“Sociedades onde se pode expressar críticas são mais felizes e mais bem-sucedidas”, defende embaixador da UE em Macau

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Em entrevista à revista em língua inglesa Macau Business, Harvey Rouse, chefe do escritório da União Europeia em Hong Kong e Macau desde Setembro do ano passado, defende que a influência europeia é uma peça valiosa para os múltiplos objectivos a que Macau se propõe, desde a diversificação da economia aos trabalhos de descarbonização. Questionado sobre o relatório anual que a UE emite anualmente sobre a situação política e económica do território, o embaixador garante: “sempre que considerarmos necessário, continuaremos a pronunciar-nos de forma respeitosa e construtiva”.

Harvey Rouse, chefe do escritório da União Europeia (UE) em Hong Kong e Macau, defendeu a importância de preservar a singularidade das regiões administrativas especiais, consagrada no princípio ‘um país dois sistemas’, e reconheceu que a organização continuará a “expressar críticas de forma respeitosa e construtiva” sempre que considerar pertinente. Numa entrevista à revista Macau Business – a primeira desde que assumiu o cargo anteriormente ocupado por Thomas Gnocchi, em Setembro – Rouse acentua ainda que a cooperação com Bruxelas é um elemento-chave para a diversificação económica do território e os objectivos de descarbonização fixados até 2050.

O último relatório elaborado pela UE sobre Macau, em 2024, alertava para o “aumento contínuo do enfoque na segurança nacional”, que poderia vir a “enfraquecer os direitos fundamentais”. Em relação a este tópico, o responsável lembrou que o bloco económico tem “monitorizado de perto o desenvolvimento político e económico de Macau desde a transferência da soberania”, em 1999, admitindo “desafios crescentes” nos últimos anos. Ainda assim, “no que respeita aos direitos políticos e às liberdades fundamentais, não me compete dizer o que será incluído no próximo relatório” de 2025, ressalvou.

“Sempre que considerarmos necessário, continuaremos a pronunciar-nos de forma respeitosa e construtiva. Estamos certos de que as sociedades abertas, onde se podem expressar críticas, são mais felizes, mais atractivas e mais bem-sucedidas”, afirmou, fazendo notar que até os “bons velhos amigos” têm pontos de divergência. “Entre amigos, é importante que haja mais comunicação, não menos. É importante falarmos uns com os outros de forma construtiva e com respeito mútuo”.

Recorde-se que, em Junho do ano passado, o Governo da RAEM reagiu com “profundo desagrado” e “firme oposição” ao relatório da UE, ao mesmo tempo que lamentou a ausência de “elementos positivos e úteis” sobre a região. “Os assuntos de Macau são assuntos internos da China, pelo que a União Europeia não tem direito de interferir”, escreveu o Governo, em comunicado, alertando que as críticas feitas à gestão do território ou à alegada erosão das liberdades poderiam prejudicar as relações bilaterais.

EMPRESAS EUROPEIAS “CONTRIBUEM MUITO PARA A ECONOMIA DE MACAU”

Ao longo da entrevista, Harvey Rouse destacou múltiplas vezes que o seu papel enquanto embaixador em Hong Kong e Macau passa por promover a “diversificação, abertura e unicidade” das regiões, sob o lema ‘um país, dois sistemas’. Esta intenção não se cinge ao plano político, estendendo-se também ao económico: “é do interesse de Macau procurar novas perspectivas, mas também manter a sua singularidade e promover uma sociedade aberta e diversificada”.

A diversificação económica da região e a transição para uma economia descarbonizada são os dois principais objectivos que o responsável da UE identifica em Macau, na sequência de vários eventos onde teve a oportunidade de dialogar com elementos do Governo como Ho Iat Seng, o antigo Chefe do Executivo, Tai Kin Ip, secretário para a Economia e Finanças, ou André Cheong, secretário para a Administração e Justiça. Embora constate “um claro reconhecimento da importância das relações entre a UE e Macau” por parte do Governo da RAEM, Harvey Rouse enfatiza que a intensificação da influência europeia desempenharia “um papel vital no apoio à diversificação de Macau e à sua transição para uma economia descarbonizada”.

“As empresas [europeias] já estão muito activas numa vasta gama de sectores, contribuindo para indústrias não relacionadas com o jogo como, por exemplo, a banca, os serviços financeiros e os produtos alimentares e bebidas”, ilustrou. De acordo com o diplomata, o desenvolvimento de Macau passa também pela importação de talentos estrangeiros e mão-de-obra altamente qualificada, com efeitos benéficos tanto para as empresas locais como para a comunidade empresarial estrangeira. É também intenção da UE reforçar a oferta de intercâmbios académicos com institutos de ensino superior europeus – nomeadamente, através do programa Erasmus Mundus –, projectando ainda mais a imagem de Macau num plano internacional.

“Da minha parte, acredito que as empresas europeias já estão a contribuir muito para a economia de Macau”, assumiu. “Já somos um parceiro comercial muito forte, mas também estamos presentes em muitos sectores da economia local”. Os planos futuros do bloco económico europeu serão discutidos “em breve” numa reunião a sós com o actual Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, que deverá visitar a Península Ibérica nos próximos meses. Sobre esta viagem, ainda sem datas confirmadas, Harvey Rouse é peremptório: “Se houver uma visita a Bruxelas, será igualmente uma visita muito bem-vinda”.