Influência da China no Médio Oriente fruto das limitações diplomáticas dos EUA, dizem analistas

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O crescimento da influência chinesa no Médio Oriente, impulsionado pela recente mediação no restabelecimento das relações diplomáticas entre Irão e Arábia Saudita, resulta das cada vez maiores limitações diplomáticas norte-americanas na região, segundo analistas.

Para Nic Robertson, editor diplomático internacional da CNN, a influência dos Estados Unidos no Médio oriente está “em declínio”, com a Arábia Saudita – e em particular o seu príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman – a ficarem frustrados “com a diplomacia cambaleante” dos Estados Unidos, nomeadamente em casos como o do alegado envolvimento do príncipe no assassínio do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, ou quando a Casa Branca pediu que o país cortasse a produção de petróleo rapidamente, para em seguida pedir para aumentá-la.

“Enquanto os Estados Unidos irritaram os seus aliados do Golfo ao aparentemente hesitar sobre a moralidade, restringindo o fornecimento de armas e ‘arrefecendo’ as relações, o futuro príncipe herdeiro da Arábia Saudita encontrou uma alma gémea no líder da China, Xi Jinping. Ambos são ousados, assertivos, dispostos a assumir riscos e aparentemente compartilham ambições insaciáveis”, avaliou Robertson.

A China garantiu no sábado passado que o seu papel na retomada das relações diplomáticas entre o Irão e a Arábia Saudita não tem uma agenda escondida e que não pretende preencher um vazio no Médio Oriente. “A China não persegue qualquer interesse egoísta” e vai continuar a apoiar os países do Médio Oriente “a resolver as suas diferenças através do diálogo e em consultas para promover a paz e estabilidade duradouras em conjunto”, segundo uma declaração colocada no ‘site’ do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A posição da China surge depois de ter mediado a reaproximação entre os dois países, e na sequência de preocupações de vários analistas e parceiros regionais, como os Estados Unidos, sobre as reais intenções da mediação chinesa.

A intervenção de Pequim no reatamento das relações diplomáticas entre os dois países, incluindo a reabertura de embaixadas depois de sete anos, foi vista como uma grande vitória diplomática da China, com os países do Golfo a considerarem que os Estados Unidos reduziam a sua intervenção na região.“Acho que este acordo demonstra que a influência e a credibilidade dos EUA naquela região diminuíram e que há um novo tipo de alinhamento regional internacional a ocorrer, que fortaleceu e deu à Rússia e à China uma nova influência e estatuto”, defendeu Aaron David Miller, membro do ‘Carnegie Endowment for International Peace’ e ex-assessor de política do Médio Oriente para o Departamento de Estado.

Já de acordo com analistas do International Crisis Group (ICG), a Arábia Suadita acredita que os EUA estão a retirar-se lentamente do Médio Oriente e, portanto, são um “providenciador de segurança menos fiável” do que costumavam ser.

“O acordo envia uma mensagem clara de que a China procura projeção de poder no Médio Oriente fora da esfera económica. Isso parte da sua aspiração de atingir um alcance global mais amplo e se tornar uma alternativa ao Ocidente como mediador de conflitos. Aos olhos de Pequim, o acordo entre a Arábia Saudita e o Irão dá credibilidade à sua afirmação de que é um pacificador, que ajuda a resolver conflitos através de consulta e diálogo, em contraste com o que classifica como táticas de braço forte de Washington”, segundo o ICG.

Contudo, se o acordo iraniano-saudita for bem-sucedido e aumentar a influência chinesa no Médio oriente, isso também acarretará mais responsabilidades para Pequim. “Como fiadora do acordo, Pequim será responsabilizada por fazê-lo resultar. Resta saber como vai encorajar as partes a seguir com o acordado, e se tem a motivação e capacidade necessárias”, advogou o ICG.

A Casa Branca já manifestou cepticismo em relação à possibilidade de o Irão cumprir o acordo, “mas saudou a desescalada na região através da diplomacia”. As autoridades norte-americanas tentaram ainda minimizar o papel da China no acordo, mantendo a retórica de que os EUA continuam muito envolvidos com o Médio Oriente. Lusa