Macau é um lugar especial. Disso, Paul French não tem quaisquer dúvidas. As suas leituras e investigações prévias levam-no a concluir que o território sempre foi um lugar onde tudo era permitido fazer-se, escapando, na maioria das vezes, às autoridades. Uma espécie de neutralidade que permitiu, tal como a cidade marroquina Casablanca, juntar à mesma mesa japoneses, britânicos, portugueses e chineses, em plena II Guerra Mundial.
A recebê-lo uma sala bem composta para ouvir as “estranhas histórias da velha Macau” e muito mais. Autor dos ‘best-sellers’ “Midnight in Peking” ou “City of Devils: The Two Men Ruled the Underworld of Old Shanghai”, Paul French é um autêntico contador de histórias, mas antes disso é um investigador nato.
Na Livraria Portuguesa, o autor britânico explicou o seu fascínio pelo Oriente que começou quando estava a aprender mandarim em Pequim. Durante mais de uma hora, French admitiu que nunca procurou Macau, mas que Macau vem sempre ao seu encontro. “Nas minhas pesquisas acabo sempre por dar de caras com Macau. As histórias de Macau sempre me surgiram sem estar à procura delas”, admitiu, enquanto justificava as suas descobertas sobre o território.
French aprofundou, por exemplo, o tema da criminalidade no eixo Lisboa-Macau-Xangai. O britânico revelou que quando escrevia o seu livro “City of Devils: The Two Men Ruled the Underworld of Old Shanghai” descobriu muitas histórias sobre aquela cidade chinesa, as ligações com Macau e, imagine-se, a presença de criminosos portugueses proeminentes na sociedade xangainesa da época. “Fiquei bastante surpreendido com o facto de haver tantos portugueses envolvidos no mundo do crime em Xangai. Geriam clubes nocturnos, investiam dinheiro no jogo. Um deles era José Botelho, cabeça do gangue Palácio de Prata, que antes de chegar a Xangai tinha passado por Macau, território onde se deslocava com frequência”, contou, acrescentando que havia ainda em Xangai uma outra facção criminosa gerida por outro português – o gangue 37427.
Macau, no entanto, acabou por ser um território “lá longe”, uma espécie de escapatória para portugueses que não eram bem-vindos em Portugal. “Era um local onde se falava português e onde os criminosos podiam circular com um certo à-vontade sem serem importunados pela polícia”, referiu o autor britânico, afirmando que a “ligação desconhecida” entre Macau e Xangai também se relacionava com a produção de ‘slot-machines’ para a cidade do continente através de Macau.
Lendo jornais antigos ou indo a bibliotecas. Paul French bebeu o suficiente para retratar aquele tempo ido dos anos de 1930 com a precisão necessária e desvendou outra história. “Numa edição do South China Morning Post li que o Japão ofereceu dinheiro a Portugal para comprar Macau. Não é uma história muito conhecida, na verdade. Mas Salazar não foi na conversa dos japoneses e os britânicos também fizeram alguma pressão em Lisboa. Hong Kong não podia estar ao lado de um território japonês e nem os chineses aceitariam tal desfecho. Para o Japão, presumo, seria uma forma mais fácil de conquistar território na Ásia, mas não aconteceu”.
O autor britânico considera que “há muitas coisas para se descobrir sobre Macau”. Para além de misterioso, Macau era um território “onde era permitido fazerem-se muitas coisas” e não era só negócios. “Digo muitas vezes que Macau é uma espécie de Casablanca da Ásia, onde, por exemplo, os portugueses se misturavam com os chineses, com os britânicos e com os japoneses em plena II Guerra Mundial. Não é fascinante?”, questiona.
Paul French acaba de reeditar um livro sobre os escritos de Harry Harvey – “Where Strange Gods Calls”, editado nos anos de 1920 –, “e o estilo com que descreve a Macau da altura é sempre com ligação aos casinos, diferente de tudo o resto, com a presença do catolicismo”. “Ele descreve a sociedade,dizem que há isto, há aquilo e há freiras. Freiras por toda a parte”, contou, lembrando que já Ian Fleming relatava isso nos seus livros, nos anos de 1960. O autor de James Bond escreve sobre Macau quase da mesma forma que escrevia Harvey anos antes. “O que retiro disto tudo é que Macau era um lugar onde podíamos, de certa forma, escapar às autoridades. Havia jogo, prostituição, e Lisboa não estava, de facto, a prestar muita atenção. E depois havia, de facto, a grande presença da Igreja Católica”, referiu o britânico.












