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      InícioCulturaFelix Vong, ‘apropriador de arte contemporânea’, expõe na Art Space na Taipa

      Felix Vong, ‘apropriador de arte contemporânea’, expõe na Art Space na Taipa

      O que é arte, o que é um artista? E será que toda a arte é apropriação, e nada é verdadeiramente inventado, mas apenas emprestado, transformado e reinterpretado? São este tipo de questões que as obras do jovem artista Felix Vong podem provocar a quem as for contemplar na galeria Art Space na vila da Taipa. “O Primeiro Museu de Arte Contemporânea de Macau” é o título desta primeira exposição na RAEM do jovem artista, mostra que arranca no dia 2 de Agosto, e está patente no espaço gerido pela Associação Cultural da Vila da Taipa até 22 de Setembro.

      Autodenominando-se de “artista falso”, “apropriador”, e “forjador de arte contemporânea”, Felix Vong convida-nos a ir a todos os museus do mundo, sem para isso ter de sair do de Macau. “Imagine que existe um museu de arte contemporânea onde podemos ver todos os artistas de que gostamos, todas as obras de arte que nos tocaram durante todo este tempo e nos inspiraram a fazer arte, a pensar sobre arte, a aprender sobre arte”, disse Felix Vong. “Não precisamos de voar até ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque para ver as obras de Andy Warhol ou Joseph Beuys. Não precisamos de viajar para a Tate Modern em Londres para ver as obras de David Hockney ou Yoko Ono. Tudo o que precisamos é de imaginação e algum sentido de humor para que isso aconteça”.

      O jovem artista de Macau apresenta a sua primeira exposição a solo no Art Space da vila da Taipa, no nº. 16-18 da Rua dos Clérigos. No próximo dia 2 de Agosto, às 17h30, é inaugurada esta mostra de arte contemporânea que reúne cerca de 30 obras. Sob o nome “O Primeiro Museu de Arte Contemporânea de Macau”, com curadoria e a convite de João Ó, e o apoio do Fundo do Desenvolvimento Cultural da RAEM, este “museu contemporâneo de Macau” estará no Art Space até dia 22 de Setembro. 

      A ideia, explicou o artista ao PONTO FINAL, partiu da observação de que em Macau, apesar de existir o Museu de Arte, não existe um espaço apenas inteiramente dedicado à divulgação da arte contemporânea. “Tenho interesse em desenvolver algo que nunca foi feito. Eu faço muita apropriação e sátira, e simulo, imito e copio obras como forma de incitar o questionamento de temas como a identidade do artista, a definição de arte, essas questões essenciais”. Segundo a organização, Felix Vong “usa a apropriação para reconstruir e repensar a arte contemporânea, e história cultural”.  

      Tendo regressado recentemente de Portugal, onde trabalha na galeria Zaratan, e está a terminar um mestrado em arte e multimédia na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, o jovem artista tem desenvolvido várias colaborações com artistas contemporâneos portugueses, participando em exposições, tendo sido seleccionado para a capa da revista Umbigo deste mês. Os seus trabalhos já figuraram em exposições privadas em Macau, Portugal, França e Itália. “Como trabalho numa galeria, conheço coleccionadores, público, curadores, etc, e como artista às vezes gosto de extrair o ego do artista, e de apenas usar a perspectiva de funcionário de uma galeria”, revela. “Há muitas coisas interessantes a acontecer no mundo das artes, não apenas em Portugal, mas por todo o mundo”. Falando das suas referências, Felix Vong destacou os artistas portugueses Sara & André, “que também fazem muitas obras com referências a outros artistas”, e de Inglaterra, Gavin Turk, para além dos anos 70 no geral. “Acho que aprecio quase todos os artistas dos anos 70”.

      Naquela que vai ser a sua primeira grande exposição, vamos poder ver trabalhos apenas da sua autoria, e outros feitos em parceria com estes artistas portugueses. Ao PONTO FINAL, Felix Vong sublinhou que apesar de recorrer à apropriação e incorporar estilos de outros, considera que estas obras são suas. Quanto às colaborações, são feitas por convite, e o processo foi o seguinte: “convidei artistas a colaborarem comigo e dei-lhes algumas instruções, e discutimos juntos, e depois eles criaram a obra para mim”. Mas mais uma vez, o artista frisou, neste caso, que as obras também são da sua autoria. Isto porque apesar da semelhança com a versão original, a obra criada é outra. “Por exemplo, pegámos numa pintura de David Hockney, que é famoso por pintar piscinas, mas no nosso caso não existem figuras na piscina, e a pintura é em formato de paisagem, mais aberto, para o público poder ver a famosa obra com uma nova interpretação”.

      A abordagem conceptual que artista nascido em Macau procura desenvolver, indicou ainda a Associação Cultural da Vila da Taipa em comunicado, explora o conceito de “autoria nas obras de arte, estéticas, fazendo uma retrospectiva diferente dos vários tipos de arte contemporânea”. O artista esclareceu que junto a cada obra vão haver legendas com breves referências, “como ‘a partir da obra de Andy Warhol’, etc. É melhor para as pessoas poderem encontrar as referências”, defende, acrescentando, no entanto, que acha que em Portugal não tem necessidade de o fazer. 

       

      Mais engraçado do que Ai WeiWei

       

      Nascido em Macau em 1989, Felix Vong é licenciado em design gráfico e publicidade. O seu trabalho recorre principalmente a pintura, desenho, ilustração, fotografia, com um questionamento de crítica institucional carregado de humor negro e uma atitude brincalhona e trocista. A organização definiu-o ainda como “interessado no impacto da imitação, da apropriação, do vandalismo, do gozo, humor negro, e das farsas que existem no espaço entre o falso e o verdadeiro”. No ano passado publicou a sua primeira fanzine sob o nome “Can You Speak Louder?”.

      No seu perfil de Instagram, é possível ver uma publicação de uma imagem de um graffiti em que se pode ler “Felix Vong é mais engraçado do que Ai WeiWei”. Quando lhe perguntámos mais acerca desta obra, o artista contou que era “uma longa história”. “É uma obra de grafitti dos Sara & André, em que colaboraram com o artista Miguel, convidando-o para fazer algumas frases de grafitti. Eu peguei no mesmo conceito, mas este grafitti não é real, é feito em Photoshop. Não existe nas ruas. Eu pensei, como eu sou asiático, e o Ai Wei Wei também vive em Portugal, este é um elemento interessante de juntar à obra. É uma piada, em que me coloco acima do Ai WeiWei, mas não sou. Gosto deste contraste”, explica. “O sentido de humor é muito importante, e faz parte da minha personalidade, de não levar as coisas tão a sério”. 

      De momento de visita ao território onde já não vinha desde 2018, Felix Vong diz que sente “como se Macau tivesse mudado, mas ao mesmo tempo, não”. A oportunidade de vir expor a Macau, a convite do João Ó, foi também “uma desculpa” para vir visitar a família. “Tinha saudades da família, da comida e até do clima”. No entanto, o jovem artista tenciona continuar a viver em Lisboa. “Tenho lá o meu trabalho e os meus estudos, gosto de viver lá”.