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      Os desafios e as oportunidades da grande concentração de salas de espectáculo no Cotai

      No Cotai, há cinco arenas para eventos. Por cada quilómetro quadrado do Cotai, há uma destas salas de espectáculos de grandes dimensões. Fazendo as contas a todas as salas de espectáculos naquela área, são mais de 60 mil lugares em apenas cinco quilómetros quadrados. Haverá mercado para tanta capacidade num futuro pós-pandemia? A resposta poderá estar em Hengqin.

      Cinco grandes arenas para espectáculos em cinco quilómetros quadrados. É esta a realidade no Cotai. Na ‘strip’ o forte são os casinos, que cresceram ao longo das últimas décadas de um lado e do outro da Estrada do Istmo, mas as operadoras de jogo quiseram dar outras opções aos visitantes que vinham a Macau. Para impulsionar o sector não-jogo, foram construídas três grandes arenas para espectáculos e há outras duas que deverão estar operacionais até ao final de 2022. No fim deste ano, o número de lugares nas salas de espectáculos do Cotai deverá ser superior a 60 mil.

      Para já, há a Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental de Macau – conhecida como Macau Dome -, a Cotai Arena e o Studio City Event Center. Até ao final deste ano, deverão entrar em funcionamento também a Londoner Arena e a Galaxy Arena. Entre cada uma destas arenas, a distância não é maior que três quilómetros. Estando em qualquer uma delas, é possível chegar a outra em menos de seis minutos de carro.

      As concessionárias não revelaram ao PONTO FINAL quantas pessoas receberam essas arenas desde a sua inauguração nem quais são os planos para o futuro. Além disso, não foram disponibilizados dados sobre o investimento feito pelas operadoras especificamente em cada uma destas arenas.

      A excepção é a Macau Dome, gerida pelo Instituto do Desporto (ID). Construída para os Jogos da Ásia Oriental, em 2005, o Governo investiu um total de 1,3 mil milhões de patacas para edificar este pavilhão multiusos. O orçamento previsto inicialmente era de 640 milhões. Edmund Ho, então Chefe do Executivo, presidiu a cerimónia de inauguração no dia 5 de Julho de 2005.

      Este espaço tem um pavilhão principal, com uma capacidade de 4.000 lugares fixos mais 3.000 móveis, que pode ser usado para todos os tipos de actividades. Tem também um pavilhão secundário – destinado à realização de competições de boxe, judo e artes marciais, por exemplo – com capacidade para 2.000 lugares, e um outro pavilhão polivalente – para treinos e outras competições, ou até exposições, reuniões e banquetes – que pode receber mais 2.000 pessoas. No total, a Macau Dome tem 11 mil lugares.

      Ao PONTO FINAL, o ID explicou que a Nave Desportiva é utilizada para treinos das modalidades como basquetebol, ciclismo em recinto coberto, badminton, ténis de mesa, esgrima e ténis. A Macau Dome tem também sido aproveitadapara a realização de eventos oficiais de grande escala, como a cerimónia de tomada de posse do Governo da RAEM, a eleição do Chefe do Executivo, a Reunião Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, por exemplo.

      “No futuro, este Instituto continuará a proporcionar bons espaços e boas condições para o treino de atletas, bem como a organizar a utilização da Nave Desportiva em articulação com a realização dos grandes eventos”, garante o ID, sem dar mais pormenores.

      Recentemente, o Executivo utilizou a Macau Dome como hospital de campanha, face ao surto de Covid-19 na região. As autoridades indicaram na altura que o espaço estava preparado para receber 6.700 pacientes, disponibilizando 4.430 camas. Durante o recente surto, vários infectados foram colocados neste espaço de forma provisória.

      A Cotai Arena, que pertence à operadora Sands China, foi inaugurada em 2007. A concessionária não revelou quanto foi investido na construção da arena, uma vez que o orçamento está englobado no montante de todo o ‘resort’ integrado do Venetian. A Sands investiu na totalidade do complexo – que inclui a arena, o hotel e o centro comercial, por exemplo – cerca de 2,4 mil milhões de dólares norte-americanos.

      A Sands China não revelou ao PONTO FINAL quais as receitas e as perdas da Cotai Arena ao longo dos anos nem indicou ao certo quantas pessoas o espaço recebeu. A operadora disse apenas que, desde 2007, todos os seusespaços de espectáculos receberam mais de 4,6 milhões de espectadores. A Cotai Arena pode receber um total de 15 mil pessoas.

