A República Popular da China quer construir uma identidade lusófona em Macau, mas, dadas as suas características únicas, há vários desafios pela frente, concluem os investigadores do Instituto do Oriente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, Li Guofeng e Nuno Canas Mendes.
O objectivo tem sido a construção de uma identidade lusófona comum na RAEM desde a transferência da administração em 1999, mas há vários “pontos fracos” que podem dificultar o desenvolvimento do português. É a conclusão de um trabalho sobre “O ensino do português na RAEM e a construção de uma identidade lusófona”, da autoria dos investigadores Li Guofeng e Nuno Canas Mendes, apresentado nas Conferências da Primavera 2025, no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, no dia 17 de Março.
Depois da transferência de administração, em 1999, ao se observar o ensino de português na RAEM, percebeu-se um movimento de promoção da língua e cultura portuguesa no território chinês. Foi esse o mote para o trabalho de investigação, que procura responder à pergunta: “Quais são os motivos que potenciam a divulgação da língua portuguesa pela parte chinesa após a transferência em 1999?”.
Ao estudar esta questão, explica Li Guofeng, optou-se, neste trabalho, por uma “abordagem construtivista”, que identifica a identidade como “um produto socialmente construído ao longo da vida e das interacções naquela sociedade”. Com “efeitos retroativos”, recorta-se, assim, um passado comum com o objectivo de ter um destino comum, construindo-se uma “comunidade imaginária”, com base na língua portuguesa, definida “por um poder superior”.
O paradigma do caso de Macau
O caso de Macau acaba por ser paradigmático. Olhando-se para Hong Kong, por exemplo, “o uso do inglês é tratado como algo que não é bem-vindo da parte das autoridades”, uma vez que pode colocar questões no que toca à “coesão política com a China Continental”. E se, em outras colónias, geralmente tenta-se “adaptar” alguns dados do passado, no território isso não sucede. “As relações entre Portugal e a China são, de um modo geral, pacíficas e amigáveis, e, nos séculos passados, em Macau, não houve grandes riscos políticos como em Hong Kong”, diz, explicando que “o território sempre dependeu — e continua a depender — da China”. Não haveria, por isso, problemas em promover a língua portuguesa.
Outro factor que leva a uma maior facilidade na promoção da língua portuguesa, atualmente, prende-se com “a presença relativamente mais fraca da língua e cultura portuguesa no território”, durante a administração portuguesa. “Isto quer dizer que agora a China agora pode orientar o desenvolvimento dessa língua e isto não acontece em Hong Kong”, diz, salientando que, para Pequim, “a divulgação de qualquer língua futura na China, em primeiro lugar, não pode trazer riscos para a segurança nacional e a estabilidade política”.
Além disso, a divulgação da língua “tem de ser organizada, orientada ou até controlada pela parte chinesa para defender os interesses chineses” e os objectivos podem ver-se a vários níveis. ”Para a RAEM é para fomentar o turismo, para ter um destino turístico, internacional, europeu, de certa forma europeu, e também diversificar os pilares de desenvolvimento económico, aumentando, assim, as oportunidades de negócios com outros países”, diz. Já em termos regionais, ao promover-se a língua portuguesa, defende-se também os interesses da Grande Baía. “É uma zona que a China quer desenvolver para abrir ao mundo exterior, vai servir para defender os interesses nacionais da China e é mais um canal para incentivar intercâmbios económicos entre a China e os países de língua portuguesa, principalmente pela promoção da língua portuguesa no território”, acrescenta.
Falta ainda uma orientação clara
Porém, diz o investigador, não se vê ainda “um desígnio superior muito claro sobre a língua portuguesa, ou seja, em termos das políticas da língua, do planeamento linguístico não há guidelines para o português em Macau”. Pode indicar-se que existe a Lei Básica de Macau, onde a língua portuguesa é elevada ao estatuto de língua oficial, além de vários relatórios do Governo Central, que a mencionam como um objectivo, mas, segundo Li Guofeng, não há ainda uma vontade expressa e manifesta no que toca ao caminho a seguir.
Salientando o papel que as universidades do território têm neste campo, de desenvolvimento da língua portuguesa, o investigador destaca algumas, entre as instituições de ensino superior. “A Universidade Politécnica de Macau tem sido muito activa neste campo e há um trabalho que o Instituto Camões não consegue fazer em Macau, na China”, diz, especificando: “Publicam manuais pedagógicos dirigidos a alunos chineses.” Salienta ainda as colaborações entre as instituições de ensino superior de Macau e da China, além das várias actividades académicas cujo objectivo é aprofundar o conhecimento da língua portuguesa.
Nos seus contactos com as instituições de ensino superior de Macau e da China e com os diferentes docentes e investigadores, Li Guofeng destaca uma indicação, que lhe foi deixada por colegas chineses: “Tenho mais confiança em participar numa palestra organizada pela parte de Macau do que pela parte de Portugal.” Por um lado, as instituições portuguesas “não estudam especificamente a situação da língua portuguesa na China” e, por outro, “há sempre algumas considerações da segurança política pela parte dos docentes chineses”, por se tratar de um país estrangeiro, ao invés de ser território chinês.
Entre os factores de atracção de Macau, o investigador destaca o recurso a tecnologia de ponta relacionada com a língua portuguesa, destacando dois laboratórios da Universidade de Macau, e a criação de centros de investigação. “Em 2000/2001, havia 600 e tal alunos no Instituto Português do Oriente, e, no ano lectivo de 2021, havia mais de 4000 alunos”, refere, destacando: “É um aumento muito significativo.”
Os desafios da língua portuguesa em Macau
Perante este cenário, Li Guofeng diz que o caminho para o crescimento do português em Macau tem alguns solavancos. Em primeiro lugar, a concorrência do inglês. “Para estudar qualquer língua estrangeira, há sempre dois motivos: gosto por essa língua e, claro, em comparação, o português é menos atrativo do que o inglês”, diz. Depois, estuda-se uma língua por haver necessidade, mas, dada a dimensão do território, “não há um grande mercado de trabalho para os formados em língua portuguesa”. Há, por isso, vários desafios, além de haver “uma base fraca de recursos e materiais”, que é importante “para promover a identidade lusófona”.
Percebe-se, assim, a “intenção” do Governo Central e do Governo da RAEM em “construir uma fortalecer uma identidade lusófona em Macau”, mas isso apenas será um objectivo, desde que não cause impacto à segurança nacional. Por isso, desde 1999, apesar de estar “numa situação de desenvolvimento próspero”, há ainda alguns “pontos fracos na identidade lusófona em Macau”.











