Picanha ou cupim, servidos ao som de Bossa Nova, no coração de Pequim, ilustram a simbiose Brasil – China, cuja relação celebra 50 anos na sexta-feira, estimulada pela abundância brasileira e o apetite voraz do gigante asiático.
Na filial da churrasqueira Latina em Wangfujing, uma das mais movimentadas ruas comerciais da capital da China, situada próximo da Praça Tiananmen, a picanha, cupim ou bife ancho são confecionados no estilo tradicional do churrasco brasileiro e cortados na mesa, ao som de temas de Bossa Nova ou Música Popular Brasileira interpretados ao vivo.
“Qualquer negócio de restauração que traz uma cozinha de fora para outro país tenta adaptar-se ao paladar local, mas a nossa ideia é servir comida autêntica brasileira”, descreveu Luis Enrique Negrini, chefe executivo do Latina de Wangfujing, à agência Lusa.
Radicado na China desde 2009, Enrique Negrini trabalhou numa churrasqueira em Zhengzhou, no centro da China, antes de tirar um curso de cozinha em Singapura e mudar-se para Pequim, em 2022.
“No Latina, os chineses experienciam a abundância de carne na cozinha brasileira, já que a gastronomia chinesa é mais à base de vegetais, com a carne a servir apenas para acrescentar sabor”, explicou o ‘chef’, natural do Estado de São Paulo. “Aqui podem também satisfazer a curiosidade sobre a cultura brasileira, já que é difícil para eles visitar o Brasil”, acrescentou Enrique Negrini, apontando para a posição diametralmente oposta dos dois países, que torna as viagens caras e morosas. Uma viagem ‘porta a porta’ entre China e Brasil pode demorar mais de dois dias.
Esta distância não impediu, no entanto, o forte crescimento do comércio entre as duas nações, que celebram este mês 50 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas.
Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, com o comércio bilateral a passar de nove mil milhões de dólares (8,3 mil milhões de euros), em 2004, para 157,5 mil milhões (144 mil milhões de euros), em 2023. O Brasil desempenha, em particular, um papel importante na segurança alimentar da China, compondo mais de 20% das importações agrícolas e pecuárias do país asiático.
A segunda maior economia mundial alimenta quase 19% da humanidade com apenas 8,5% das terras aráveis do planeta. Em comparação, o país latino-americano tem quase 7% das terras aráveis para 2,7% da população mundial.
“A preocupação chinesa com a segurança alimentar acaba por dar ao Brasil uma posição de relevância na relação bilateral”, descreveu Evandro Carvalho, coordenador do Núcleo de Estudos Brasil – China, da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, à agência Lusa, apontando que “o sector agropecuário brasileiro domina a relação”. “A China tem uma preocupação muito grande por garantir a sua autossuficiência alimentar o máximo possível, mas do ponto de vista da produção, não é um território que seja apto. O Brasil tem de facto um papel importante”, realçou.
A simbiose traduz-se num excedente comercial para o Brasil de 51,83 mil milhões de dólares (47,32 mil milhões de euros) nas trocas comerciais com a China. É uma das raras relações deficitárias no comércio externo chinês.
A rede de churrasqueiras Latina é também um dos maiores casos de sucesso entre a gastronomia estrangeira na China: o primeiro estabelecimento foi inaugurado em 1998, em Lujiazui, o distrito financeiro de Xangai. Hoje, o grupo soma 13 restaurantes na China, distribuídos por Pequim, Xangai e Shenzhen.
Mas Enrique Negrini admite que continuam a existir “desconhecimento” e “equívocos” na imagem que Brasil e China têm um do outro, apesar das fortes relações comerciais e da aproximação política, promovida pelo atual líder brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que ficou marcada, em particular, pela constituição do bloco de economias emergentes BRICS, durante os primeiros dois mandatos, entre 2003 e 2011. “Daqui, eu diria que existe desconhecimento. Do lado brasileiro, existem equívocos”, disse. “Com a pandemia [da covid-19], a imagem da China ficou bem negativa”, notou.













