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      Chang-rae Lee reflecte sobre a diáspora asiática e a busca identitária em “My Year Abroad”

       

      O aclamado autor coreano-americano Chang-rae Lee esteve no sábado na Casa Garden para uma conversa em torno do seu ‘best-seller’ “My Year Abroad: a novel”, um livro das aventuras de um jovem americano-coreano em busca das suas raízes asiáticas que inclui uma passagem por Macau. O autor finalista do prémio Pullitzer escolheu Macau por ser um local onde “pequenos problemas” por vezes descalabram em situações mais complicadas.

       

      Eleito melhor livro do ano em 2021 pelas revistas Vogue, Time e Marie Claire, “My Year Abroad: a novel” do autor coreano-americano Chang-Rae Lee esteve em destaque na tarde de sábado, dia 16, por ocasião do Festival Literário de Macau. O premiado autor e professor de Escrita Criativa em Stanford, esteve na Casa Garden à conversa com o moderador e professor Glenn Timmermans e ainda Julia Ying Zhu, também professora de literatura na Universidade Politécnica de Macau.

      “A viagem literária que trouxe Chang-rae Lee a Macau” foi o mote para uma discussão em torno de detalhes da última ficção do autor de “Native Speaker”, uma estreia que lhe valeu o prémio da Hemingway Foundation/PEN. Com um percurso literário pautado por narrativas alusivas à guerra coreana, como em “The Surrendered”, que recebeu o prémio Dayton Peace Prize e foi finalista do Prémio Pulitzer Prize em 2011, Chang-rae Lee tem sido aclamado também pelas suas outras obras, entre elas “A Gesture Life”, “Aloft”, e este  “My Year Abroad: a novel”, publicado em 2021 e vencedor do Prémio de Mérito de Romance da Academia de Artes e Letras norte americana.

      Na sessão na Casa Garden, Glenn Timmermans começou por elogiar a vinda de Chang-rae Lee ao festival, destacando o prestígio de ter no programa um autor desta categoria, cujas obras costumam figurar nas críticas literárias do New Yorker, ou do New York Times, periódicos onde o autor também publica textos jornalísticos, lembrou. “Acho que tende a existir um preconceito que os autores asiáticos têm uma perspectiva contida da forma como vêem o mundo, uma espécie de cliché de retenção asiática”, comentou o moderador, salientando que a despeito destas construções, é um facto de que este “A Year Abroad” é escrito de uma forma livre, explorando temas de forma não-restringida e até em pontos “esotérica”, e também plena de humor criativo, comentou.

      O romance, explicou o autor, é de certa forma um “segundo capítulo” de um processo de duas décadas em que este se debruçou sobre a China. “On Such a Full Sea”, o primeiro livro, de 2014, é uma obra de ficção especulativa sobre uma comunidade chinesa que chega aos Estados Unidos para trabalhar num contexto fabril distópico, deparando-se com um país que o autor descreve como uma “terra atormentada”.

      Esclarecendo que tem origens coreanas, o autor confessou-se fascinado pela ascendência da China e o seu poder e pujança económica, mas também a sua forma de “influência em todas as nossas vidas, como cidadãos do mundo”. Aquela primeira obra explorava ainda o conceito de comunidade como parte integral da nossa identidade, mas também como factor limitador, referiu.

      Já “A Year Abroad” centra-se na incursão da população chinesa nos Estados Unidos, destacando em particular a história de Tiller, um jovem coreano-americano que trava uma amizade com Pang, um empresário chinês de uma pequena cidade suburbana em New Jersey. Pang, referiu Lee, foi inspirado a partir de uma figura que personificava aquela visão empreendedora e plena de dinamismo que só é possível testemunhar na actual geração de imigrantes nos Estados Unidos, já que a primeira vaga nos anos 60 tinha muitas limitações. Estes estavam restringidos ao contexto da sua comunidade, algo que, ressalvou, é comum a todos os imigrantes na fase inicial de chegada ao novo país de residência. Quanto a Tiller, o jovem de 20 e poucos anos, este serviu-lhe um pouco como espelho da sua vontade de avivar o interesse por esta energia empreendedora, que o autor diz lhe faltar, por viver uma realidade mais “confortável”. A relação entre as duas personagens segue por vários episódios, que Lee descreve como “aventuras de negócios” que levam a situações inesperadas e complicadas. Nos momentos mais difíceis do romance, estas personagens chegam a ter de lidar com redes de exploração de imigrantes e trabalhos forçados.

      Através destes percalços, a narrativa explora a identidade de norte americanos que têm origens asiáticas, uma “réstia de diferença” que faz com estes se sintam fora da norma. “Suponho que esta emoção é o suficiente para fazer com que a personagem reflicta mais profundamente sobre a sua vida”, referiu. Por outro lado, argumentou Lee, há a ideia de estas personagens se sentirem “muito americanas”, e “cidadãos do mundo”, uma certeza que as faz partir para a Ásia com convicções que depois são questionadas.

       

      NARRATIVA HUMORÍSTICA

       

      Na sessão abordou-se também o lado humorístico da narrativa, com Timmermans a destacar a forma divertida como Pang cria nomes para as suas iniciativas empresariais. Recordando que grande parte das suas obras anteriores reflectiam sobre temas como a guerra e outras circunstâncias tensas da vida de imigrante, Lee quis que este “A Year Abroad” fosse menos “melancólico”, e mais “efusivo” e “deliciosamente degenerado”.

      Sobre a vinda das personagens do livro à Ásia, o autor diz que procurou que esta viagem fosse uma busca identitária de Tiller em que este compreende que, em última instância, ele “é a sua própria pessoa”, e a sua própria mentora. A escolha de levar o protagonista a vir a Macau prendeu-se com o facto de Lee ver os casinos e as “raparigas” como bons elementos para a jovem personagem se envolver “num certo tipo de problemas ligeiros que depois levariam a problemas mais profundos, mais psíquicos”.

      Outra qualidade que o atraiu na nossa cidade foi o facto de “o mundo inteiro vir a Macau”, e de aqui passarem pessoas tão diferentes, uma combinação que faz do território um bom espaço para que as personagens interajam com situações invulgares. Mas Macau, acrescentou Lee, acaba por ser como Las Vegas, no sentido em que é um sítio com muita sedução e muitos sonhos que não se concretizam da forma como se esperava, já que a realidade é sempre mais nefasta.