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      InícioSociedadeUm Novo Bairro Social do Fai Chi Kei

      Um Novo Bairro Social do Fai Chi Kei

      Manuel Vicente desenhou o antigo Fai Chi Kei, no final da década de 1970. Mais tarde, em 2011, voltou a reflectir sobre o edifício quando soube que iria ser demolido e desenhou um “Fai Chi Kei do século XXI” que acabou por não sair do papel. Este projecto do “arquitecto de Macau” nunca tinha vindo a público, até agora.

       

      O bairro de habitação social Fai Chi Kei foi projectado por Manuel Vicente em 1977 e concluído em 1981. Os dois paralelepípedos com seis torres sociais do Fai Chi Kei somavam 240 fracções, distribuídas por seis pisos. A obra acabou por ser demolida em 2010 para dar lugar a duas novas torres com 700 fracções de habitação.

      O projecto original do Fai Chi Kei – desenhado por Manuel Vicente em colaboração com Paul Sanmarful – foi premiado pela organização regional de arquitectura ARCASIA e louvada por um entrosamento singular com os modos de vida locais. O antigo bairro do Fai Chi Kei serviu para realojamento da população que vivia em barcos e ou que tinha ficado desalojada após um incêndio no anterior edifício de habitação social que ocupava a zona.

      Aquando do anúncio da sua demolição, correram petições que pediam para salvar este “exemplar da arquitectura moderna de Macau”. Centenas de arquitectos do território, de Portugal e de outros países contestaram a demolição.

      Em Janeiro de 2010, em entrevista ao PONTO FINAL, Manuel Vicente lamentou a demolição do bairro que tinha projectado, considerando que tinha sido uma decisão “burocrática” e “pouco informada”. “Não vou neste momento fazer da minha vida uma batalha para salvar o Fai Chi Kei. Se morreu a minha mulher, se morreram os meus pais, eu também posso ficar viúvo do Fai Chi Kei. Não é o fim do mundo se deitarem o Fai Chi Kei abaixo. Estou a fazer o luto do Fai Chi Kei. Se for abaixo, vai”, afirmou na altura, acrescentando: “Acho que não faz sentido deitar fora uma coisa que é património. É uma decisão burocrática e administrativa, muito pouco informada”.

       

       

      O NOVO FAI CHI KEI PENSADO MANUEL VICENTE

       

       

      Quando soube que o bairro projectado por si iria ser demolido, Manuel Vicente começou a pensar em alternativas. Ao PONTO FINAL, Francisco Teixeira Bastos, que trabalhou de perto com Manuel Vicente, revela que “o arquitecto de Macau” desenhou uma nova versão do Fai Chi Kei, que acabou por não sair do papel nem ser revelado publicamente.

      Francisco Teixeira Bastos conheceu Manuel Vicente em 1989, em Lisboa, e começou a trabalhar com ele no atelier de Macau por períodos curtos, em 1991, 1992, 1994 e 2004. Entre 2000 e 2004 foi assistente de Manuel Vicente no curso de arquitectura do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e até 2012 – um ano antes da morte de Manuel Vicente – foi colaborando com ele.

      Este novo projecto do Fai Chi Kei foi elaborado exclusivamente por Manuel Vicente e Francisco Teixeira Bastos, em 2011. Era quase uma reflexão crítica sobre o que estava a acontecer“, comenta Teixeira Bastos, assinalando que Manuel Vicente não compreendia as razões pelas quais o velho Fai Chi Kei iria ser demolido. “Com o desaparecimento [do velho FaiChi Kei] ia desaparecer o seu legado e a sua memória para dar lugar a mais um edifício anónimo ou histriónico de Macau.

      Ao longo de cerca de três meses, os dois fizeram estudos preliminares e esquiços sobre aquilo que pensavam ser o futuro possível da zona – nunca tendo apresentado a proposta publicamente. “Recriámos um FaiChi Kei do século XXI”, contou Francisco Teixeira Bastos.

      O novo projecto partia de uma perspectiva axonométrica do velho Fai Chi Kei e previa a construção de três torres suportadas por um pódio comum, dedicado a zonas de comércio. O Fai Chi Kei eram duas barras paralelepipédicas paralelas e com a ideia de que Macau cresce em altura e é feita de torres. A partir do Fai Chi Kei original montou-se um novo que tinha na génese toda a identidade do original. Como se o original quisesse crescer em altura e não podendo, recriando uma outra realidade e uma resposta ao seu tempo, recordou o arquitecto que trabalhou com Vicente.