China envia delegação ao Panamá após acordo sobre portos e saída da “Faixa e Rota”

0
69

A China enviou uma delegação ao Panamá, na sequência da decisão do país de abandonar a iniciativa chinesa Faixa e Rota e da venda de portos estratégicos à norte-americana BlackRock, noticiou ontem a imprensa estatal. A delegação chinesa, liderada pelo vice-ministro do Departamento Internacional do Partido Comunista, Ma Hui, visitou nos últimos dias o país centro-americano, onde manteve conversações com “líderes dos principais partidos políticos” e grupos de reflexão (‘think tank’), disse a agência de notícias oficial chinesa Xinhua. Ma disse – citado pela Xinhua – que a China está “disposta a reforçar os intercâmbios com os partidos políticos e os grupos de reflexão do Panamá, melhorar a compreensão e a confiança mútuas e consolidar a base de apoio público para as relações amigáveis entre a China e o Panamá”. A visita seguiu-se a um anúncio surpresa feito pela CK Hutchison Holdings (CKH), do magnata de Hong Kong Li Ka-shing, de que ia vender as operações portuárias, incluindo as que se situam nas extremidades do Canal do Panamá, a um grupo liderado pela gestora de ativos norte-americana BlackRock.

O Canal do Panamá, crucial para o comércio entre a Ásia e os portos na costa leste das Américas, ganhou renovada importância face ao aumento dos custos de transporte, em parte devido às secas registadas em 2023 e no início de 2024, que restringiram o número de navios que podiam transitar por aquela via. Concluído sob os auspícios dos Estados Unidos em 1914, o Canal do Panamá, que atravessa a América Central, tornou-se um dos alvos do Presidente norte-americano, Donald Trump, assim que regressou à Casa Branca em 20 de janeiro. Trump acusou a China de dominar as operações no canal e prometeu “tomá-lo de volta”. Os portais oficiais da administração chinesa em Macau e Hong Kong divulgaram na sexta-feira um comentário de uma publicação próxima de Pequim, sublinhando o desconforto provocado pela venda dos portos no Panamá. “Não é uma ‘prática comercial normal'”, sublinhou o texto do Ta Kung Pao, uma publicação de Hong Kong, considerada próxima do Gabinete de Ligação do Governo Central de Pequim nesta região administrativa especial, que termina com uma ameaça velada a Li Ka-shing, o homem mais rico de Hong Kong. No mês passado, o Presidente do Panamá, José Raul Mulino, disse que o Governo deu à China o aviso prévio de 90 dias da decisão de não renovar o envolvimento na Iniciativa Faixa e Rota, um programa internacional de infraestruturas lançado pelo país asiático. A decisão foi descrita por Pequim como “não sendo do interesse vital do Panamá”.

Analistas consideraram que as autoridades chinesas devem procurar clarificar se as recentes medidas do Panamá constituem uma “mudança decisiva” a favor dos Estados Unidos. Pequim também deve procurar obter mais informações sobre o que a venda dos portos pode significar para as rotas comerciais e marítimas da China, acrescentaram. A delegação liderada por Ma pertence ao Departamento Internacional do Partido Comunista e não ao Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, o que significa que a visita foi enquadrada como uma visita entre partidos. O director do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade Renmin, em Pequim, disse ao jornal de Hong Kong South China Morning Post que a visita ocorre num período de crescente preocupação dos EUA com o aumento dos investimentos chineses no Panamá. Para Wang Yiwei, Washington quer “enfraquecer a posição da China como o maior parceiro comercial global”. “Os EUA estão a tentar perturbar as coisas, forçando o Panamá a retirar-se dos acordos de uma forma semelhante ao que aconteceu com a Itália”, disse, referindo-se à saída, em 2023, da Itália do programa de infraestruturas chinês para se alinhar mais estreitamente com os aliados ocidentais, incluindo os EUA. De acordo com Wang, a visita mostra que, apesar dos recentes desenvolvimentos, a China vai continuar a dialogar com o Panamá e procurar “evitar os impactos negativos” dos recentes desenvolvimentos. “Precisamos não só de melhorar as relações entre o Panamá e a China, mas também de evitar um efeito dominó que provoque mal-entendidos entre a China e outros países”, afirmou. “Devemos continuar a envolver-nos positivamente com estes países, encorajando-os a resistir à coerção dos EUA, que viola os seus interesses nacionais”, afirmou.