      No passado, a arena já recebeu concertos dos Rolling Stones, Beyoncé, Celine Dion, Justin Bieber, Rihanna, Katy Perry, Lady Gaga, Jacky Cheung, Eason Chan, Jay Chou e Sammi Cheng, entre outros. Foram também organizados eventos desportivos, como torneios de ténis e basquetebol e o combate de boxe entre Manny Pacquiao e Zou Shiming. A Sands também não quis revelar quais os planos concretos que tem para o futuro da Cotai Arena.

      A Melco, por sua vez, inaugurou o Studio City Event Center em 2015, um espaço que tem uma lotação total de cinco mil lugares. Tal como a Sands China, também a Melco Resorts disse não ter valores sobre o investimento específico nesta arena multiusos. Segundo foi noticiado na altura, o investimento global da operadora no ‘resort’ do Studio City foi de cerca de 3,2 mil milhões de dólares norte-americanos.

      A concessionária também não quis detalhar planos para o futuro do Studio City Event Center, lembrando apenas que já actuaram naquele espaço nomes como Madonna, GOT7, Aaron Kwok e BTS. “Repleto de equipamentos e de técnicos topo de gama, o Studio City Event Center proporciona uma experiência única tanto para os intérpretes como para o público. Oferece lugares de primeira classe para aqueles que querem gastar um pouco mais para obter a melhor vista para o concerto”, sublinhou a Melco.

      Já a Galaxy Arena deverá ser inaugurada até ao final deste ano, acompanhando o projecto de expansão do ‘resort’ da Galaxy no Cotai, chamado “Fase 3″. O investimento global dos planos de expansão da “Fase 3″ e “Fase 4″ da Galaxy Entertainment Group deverá custar entre 40 e 50 mil milhões de dólares de Hong Kong. Esta arena terá 16 mil lugares e a operadora ainda não revelou detalhes sobre os planos que tem para o espaço.

      Além da Cotai Arena, a Sands China terá uma outra grande sala de espectáculos: a Londoner Arena. O espo, com seis mil lugares, deverá ser inaugurado durante o segundo semestre deste ano. O complexo Londoner custou, no total, 15,2 mil milhões de patacas à Sands China, que também não adianta pormenores sobre os planos para a nova arena.

      Além destas cinco arenas que o Cotai vai ter até ao final deste ano, com um total de 53 mil lugares, o aterro tem outras salas de espectáculos mais pequenas. Há o Teatro Broadway, com 2.500 lugares; o Teatro Venetian, com 1.800; o teatro que era usado para o espectáculo “House of Dancing Water”, com capacidade para 2.000 pessoas; o MGM Theatre, também com 2.000 lugares; o Londoner Theatre, com 1.700 lugares; e também o Parisian Theatre, com 1.200 lugares. No total, as salas mais pequenas do Cotai têm lugar para 11.200 espectadores. Assim, juntando arenas e salas mais pequenas, o Cotai conta com 64.200 lugares em salas de espectáculos.

      A RESPOSTA PODE ESTAR EM HENGQIN

      Como é que se enchem 64.200 lugares em salas de espectáculo tão próximas umas das outras? A resposta a esta questão pode estar em Hengqin e na Grande Baía. De acordo com Glenn McCartney, professor da disciplina de ‘Resorts’ Integrados e Gestão Turística da Faculdade de Gestão de Empresas da Universidade de Macau (UM), no futuro pós-pandemia, as operadoras e as autoridades terão de apostar na Ilha da Montanha e na Grande Baía.

      Glenn McCartney recorda que, em 2005, aquando da construção da Macau Dome, colocou a mesma questão: “Como é que vamos usar isto depois de os Jogos da Ásia Oriental acabarem?”. O académico lembra, em declarações ao PONTO FINAL, que, entretanto, foram organizados vários tipos de eventos na Macau Dome, mas não o suficiente para encher os lugares de forma regular.

      E porque é que as operadoras decidem construir infraestruturas tão grandes para espectáculos, ainda que seja difícil lotá-las? A culpa é do desejo de diversificação da economia por parte do Governo. No programa do concurso público para a atribuição de licenças de jogo de 2001, o Governo pedia às operadoras a “valorização dos locais e recintos onde funcionam os casinos, designadamente quando contribuam para a diversificação do produto turístico oferecido”. No programa do concurso deste ano, o Governo vai mais longe e exige uma aposta forte no segmento não-jogo, com as sociedades interessadas a terem de apresentar planos detalhados sobre vários projectos e actividades não relacionadas com jogo, desde as convenções e exposições, entretenimento, eventos desportivos, artes e cultura, saúde e bem-estar, gastronomia e turismo comunitário, entre outros.

