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      Nova mesquita para breve em Macau, onde ainda há pouco entendimento do Islão, diz imã Ding Shaojie

       

      O imã Ding Shaojie avançou à Lusa que em 2024 poderá começar a ser erguida a nova mesquita em Macau, cidade onde considera haver ainda muito desconhecimento sobre o Islão.

       

      Pelo meio-dia de quinta-feira, o complexo da mesquita de Macau, no Ramal dos Mouros, parece mais um espaço abandonado. Bicicletas largadas no pátio, baloiços imóveis em estruturas descascadas, o piso esburacado, ervas a tomarem conta do local.

      No centro do complexo, está o edifício principal da mesquita, erguido, segundo o padre e historiador português Manuel Teixeira (1912-2003), em 1851. Fontes citadas pelo católico no primeiro volume da “Toponímia de Macau” referem que a guarnição muçulmana que servia no exército português, recrutada em regiões como Goa, foi responsável pela construção do espaço. Mas, já em 1997, quando lançou o livro, monsenhor Teixeira mencionava uma estrutura deteriorada. Pouco aconteceu desde aí, com a Associação Islâmica de Macau a apresentar, há mais de uma década, uma alternativa para a atual mesquita.

      O imã Ding Shaojie fala agora à Lusa sobre uma espera “muito, muito longa”: “A nova mesquita vai provavelmente ser construída muito brevemente. (…) Esperamos ter muito em breve a aprovação do Governo para iniciar a construção”, aponta, salientando que este ano poderão arrancar as obras.

      A futura mesquita, a erguer no mesmo local, onde também existe um cemitério islâmico, vai ter uma área de 1.250 metros quadrados e uma capacidade para 600 fiéis, segundo avançaram já as autoridades locais. Ding destaca a dimensão reduzida do espaço atual, que não consegue dar resposta às necessidades. Menciona, além disso, “a extrema pobreza” da estrutura, “comparando com outras associações e igrejas” do território.

      Numa tenda gigante e improvisada, onde mulheres costumam ler o Alcorão aos domingos, as orações fazem-se no verão sob intenso calor. A tenda, com luzes penduradas em estruturas metálicas, armazena vários objetos: mesas, baldes, caixotes, chinelos, mais uma bicicleta para ali atirada. “Temos dois grandes feriados, a primeira celebração é o Eid. Depois do jejum [do Ramadão], reunimo-nos aqui para rezar. Todos os anos chove, mas o que é que podemos fazer? Temos de rezar no exterior, porque há sempre muita gente, então temos duas sessões, uma sessão com à volta de 1.500 pessoas”, conta.

      Ding Shaojie fala no escritório, uma divisão separada da mesquita, com a fachada também a precisar de tinta. À frente do imã, um serviço de chá sobre a mesa, e atrás, uma estante, com literatura islâmica. Entre os livros, encontram-se obras de Direito em língua portuguesa, oferecidas por um muçulmano português, conta o religioso.

      Em Macau, avalia Ding, sabe-se ainda muito pouco sobre a comunidade muçulmana local: “Talvez as pessoas reconheçam pela aparência quando olham para uma mulher indonésia de ‘hijab’, sabem de onde vem, que não come carne de porco, mas mais do que isso…”.

      Foi para fazer face a esse desconhecimento que o Governo, juntamente com a associação islâmica, começou a organizar seminários para operadores turísticos. A ideia das autoridades passa por diversificar a origem dos visitantes, que chegam sobretudo da China, e receber, por exemplo, mais pessoas do Médio Oriente. “Quem trabalha na área tem de saber receber turistas muçulmanos, na preparação do quarto de hotel, por exemplo. Alguns visitantes não gostam de ter vinho no quarto, em respeito aos ensinamentos do Islão”, explica. “Os ‘workshops’ têm sido bem recebidos. As pessoas estão muito interessadas, porque não conhecem a cultura árabe, a história árabe. Só conhecem o Islão, grosso modo. Mas qual é a história do Islão?”, reflecte. Apesar disso, o líder religioso considera Macau uma sociedade inclusiva” no que respeita à convivência de diferentes religiões. “Eu próprio vou comer ao templo budista”, nota.

