China reforça excedente comercial motivada por ideologia e geopolítica, dizem analistas

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O aumento do excedente comercial da China, que preocupa a Europa, deve-se à estratégia de Pequim de priorizar a indústria transformadora, em vez do consumo interno, para fomentar o crescimento económico, apontaram analistas.

 

A escolha deve-se a motivos “ideológicos” e a um contexto geopolítico que aumenta o risco de guerra com os Estados Unidos, explicaram. “Parte do problema é ideológico”, escreveu num relatório Camille Boullenois, analista na consultora Rhodium Group. “Existe a ideia profundamente enraizada de uma economia que funciona do topo para as bases – as empresas proporcionam emprego e devem ser apoiadas, em vez de prestar assistência aos indivíduos, que são, por natureza, pouco fiáveis”.

Num artigo publicado numa revista do Partido Comunista Chinês, o Presidente da China, Xi Jinping, escreveu que o país precisa de “desenvolver tecnologias que forneçam vantagem decisiva” e “aprofundem o envolvimento da China nas cadeias industriais globais”.

“Ao fazê-lo, desenvolveremos uma dissuasão eficaz contra tentativas de outros países de cortar as nossas cadeias de abastecimento”, notou. A China precisa de “garantir que a economia funciona normalmente em circunstâncias extremas”, apontou.

Zhiwu Chen, professor catedrático de finanças da Universidade de Hong Kong, observou uma mudança da China para uma política industrial que tem em conta a “preparação para a guerra”, através da auto-suficiência.

A China já não mede o seu “poder nacional em termos puramente económicos, mas antes em termos de capacidade militar”, explicou. “É por isso que a indústria transformadora é muito importante e o consumo uma prioridade menor”.

Economistas dizem que o país podia assegurar um crescimento robusto e reduzir o desequilíbrio no comércio externo se incentivasse o consumo pelos seus cidadãos, que continuam a ter das taxas de poupança mais altas do mundo, fruto de fracos mecanismos de proteção social.

O FMI calcula que a China gasta 8% do PIB com a segurança social, menos de metade da média na Europa. Xi enfatizou anteriormente que o país não deve “cair na armadilha da proteção social que encoraja a preguiça”.

O Presidente chinês lançou uma campanha para libertar as “forças produtivas de nova qualidade”, que inclui mais investimento no setor industrial, ameaçando a concorrência na Europa, EUA e países em desenvolvimento.

Desde que o setor automóvel, que é particularmente sensível para a Europa, passou a constar nos planos quinquenais delineados pelo Partido Comunista, há cerca de dez anos, foram criadas centenas de marcas de veículos elétricos no país.

A China concentra também 80% da produção global de baterias e representou, em 2023, três quartos do investimento na produção de todas as tecnologias limpas, segundo dados da Agência Internacional da Energia.

Recentemente, o Presidente francês, Emanuel Macron, e a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, advertiram Xi que a União Europeia precisa de se proteger das importações chinesas para reequilibrar os laços comerciais.

Von der Leyen alertou para as distorções de mercado causadas pelo “excesso de produção” da China, numa altura em que a UE está a conduzir uma série de investigações sobre subsídios atribuídos pelo Estado às empresas chinesas. “Vamos defender as nossas empresas e economias”, vincou.

Em 2023, o défice da UE no comércio com a China ascendeu a 291 mil milhões de euros.

O excesso de produção de aço da China gerou também fricções comerciais com nações em desenvolvimento, que acusam o país de ‘dumping’ (venda abaixo do custo de produção possibilitada pela atribuição de subsídios).

No Brasil, cerca de 2.000 trabalhadores siderúrgicos foram despedidos nos últimos seis meses em fábricas pertencentes às metalúrgicas Gerdau e ArcelorMittal, que foram abaladas pela concorrência chinesa. “O Brasil exporta minério de ferro para a China, que o transforma em aço e vende-o a um preço mais baixo do que as nossas próprias siderúrgicas conseguem”, disse Weller Gonçalves, líder de um dos maiores sindicatos de siderúrgicos do país. Lusa