O secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), Xi Jinping, iniciou o seu terceiro mandato com uma viagem a Yan’an, um local intimamente ligado ao fundador do regime, Mao Zedong.
Cercado pelos membros do Comité Permanente do Politburo do PCC, Xi Jinping esteve, nos últimos dias, em Yan’an, que é considerado o berço do PCC e a antiga base de Mao. Analistas acreditam que esta escolha sinaliza como vão ser os próximos cinco anos de Xi Jinping no poder. “A visita a Yan’an serviu para marcar o paralelo [com Mao] e a ausência de oposição”, disse o sinólogo Manoj Kewalramani, do Instituto Takshashila, em Bangalore, na Índia.
Xi Jinping emergiu durante a sua primeira década no poder como um dos líderes mais fortes na História moderna da China, quase comparável a Mao Zedong, o fundador da República Popular, que liderou o país entre 1949 e 1976.
No mês passado, Xi quebrou com a tradição política das últimas décadas ao obter um terceiro mandato. A formação do novo Comité Permanente do Politburo do PCC, a cúpula do poder na China, é dominada por aliados e protegidos de Xi Jinping. Nenhum tem a idade e experiência que o destacaria como sucessor viável.
No noticiário da televisão estatal CCTV, uma reportagem de 16 minutos sobre a visita a Yan’an foi embelezada com vários retratos de Mao.
Entre os destaques está a visita à antiga residência de Mao Zedong e ao local onde foi realizada uma reunião crucial do PCC, em 1945, que confirmou Mao como presidente do partido. Naquela época, o Partido Comunista travava uma guerra contra os nacionalistas do Kuomintang, que detinham então o poder na China. “Um dos sinais que Xi parece estar a enviar […] é que é preciso prepararem-se para tempos difíceis e para a luta”, escreveu o sinólogo Bill Bishop, no seu boletim especializado sobre a China, Sinocism.
Em 2012, após ascender ao poder, Xi levou a sua nova equipa a visitar uma exposição sobre o renascimento da nação chinesa, em Pequim. Em 2017, após obter o segundo mandato, Xi visitou o local onde foi realizado o primeiro congresso do PCC, em 1921, numa escola em Xangai. “As primeiras viagens, após cada congresso, destinam-se a ‘relembrar a missão original’” do Partido Comunista, sublinhou o cientista político Wen-Ti Sung, da Universidade Nacional Australiana. Segundo a imprensa estatal, Xi Jinping garantiu que o seu novo Comité Permanente “herdaria e continuaria as belas tradições revolucionárias formadas pelo Partido durante o período de Yan’na”.
Situada nas montanhas áridas e remotas do norte da China, Yan’an é um lugar sagrado para o PCC. Foi ali que os membros do partido se entrincheiraram após a Longa Marcha, uma cansativa jornada a pé pelo país, realizada entre 1934 e 1935, para escapar das tropas nacionalistas, durante a guerra civil chinesa. Apenas um punhado de sobreviventes conseguiu chegar a Yan’an. Mao e os seus aliados – incluindo o pai de Xi Jinping – viveram entre os camponeses, enquanto se preparavam para lançar uma campanha militar.
Desde a sua vitória, o “período Yan’an” tem sido celebrado como um exemplo da capacidade do Partido de resistir às adversidades. O nome de Yan’an também está intimamente ligado a Mao.
Mais de 10.000 pessoas, incluindo intelectuais e artistas, foram mortas, durante uma campanha de purificação, conhecida como “Retificação de Yan’na”, destinada a reforçar o poder do governante. Xi Jinping assegurou que, “durante o movimento de retificação de Yan’an, todo o partido se unificou sob a bandeira de Mao Zedong e alcançou uma coesão sem precedentes”, segundo a televisão estatal chinesa.
Estas declarações ecoam a rígida disciplina imposta no partido, desde que Xi Jinping chegou ao poder, em 2012, com uma ampla campanha anticorrupção que puniu milhares de altos quadros do regime, incluindo à pena de morte ou prisão perpétua. Xi vê-se como um “herdeiro da revolução”, notou o sinólogo Alfred L. Chan.
No auge da Revolução Cultural (1966-1976), Xi Jinping, então adolescente, foi enviado para a aldeia de Liangjiahe, onde dormiu em cavernas e ficou chocado com as duras condições de vida dos locais. O líder chinês apontou esse período como essencial para a sua formação política, esperando torná-lo num exemplo para o Partido. “Xi quer retornar a um comunismo ortodoxo na China, como o de Mao”, disse Alfred Wu, especialista em política chinesa da Universidade Nacional de Singapura. Lusa













