o tufão Wipah obrigou ao levantamento do sinal n.º 10 de tempestade tropical das 12h30 às 17h de domingo, um dia depois de o sinal n.º 1 ter sido içado no sábado. Segundo as autoridades, nunca antes o sinal máximo de alerta tinha sido emitido tão cedo: antes do Wipah, o recorde de sinal n.º 10 mais antecipado datava de 24 de Julho de 1991, aquando da passagem do tufão Brendon.
Desde que há registo, foram oito os tufões de intensidade máxima a passar por Macau: Hope, em 1979; Ellen, em 1983; Brendon, em 1991; York, em 1999; Hato, em 2017; Mangkhut, em 2018; Higos, em 2020. O Wipah torna-se assim o nono ciclone tropical a exigir o hasteamento do sinal n.º 10 desde 1968 (aquando da criação do Comité dos Tufões) e o quinto desde 2017, apontando para um aumento da frequência dos níveis máximos na escala de alerta.
Considerando as estatísticas de hasteamento dos sinais de tempestades tropicais publicadas na página dos SMG, verifica-se que têm sido observados fenómenos meteorológicos extremos com maior frequência nos últimos anos – sobretudo desde 2008, ano em que se contabilizaram quatro tempestades tropicais de sinal n.º 8. Em 2017, com o tufão Hato, bateram-se os recordes relativos à velocidade e às rajadas de vento (132 km/h e 217km/h, respectivamente). O ano seguinte de 2018 quebrou um novo recorde, quando o sinal n.º 8 se manteve içado por um período inédito de 138 horas.
Em paralelo, as datas dos primeiros e últimos hasteamentos dos sinais de tufões têm vindo a alargar-se, começando cada vez mais cedo e terminando mais tarde. Em 2008, o primeiro sinal de tempestade tropical foi lançado a 17 de Abril e, em 2022, o período de alerta prolongou-se até quase ao final do ano, a 20 de Dezembro.
Também as temperaturas registadas na região têm sido cada vez mais elevadas. O ano de 2024 foi o mais quente desde que há registos, a par com 2019, alcançado uma temperatura média de 23,6 graus Celsius. O balanço meteorológico das autoridades indica ainda que houve 42 dias considerados “quentes” em 2024 (ou seja, com temperaturas superiores a 33 graus Celsius), mais 10,7 do que a média.
O fenómeno parece continuar a aplicar-se ao ano de 2025, considerando os dados relativos ao passado mês de Julho. Entre os 31 dias do mês, 18 foram considerados quentes – um aumento de 9,6 dias face aos valores médios climáticos e de oito dias face ao período homólogo do ano passado. Contabilizaram-se também seis noites quentes, mais 1,2 do que a média.











