A CESL Asia celebrou na segunda-feira 35 anos de actividade. Desde 1988 que a empresa de soluções tecnológicas e humanas tem caminhado de mãos dadas com o desenvolvimento das infraestruturas centrais da cidade, um percurso do qual António Trindade se orgulha. O director-geral diz-se muito satisfeito pela contribuição que a empresa fez, faz e vai ainda fazer no futuro de Macau, mas também da China Continental e de Portugal, satisfação que foi também sentida pelos mais de 100 associados e parceiros da empresa que marcaram presença no evento de segunda-feira.
Fica difícil definir o campo de acção da empresa liderada por António Trindade, português que há quase quatro décadas tem ajudado a mudar o rosto de Macau. É caso para dizer que a CESL Asia “está em todas”: o Venetian, o Cotai, o Aeroporto Internacional de Macau, o Centro Cultural de Macau, e antes disso tudo, a Central Incineradora, as Estações de Tratamento de Águas Residuais, e até a primeira campanha de desratização de Macau. A estas iniciativas revolucionárias acrescenta-se outra mais recente, e mais uma vez pioneira: a compra da herdade alentejana Monte do Pasto, a maior produtora de gado bovino a céu aberto da Península Ibérica, com uma forte aposta na sustentabilidade da cadeia do “pasto ao prato” não só de produtos pecuários, mas também de agricultura, que respeitam o ambiente e promovem o desenvolvimento dos parceiros regionais. A CESL Asia comemorou agora o seu 35.º aniversário e, em entrevista ao PONTO FINAL, António Trindade, director-geral, mostrou-se satisfeito pelas contribuições da empresa que lidera tanto para Macau, como para o interior da China e Portugal.
Na última vez que falámos, durante a “C-PLPEX”, a Exposição Comercial e Económica China-Países de Língua Portuguesa, falou dos desafios de exportar produtos da empresa Monte de Pasto para a China. Como têm corrido essas diligências?
Ainda há muitas limitações à importação de carne de vaca, de borrego, e de alguns produtos que achamos que são os que mais podem contribuir para a China e para o projecto de sustentabilidade, de segurança alimentar, e desenvolvimento regional. Isso ainda não é possível de fazer, mas os conceitos e produtos já estão em desenvolvimento. Ainda ontem [na segunda-feira], ficou demonstrado pelos responsáveis das empresas de comidas e bebidas das entidades locais e de Hong Kong o mesmo que foi dito em Portugal há duas semanas no congresso europeu agroalimentar: todas as empresas globais dizem e sabem que esta questão é das mais urgentes, provavelmente ainda mais que a da transição energética. Tem de se reformular toda a cadeia do pasto ao prato, e a produção agrícola é outro grande desafio. É notável a CESL ASIA ter agora a Monte do Pasto, um caso único no mercado da Europa, e uma empresa sustentável e com um impacto no desenvolvimento regional. Acho que toda a gente entende que isto é um processo… É preciso referir que o Monte do Pasto, mesmo até antes de assumirmos o controlo da sociedade, é uma empresa que nunca teve resultados negativos, e que vai continuar a ser altamente rentável, financeiramente e não só. As pessoas disseram-me que ficam surpreendidas por a CESL Asia ter assumido um negócio não apenas para os accionistas, mas também com impacto social e económico. Em 35 anos, a CESL ASIA nunca teve prejuízos, e nunca falhou com os seus compromissos com o ambiente, com a cultura, infraestruturas e por aí fora.
Quais foram os vários projectos em que a CESL Asia esteve envolvida deste o seu início?
São tantos, e tão marcantes. O primeiro de todos, há 35 anos, foi a campanha de desratização de Macau, em 1988. Depois, o desenvolvimento de um plano de infraestruturas ambientais – a central de incineração e planos de algumas ETAR. Nós desenvolvemos um plano para o Governo de Macau de infraestruturas para limpeza do ambiente, algo que tornou Macau numa das cidades mais desenvolvidas na Ásia, com melhores infraestruturas em termos ambientais. As soluções aqui encontradas foram modelo para, por exemplo, a Singapura, interior da China, e por aí a fora. O aeroporto, também. Desde a sua ideia inicial a tudo o resto, o financiamento, as contratações, a supervisão, e depois ainda a preparação da operação. Ainda hoje temos uma parte importante no aeroporto de Macau, que, relembro, nunca parou por causa de um problema de infraestrutura. Até durante o tufão Hato, com sinal 8 e grande destruição, o aeroporto abriu à circulação. Depois posso falar do Centro Cultural. Nunca ninguém tinha vendido um bilhete em Macau e nós no primeiro ano vendemos centenas de milhares de bilhetes, e com um programa cultural de centenas de espectáculos que nunca ninguém tinha assistido em Macau. Só havia o Festival de Música, e nós montámos o Centro Cultural e gerimos o espaço quase uma dezena de anos. Também a criação do Cotai: fomos nós que trouxemos para a mesa tornar o Cotai num destino de turismo destes resorts que, como é lógico, foi desenvolvido magistralmente e com grande sucesso pelo Venetian. Lembro-me que na altura nunca um investimento privado tinha sido feito em Macau, e nós trabalhámos para tentar conseguir que isso fosse possível, e inclusivamente ajudar os bancos, as companhias de seguros, os empreiteiros, os modelos de tudo e mais alguma coisa, de segurança, incêndios e por aí fora. Encontrar as soluções para aquilo que seria possível – foi aqui na CESL Asia que isso aconteceu.