      O livro do ano de Macau (2023), publicado pelo Governo, aponta que o budismo e o taoismo são as principais religiões do território, que tem cerca de 680 mil habitantes. Até ao fim de 2022, o número de católicos em Macau totalizava 32.427.

       

      Medo de retaliação é limitação a protesto muçulmano

       

      O imã da única mesquita de Macau disse estranhar a inação da população local em relação à guerra na Palestina, sublinhando que o medo de retaliação pode estar a limitar ações de protesto da comunidade muçulmana. No escritório de Ding Shaojie, duas bandeiras de mesa estão pousadas sobre uma montra de vidro: a bandeira chinesa e a palestiniana. A guerra entre Israel e Palestina, agravada desde que o grupo islamita Hamas, que governa a Faixa de Gaza, lançou o ataque de 7 de Outubro, é seguida diariamente pelo imã da única mesquita de Macau.

      As duas bandeiras, unidas pelo mesmo mastro, refletem a visão chinesa sobre este histórico conflito no Médio Oriente. Apesar de ter relações estáveis com Israel, Pequim apoia a causa da Palestina, considerando-a um Estado soberano e defendendo a solução de “dois Estados”.

      “Como muçulmanos, temos de estar com o povo palestiniano. Por isso, todos os dias acompanhamos as notícias e é doloroso para nós, tantas crianças mortas”, começa por dizer Ding Shaojie. Ding é também Mohammed Ramadan. É originário de Hohhot, capital da região autónoma chinesa da Mongólia Interior, onde cresceu no seio de uma família Hui, um dos maiores grupos étnicos da China, predominantemente muçulmano.

      Referindo-se “a esta matança” que está a “pôr o mundo em ebulição”, Ding questiona por que razão permanece Macau em silêncio. “Pergunto, porquê?”, interroga o líder religioso, notando que, até ao momento, não foi questionado por ninguém sobre o que se passa em Gaza. “É estranho, a população não tomou nenhuma atitude, incluindo a comunidade muçulmana”, constata.

      Em Macau, não há dados oficiais sobre o número de muçulmanos, mas o imã estima que, antes da pandemia da covid-19, este se situasse entre os cinco e os dez mil fiéis. Com a crise do coronavírus, Macau perdeu milhares de estrangeiros com estatuto de trabalhador migrante, incluindo da Indonésia, país com a maior população muçulmana do mundo.

      A vulnerabilidade deste estatuto laboral, que implica menos direitos em relação aos residentes, pode estar a condicionar possíveis movimentações de protesto por parte dos praticantes islâmicos locais, defende o líder espiritual. “[Fiéis indonésios] têm medo que talvez ao se manifestarem sejam expulsos e enviados de regresso ao país. Existe essa preocupação. No primeiro dia que aqui cheguei, fui aconselhado a não fazer nada relacionado com manifestações. Somos avisados que Macau é uma cidade pacífica, daí ser melhor não fazer nada”, conta.

      A última manifestação pública local ocorreu antes de Macau fechar portas ao mundo devido à covid-19, em 2020. Durante a pandemia, as forças de segurança recusaram-se a aprovar o percurso de qualquer protesto, invocando razões de “ordem e segurança” ou saúde públicas. As restrições antipandémicas levantaram-se entretanto, mas os protestos não voltaram às ruas da cidade.

      Apesar do silêncio à volta da Faixa de Gaza, Ding admite haver espaço de discussão na mesquita: “Não há como evitar, não podemos ficar calados. Todos os líderes muçulmanos, os imãs das mesquitas do mundo, falam disso, invocam Alá para que proteja as pessoas na Palestina. Por isso, nós também falamos. A matança deve ser interrompida”, reforça. Há mais que se pode fazer, conclui. Seja via doações a Gaza ou através da própria comunidade muçulmana, a quem Ding sugeriu, desde o primeiro dia, “escreverem aos seus países e consulados para apoiarem a Palestina”. Lusa

       

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau