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      InícioLusofoniaComunidade brasileira em Macau dividida com resultado das eleições no Brasil

      Comunidade brasileira em Macau dividida com resultado das eleições no Brasil

      Lula da Silva derrotou Jair Bolsonaro pela mais curta margem de sempre nas eleições presidenciais do Brasil. O ainda Chefe de Estado tornou-se no primeiro Presidente brasileiro a não ganhar uma reeleição. Em Macau, os brasileiros ouvidos pelo PONTO FINAL mostram-se divididos quanto ao resultado final do segundo turno.

      O líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva, acaba de ser eleito o próximo Presidente da República Federativa do Brasil, após ter derrotado o actual Chefe de Estado, Jair Bolsonaro, este domingo, na segunda volta das eleições presidenciais, pela mais curta margem de sempre das eleições no país sul-americano.

      Aos 77 anos, Lula obteve 60.345.999 votos (50,9%) enquanto Bolsonaro se ficou pelos 58.206.354 votos (49,10%), com 100% das secções de voto apuradas. Foram considerados inválidos um total de 5.700.443 votos (sendo 3.930.765 nulos e 1.769.678 em branco). A abstenção, um total de 32.200.558 pessoas que agora terão de justificar a ausência ao voto perante o Tribunal Superior Eleitoral, foi de 20,59%. Com este resultado, Jair Bolsonaro não conseguiu evitar a derrota, tornando-se no primeiro Presidente brasileiro a não ganhar uma reeleição.

      Em Macau, a madrugada e manhã foram longas. A comunidade brasileira radicada no território não perdeu pitada e esteve com olhos e ouvidos colados nas notícias que vinham do outro lado do mundo.

      Ao PONTO FINAL, Juliana Moreschi admite estar com “vergonha” pela vitória de Lula. “Como cidadã, tenho vergonha dessa eleição, pois um político que já foi preso por corrupção, ser agora eleito Presidente é uma vergonha. Mas espero sempre o melhor para o Brasil, apesar de não acreditar neste momento, é esperar pra ver”, afirmou a bailarina e instrutora de ioga.

      A jovem assume que viu os debates e acreditou logo que com Lula “não tem como”. “Todos têm os seus defeitos, mas temos que escolher um. Infelizmente, ou era Lula ou era Bolsonaro. Pelo que vi nos debates, escolhi que lado ficar”, acrescentou.

      Natural do sul do país, Juliana acredita na democracia e, por isso, “o futuro é esperar”. “São quatro anos pela frente. A democracia é respeitar a opinião de cada um e isso é o mais importante”, considerou, lamentando não poder ter votado devido às restrições pandémicas em vigor em Macau.

      HERANÇA PESADA

      Bárbara Teixeira, formada em Sociologia, está feliz pela vitória de Lula da Silva, porém, admite, “há uma grande preocupação devido ao resultado apertado”. “Já vi em alguns canais de notícias que há uma onda de violência pós-resultados. Podemos prever uma possibilidade de o Brasil entrar numa guerra civil, pois, basicamente, metade da população brasileira está tragada com o fascismo bolsonarista”, notou.

      Considerando que o Brasil se libertou de um fascista, Bárbara teme pelo que acabou por ser semeado no país durante estes três anos. “A política da extrema direita deixou um rasto de ódio nas minorias e as classes menos desfavorecidas. Não será nada fácil reconstruir a democracia brasileira diante desse quadro que será herdado pelo governo de Lula”, admitiu.

      Quem também não ficou contente com o resultado final das presidenciais brasileira foi Carla Fellini. A vice-presidente da Casa do Brasil em Macau, mais comedida, só pede “calma” ao povo brasileiro depois de uma disputa renhida até ao último minuto. “Foi uma disputa de voto a voto até o final de toda a contagem. Percebi que o povo estava dividido ao meio. A diferença de Lula da Silva como o escolhido foi mínima do Jair Bolsonaro. Senti que os dois lados sofreram até à última”, começou por dizer ao nosso jornal.

      Com Lula eleito – cargo que tomará para si no dia 1 de Janeiro de 2023 -, “a esquerda volta ao poder” no Brasil. “Opovo quis, então não sei como será daqui para frente o seu governo já que a direita estava forte também. As diferenças de governo são grandes entre um e outro candidato. Espero que tudo se acalme porque já era esperada essa reacção e toda manifestação caso um dos dois fossem eleitos”, afirmou.

      Carla Fellini ficou surpresa com a luta renhida até ao fim. “A igualdade dos votos é impressionante. Nas campanhas não ouvi muito Lula falar sobre como será o seu governo e quem estará nos seus ministérios, porém ele venceu e que daqui para frente possamos conhecer um pouco mais. Espero que essa guerra do poder se acalme e que ele possa corresponder às expectativas do povo brasileiro.”

      A mulher, a residir em Macau há mais de 20 anos, também lamenta o facto de não poder ter exercido o direito de voto. “O voto é muito importante e é obrigatório. Desta vez,infelizmente, nós brasileiros, com muita tristeza, em Macaunão pudemos votar por causa das fronteiras entre Macau e Hong Kong terem quarentena”, referiu a mulher, natural de São Paulo.

      O AMIGO DA LUSOFONIA

      O professor universitário Júlio Jatobá considera a vitória de Lula “uma grande vitória, apesar de apertada”. “Lula é um grande político e vai ter de enfrentar um país dividido. Será uma das grandes tarefas para os próximos tempos. Lula tem de governar para todos”, constatou Jatobá, que acredita que o regresso de Lula acaba por ser “um voto de esperança, não só para o Brasil, mas também para o mundo.Viu-se no primeiro discurso. Há muito, muito tempo que não ouvíamos um discurso sem ofensa, sem mentira e sem incentivos ao ódio. Todo o mundo sai a ganhar”, enfatizou.

      Para o homem, natural de Brasília, “as relações entre o Brasil e os países de língua portuguesa também saem a ganhar. Lula sempre deu muita importância às ligações lusófonas e escolheu diplomatas de grande credibilidade. Aliás, a credibilidade do Brasil tem mesmo de ser retomada pouco a pouco”, referiu, acrescentando que “Lula tem um compromisso com o desenvolvimento do Brasil, coisa que Bolsonaro não tinha.

      Fernanda Martins foi parca em palavras quando lhe pedimos um comentário ao resultado das eleições presidenciais. “Sobre as eleições o que posso dizer é que nunca se viu na história do Brasil o judiciário actuar como um cabo eleitoral, como foi nesta eleição. No mais, espero que o Brasil tenha sucesso e não retrocesso”, disse apenas a brasileira, radicada em Macau há mais de 15 anos.

      O antigo futebolista Éder Arruda, conhecido por Timba, acredita que o Brasil “está rachado” e “onde há divisão, não há crescimento”. “Esse resultado é, no mínimo, um pouco estranho. Acho que deve ter havido alguma fraude. A gente vê Bolsonaro na rua sempre com multidão e o Lula nem saía à rua. Só daí se vê”, começou por exemplificar, questionando como é possível o povo votar em deputados do lado do Bolsonaro e depois votar no Lula para Presidente.

      O pernambucano, natural do Recife, apesar de desiludido com os resultados, pede calma e respeito pela diferença. “O Brasil é um país que, sobre religião, futebol e política, terá sempre confusão e divisão. Porque estamos a falar de escolhas. Temos de aprender a respeitar as escolhas de cada um e a conviver com as diferenças”, sublinhou o antigo atleta, admitindo que “do jeito que está, será difícil a Lula fazer passar as suas leis”.

      Timba sugere que “muitas pessoas que votaram Lula, fizeram-no simplesmente porque não gostam de Bolsonaro”. “Eles não estão a olhar pelo melhor para o Brasil. O país melhorou muito nos últimos quatro anos. Em 16 anos de PT, não fizeram quase nada”, acusou.

      O também professor universitário Roberval Silva lembrou “a onda de conservadorismo que afecta o mundo” que considera ser uma fase na nossa evolução. Apesar tudo, o mundo muda. As significativas mudanças humanitárias, sociais, económicas que tivemos antes desse último presidente assustaram os que querem manter-se a explorar o outro seja social, ecomica ou humanamente”, apontou, acrescentando que se regrediu “um pouco nestes últimos seis anos para avançar num caminho melhor”.

      Roberval sublinha que o importante a assinalar, neste momento e “nesta vitória apertada”, que “aquelas 700 milvidas perdidas para a Covid-19 podiam fazer diferença. É assim que se medem os estragos, contextualizando, olhando com olhos humanos”, referiu.

      Em jeito de balanço, o professor disse ao PONTO FINAL que todo o processo eleitoral “foi um grande susto”. “Mesmo depois de todas as desgraças e desumanidades e desrespeitos que testemunhamos, o antigo governo ainda teve muitos votos. Dá medo pensar num Brasil em que as pessoas continuam a aceitar serem tão desinformadas. Porque acho que agora é questão de escolher: ouvir todos os lados ou limitar-se a um. Acho que esta vitória precisa ser muito bem trabalhada no diaadia para mostrar que valeu a pena. E esta vitória não foi a de um candidato: foi uma vitória contra a intolerância, contra as armas, contra a anticiência, contra a desumanidade”, concluiu o brasileiro.

      O ainda Presidente brasileiro venceu na secção eleitoral de Hong Kong. Sem os votos de Macau, Jair Bolsonaro obteve 95 votos, enquanto Lula da Silva conseguiu 80 votos. Recorde-se que o voto no Brasil é obrigatório para pessoas entre os 18 e os 70 anos, sendo opcional para analfabetos, para os 16 e 17 anos e maiores de 70 anos. Os eleitores registados no estrangeiro e que, por alguma razão, não possam votar, têm de justificar a ausência no prazo de 60 dias.