Funcionavam então um pouco como uma empresa de prestação de serviços?
Não só, foi criar modelos de desenvolvimento que não existiam, nem nunca tinham existido. Dentro da realidade local, tudo isso foi feito de forma notável, e depois também na operação. Encontrar soluções e parcerias locais com as escolas para a formação de ‘croupiers’, são ideias que foram discutidas aqui na nossa sala.
E depois do Cotai?
Depois posso falar do Monte do Pasto, de uma aquisição notável de uma empresa com um passivo de 60 milhões de euros que hoje é premiada várias vezes ao ano, pela sua relevância para o futuro da agricultura e do desenvolvimento regional, e por aí fora. Durante a Covid mantivemos as nossas actividades. Ontem [segunda-feira] anunciámos as nossas parcerias com uma start-up que patrocinámos na China para desenvolver serviços e operações de infraestruturas públicas, uma grande novidade. É uma participação estrangeira que vai tomar conta de infraestruturas críticas. Estamos a falar de redes de aquecimento em zonas com 20 a 30 graus negativos durante grande parte do ano, e onde é preciso assegurar que elas funcionam economicamente, e que haja uma transição para a sustentabilidade, com a redução das emissões e segurança económica e viabilidade do serviço propriamente dito. Estamos a fazê-lo mais uma vez não com a perspectiva industrial do investimento bruto, mas com a perspectiva de partilhar conhecimento e experiência com pessoas locais, com jovens e ideias que criam as ferramentas do futuro. Isto é o que a CESL ASIA sempre faz: somos uma empresa premiada várias vezes por inovação. Continuamos para já nesta cooperação com líderes globais no desenvolvimento das soluções do futuro. Estas soluções em termos de ‘hardware’ e ‘software’, de energia e sustentabilidade, e de qualidade de vida, são as soluções que especialistas nas áreas conseguem encontrar para atingir os objectivos esperados. É essa a nossa aposta. Somos de uma empresa de pessoas, pessoas pelas quais Macau se distingue. Acho e tenho dito várias vezes: Macau não se distingue só pelo jogo, é por estas capacidades de reinventar e tornar eficientes muitas das soluções que são usadas para a qualidade de vida do dia-a-dia das pessoas. Por exemplo, deixe-me falar do nosso internamento: desenvolvemos aplicações para apoiar a gestão e qualidade de vida dos nossos funcionários. O nosso pessoal pode por exemplo trocar o plano de trabalho de um dia para o outro por necessidades de família, saúde, o que for; e tudo isto são ferramentas altamente sofisticadas que resultam. São 20 anos de prática de ‘hardware’ e computação que melhoram o serviço prestado, e tudo isso foi desenvolvido aqui, e olhando para o futuro.
Tem ainda outros planos para a empresa?
Sim, aqui em Macau. Os objectivos de eliminação do carbono do Governo Central na China aplicam-se a Macau, e Macau está muito longe de os resolver. Temos nos últimos anos criado ferramentas para a redução dramática do consumo energético. Por exemplo, o consumo de combustíveis fósseis do transporte e para pessoas, é um grande desafio que Macau tem, e também o desperdício alimentar, que aqui é dramático. Da produção alimentar em Macau, só na parte final, de consumo, são 40% de desperdício. Fora tudo o que se desperdiça nas fases anteriores, tudo o que se perde na agricultura ou no transporte. Tudo isto são zonas onde Macau está atrasado, e não é difícil ultrapassar o desafio. É uma questão de mudar o modelo. Assim como se fez para os grandes resorts que aqui temos, em que foi preciso repensar a maneira como se planeavam os edifícios, a segurança, ou até o jogo, também se pode fazer o mesmo para a cadeia alimentar.
E a CESL Asia quer estar envolvida nessas novas soluções?
Quer e está. Estamos seguros de conseguir ser úteis nesse processo, e estamos não só a fazê-lo aqui, como no interior da China, ou em Portugal, onde outras questões e outros desafios se nos apresentam e que requerem grande inovação, que é o nosso paradigma.











