A celebração do Rio das Pérolas: A imagem dos juncos no porto de Macau

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Lembro-me que em 1997/98, e em contraciclo, havia uma grande energia para se fazerem projectos nos novos aterros do Cotai. O plano diretor do GADA (Gabinete para Apoio ao Desenvolvimento dos Aterros Taipa-Coloane) estava em marcha com a coordenação dos empreendimentos públicos e privados, o alargamento do Istmo, a construção da Ponte Flor de Lótus e o novo Posto Fronteiriço. Tanto a nova ponte da Amizade como o aeroporto tinham sido inaugurados uns anos antes e Macau abria-se diretamente à Europa e ao mundo.

Por essa altura, eu estava a trabalhar com o Arquitecto Carlos Couto, onde fizemos vários projectos para o Cotai; uma das vezes desenhámos um grande centro de conferências e exposições que era uma grande flor de Lótus, símbolo da prosperidade de Macau, que pousava na água Talvez fosseuma abordagem demasiado literal, mas estávamos muito entusiasmados com esse poemaobjecto. Nunca foi construído, mas teria resultado numa grande mais-valia para Macau. Numa outra vez, o Carlos chegou com a ideia de se fazer um Luna Park que ele tinha visto nos Estados Unidos,tendo convencido os clientes americanos a trazê-lo para Macau. Chamava-se “Os Cinco Continentes” e continha uma representação de todos eles através de edifícios simbólicos.Por exemplo, a Cidade Proibida representava a Ásia, o Coliseu de Roma representava a Europa, etc. O projecto não avançou, mas, curiosamente, o Coliseu acabou por materializar-se mais tarde no Fisherman’s Wharf. O complexo tinha várias atrações que eram absolutamente inovadoras para Macau: um rio que atravessava os cinco continentes, praia com ondas artificiais, windsurf, uma selva artificial, pista de esqui coberta, sistemas de voo virtual, paraquedismo e um grande hotel para aquela gente toda. O Carlos ainda tem um esquisso que fiz à mão para esse projecto.

Eu tinha vindo da escola do Manuel Vicente, que era uma arquitectura “séria”, feita de matéria, luz, relação com a envolvente e intenções fortíssimas de projecto que tinham de ser levadas até às últimas consequências. Vivíamos no atelier até altas horas, preparando concursos, quase sempre perdidosou a fazer desenhos para as obras. Foi um tirocínio de alguns anos que me preparou fortemente para a vida de arquitecto, e não só. De repente, encontrei uma liberdade maior, de ideias e de escalas de intervenção que me levaram a definir outros interesses. Eu andava a fotografar e filmar as estruturas de bambu em Macau, não por exotismo, mas porque encontrei um assunto que queria perceber com maior profundidade. Medi todos os tipos de estruturas em Macau, fiz desenhos e entrevistei os mestres construtores. Percebi que, havendo essa técnica e material à disposição, tendo o bambu as suas características de adaptabilidade e rapidez de construção, poderia então usá-lo para os meus projectos.

 

Trabalhei com bambu em cenografias, decoração de interiores e instalações artísticas. Depois, imaginei várias estruturas para a cidade. A poesia do amigo Alberto Estima de Oliveira foi a centelha para estas visões. Cada poema das Estruturassuscitava uma nova ideia que registava no seu livro à laia de ilustração. Chamei-lhes “Propostas Prático-Poéticas para Macau”. Eram ensaios arquitectónicos em bambu quevisavam transcrever uma interpretação ou metáfora da realidade, fosse sobre aspectos da história de Macau, do seu urbanismo, de uma lenda, ou da preservação do ambiente natural. Projectos sem cliente e sem programa, que envolviam uma concepção dinâmica própria do bambu, em contraponto com a arquitectura estática. Mas tinham um sentido quase utópico.

Desses sete projectos, o que destaco é o da Celebração do Rio das Pérolas. Era uma proposta na paisagem, constituída por uma série de velas distribuídas ao longo do canal de navegação de entrada e saída de Macau, um pouco no espírito das grandes intervenções de Christo e Jeanne-Claude. Repunha a memória do delta, de um passado ainda recente navegado por inúmeros juncos, e seria um marco para celebrarMacau como porto de comunicação entre povos e culturas ao longo de vários séculos. Por outro lado, a recente entrada pelo aeroporto iria oferecer pela primeira vez a vista aérea da cidade enquanto atracção turística. Visava dignificar Macau com um valor simbólico da sua identidade, com um sentidopoético e com uma forte imagética alinhada nacontemporaneidade que a cidade procurava conferir.

O Carlos Couto ficou tão entusiasmado com esta ideia que gentilmente se ofereceu a enviá-la ao governador da altura,propondo inseri-la nas obras que iriam celebrar a passagem de administração no final desse ano. Nunca recebemos qualquer resposta. Consultei um engenheiro civil, o Jorge Pinto, que mandou as mãos à cabeça, pela sua complexidade. Mas passado algum tempo apresentou-me a solução estrutural. Ainda hoje gosto muito deste projecto e considero que esta ideia teria causado um enorme impacto na paisagem de Macau. Fica aqui o registo.

João Palla Martins