O PONTO FINAL conversou com três mulheres residentes em Macau que acederam a comentar o que é ser-se mulher em 2023 e em Macau. Duas portuguesas e uma bielorussa admitem que já se conquistou alguma coisa, mas ainda é preciso palmilhar um longo caminho até haver, é certo, uma verdadeira igualdade a toda a linha.
Hoje celebra-se, em todo o mundo, o Dia Internacional das Mulheres, evento anual instituído e reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1975. Em Macau, não há excepções. Várias entidades e privados celebram à data, cada um à sua maneira.
Mas afinal, ainda faz sentido celebrar a data? E em Macau, o que significa ser-se mulher em 2023? Que desafios e que oportunidades? O PONTO FINAL conversou com três das muitas mulheres de Macau.
A portuguesa Tânia Ribeiro Marques considera que Macau é, acima de tudo, um local que lhe transmite muita segurança. “Macau é um sítio onde, enquanto mulher, me sinto segura. Macau é também um sítio de oportunidades. Acho que, na generalidade, a sociedade de Macau valoriza as mulheres e, pelo menos nos locais por onde tive oportunidade de me mover, nunca senti que tivesse tido oportunidades diferentes por ser mulher, o que não significa que não exista noutros contextos”, começou por dizer ao nosso jornal a professora universitária.
Mas, claro, não vivemos num mundo perfeito e a docente considera, ainda assim, que “algumas vezes as mulheres são ainda tratadas com alguma condescendência, e creio que aí residem alguns dos desafios para as mulheres, não apenas em Macau, mas também em grande parte do mundo ocidental”.
Tânia Ribeiro Marques conclui a conversa com o PONTO FINAL enfatizando a ideia de que “é necessário termos sensibilidade e ensinar para a equidade com consciência, não apenas as nossas filhas, mas também os nossos filhos”.
A bailarina bielorussa Anastassia Uhlova vive em Macau há 15 anos. Ao nosso jornal começou por confessar que actualmente a sua vida “gira em torno da maternidade e do trabalho”. Bailarina profissional, a jovem é também professora de ballet. “Confesso que sou muito abençoada com o que faço e quantas pessoas encontro no meu caminho todos os dias”, referiu.
Anastassia Uhlova admite ao nosso jornal que o Dia Internacional das Mulheres é um dos meus dias favoritos no calendário. “Sempre foi um dia em que dou flores à minha mãe e à minha avó, tudo pelo reconhecimento e valorização do trabalho árduo enquanto mulheres e todo o amor incondicional e cuidado me prestaram”, referiu.
A bielorrussa disse ao nosso jornal que enquanto menina, “tinha dificuldade em acreditar no quanto as mulheres podem fazer ao mesmo tempo e no quanto elas se sacrificam, como são fortes e cheias de coragem”. “Agora percebo o quanto as mulheres mais velhas da minha vida me deram e como nada foi fácil para nos tornar crianças felizes e saudáveis”.
Em todo o mundo, as mulheres, mesmo diferentes, apoiam-se umas às outras, considera Anastassia Uhlova, acrescentando que “todas e cada uma delas têm o seu próprio brilho natural e beleza de dentro para fora” e isso, acrescenta, “é sempre uma inspiração”. “Hoje, em pleno ano de 2023, as mulheres alcançaram muito em auto-estima, bem-estar e capacidade de se proteger e se defender, fazendo as suas próprias escolhas mais do que antes na história, tendo muito mais oportunidades de trabalho e educação igualdade de género. E especialmente agora, quando todos nós precisamosum mundo mais pacífico e próspero. O empoderamento da mulher, a igualdade e os direitos da mulher são tão importantes para a humanidade”, enfatiza a jovem mulher, mãe de uma menina que também já segue os passos da progenitora em matéria de dança e performance.
Contudo, considera ainda a bielorussa, ainda há margem para progredir. “Não é suficiente, contudo, para os direitos da mulher no mundo e esperamos que ano após ano haja mais progresso porque quando a mulher está segura e feliz, há crianças bem-educadas, saudáveis e felizes”, pontuou.
SER MULHER IMPLICA SER LIVRE
A marionetista Elisa Vilaça considera que ser mulher na sociedade actual “continua a ser difícil apesar das inúmeras tentativas e lutas em prol de um reconhecimento de direitos e igualdades em relação ao homem”. “Se bem que algumas sociedades reconheçam o valor e importância da mulher, deixando de ser um elemento secundário, e assumindo hoje em dia um lugar de destaque, uma grande parte continua a considerar esta como um elemento de procriação em que, a sua função é obedecer ao homem face ao seu poder controlador e de governação fruto de um passado histórico baseado num sistema social patriarcal”, notou a artista plástica.
Para a portuguesa é ponto assente que “ser mulher em qualquer parte do mundo implica ser livre”. E não só. É ter direito a educação, saúde, ao voto, à manifestação livre de opinião, assim como à escolha da sua forma de vida. “Ser mulher é poder ser mãe, ter o seu trabalho, poder ser independente e acima de tudo ser respeitada, sem qualquer tipo de descriminação face à sua cor, religião, posição social ou aspecto físico”, enfatizou.
Elisa Vilaça lamenta que a mulher, “quase sempre de uma forma silenciosa”, representa uma dupla função na sociedade e “é nessa dupla função que ela é esquecida”. “Urge mudar, dizer chega à violência quer física quer psicológica. Dizer chega ao preconceito de género. Dizer chega à desigualdade laboral, ao machismo, à exploração sexual”, sublinhou, reiterando que desde que chegou a Macau, em 1982, “as transformações foram muitas”. “Muito tive que aprender e compreender face uma cultura completamente diferente da minha. Sociedade que tenta romper barreiras, dizendo-se moderna, mas que não consegue por vezes apagar um passado histórico que lhe foi transmitido”, apontou, ressalvando, no entanto, que sempre conseguiu concretizar os seus projectos de vida.
Ainda assim, complementa a portuguesa, teve “oportunidade de verificar que a discriminação da mulher acontece em Macau”. “Mulheres que trabalham mais horas do que as desejadas, não por obrigatoriedade, mas sim pelo medo de serem despedidas”, entre outras situações menos abonatórias. Elisa Vilaça, cujo retrato tirado há mais de 20 anos pela artista Lúcia Lemos faz parte de uma exposição de fotografia patente na galeria do ‘Hold On To Hope’ da ARTM, em Ka-Hó, precisamente para celebrar as mulheres, concluiu a conversa com o nosso jornal referindo que “estamos perante um processo de mudança do papel da mulher na sociedade”. “No entanto, e em primeiro lugar, há que mudar o papel do homem. Este terá que deixar o seu trono e a passar a partilhar o seu espaço, reconhecendo as capacidades da mulher não como uma ameaça, mas sim uma mais valia para mudar a mentalidade da sociedade do futuro”.
Apesar de se celebrar, aqui ou ali, desde 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, exigindo a redução das horas de trabalho, salários melhores e direito ao voto, o Dia Internacional das Mulheres só foi oficializado em 1975, quando a ONU começou a comemorar a data. Contudo, na verdade, adata foi celebrada pela primeira vez em 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça. E o seu centenário foi comemorado em 2011. Tecnicamente, este é o 111.º Dia Internacional das Mulheres que, por acaso ou não, é feriado nacional em muitos países, incluindo a Rússia. Na China, por exemplo, muitas mulheres recebem meio dia de folga, conforme recomendado pelo Conselho de Estado.