      “Todos os ‘resorts’ integrados, quando são construídos, têm de ter um inventário de infraestruturas não-jogo. Devem ter centros comerciais, salas de exposição, etc. Têm também de ter salas de espectáculos, ou arenas. Isto tem de fazer parte do complexo dos ‘resorts’ integrados”, confirma o académico, reiterando que a construção deste tipo de infraestrutura é fulcral para o cumprimento dos contratos das operadoras com o Governo.

      Apesar de estarem edificadas estas estruturas para actividades não-jogo, as condições de Macau não permitem que as salas de espectáculo estejam cheias. Para que isso aconteça, “é preciso recorrer a Hengqin”, afirma Glenn McCartney. “Temos um desafio, que é ter muita capacidade nas salas de espectáculo. É óbvio. Actualmente estão vazias. Mesmo antes de 2019 tínhamos muitos lugares vazios”, lembra, sugerindo a construção de estabelecimentos hoteleiros na Ilha da Montanha, de forma a que mais turistas possam aproveitar as infraestruturas do território.

      Segundo dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), existem actualmente 121 estabelecimentos hoteleiros em Macau, com um total de 37 mil quartos. Ou seja, há 64.200 lugares em salas de espectáculos e apenas 37 mil quartos de hotel. “Vejo formas de encher as salas de espectáculo, mas é preciso trabalhar com Hengqin e com a Grande Baía. É assim que vamos conseguir atrair mais público para encher as arenas. Isso seria muito útil”, frisa.

      O desafio em Macau é fazer com que os visitantes fiquem períodos de tempo mais longos na região para que aproveitem mais as infraestruturas não-jogo, considera o académico. “Estes ‘resorts’ integrados são feitos para que as pessoas fiquem mais tempo. O não-jogo serve para isso”, afirma Glenn McCartney, concluindo: “Temos tantas arenas e salas de espectáculo incríveis, têm tudo, as melhores no mundo. Mas será preciso uma ‘task force’ para abordar esta questão e perceber como é que se pode rentabilizar isto no mundo pós-Covid”.

       

      CAIXA:

      Arenas cheias, apesar da proximidade

      Nos Estados Unidos, por exemplo, as duas arenas mais próximas – o Barclay’s Center e o Madison Square Garden – distam 8,5 quilómetros uma da outra. O Barclay’s Center é actualmente a casa da equipa da NBA Brooklyn Nets e dos New York Islanders, de hóquei no gelo. O Barclay’s Center, inaugurado em 2012 e com capacidade para 17 mil pessoas, também recebe regularmente concertos e outros espectáculos. Até ao final deste ano está prevista a realização de 43 eventos neste recinto em Nova Iorque, entre jogos da NBA, hóquei no gelo e concertos. Já o Madison Square Garden tem uma longa história na cidade de Nova Iorque. Inaugurado em 1879 e refundado em 1968, tem capacidade para mais de 20 mil pessoas. Actualmente é casa dos New York Rangers, da NHL, e dos New York Nicks, da NBA. Até ao final deste ano o recinto vai receber 99 eventos. Anualmente, o Madison Square Garden recebe, no total, mais de 1,1 milhões de espectadores.

      Em St. Louis, também nos EUA,dois estádios de futebol separados por 1,1 quilómetros. São eles o Dome at America’s Center e o Busch Stadium. A Dome de St Louis abriu pela primeira vez em 1992 e foi renovada em 2010. Esta arena tem capacidade para mais de 67 mil pessoas e é actualmente a sede da equipa de futebol americano St. Louis BattleHawks. O Busch Stadium tem capacidade para perto de 50 mil pessoas e actualmente serve de casa aos St. Louis Cardinals e St. Louis Blues. Em Philadelphia, há quatro arenas em menos de 600 metros, no chamado South Philadelphia Sports Complex: O Citizens Bank Park; o Lincoln Financial Field; o Wells Fargo Center; e o Xfinity Live!. Também cada uma destas arenas é palco de dezenas de eventos por mês, desde jogos de futebol a concertos.

      No Reino Unido, a situação é semelhante. Os estádios de futebol estão espalhados por todo o país e todos os fins-de-semana estão cheios para ver as partidas. No que toca a outras arenas multiusos, a situação não é muito diferente. Em Londres, a O2 Arena, por exemplo, tem capacidade para 20 mil pessoas e foi a arena que mais bilhetes vendeu a nível mundial só no ano de 2017, com mais de 1,4 milhões bilhetes vendidos. Mais a Norte, a Manchester Arena, com capacidade para 21 mil espectadores, vende anualmente 1,07 milhões de bilhetes. Números semelhantes tem a OVO Hydro, em Glasgow, na Escócia, com 1,02 milhões. Em Colónia, na Alemanha, a Lanxess Arena vende mais de 930 mil bilhetes para eventos anualmente, e o mesmo acontece na Arena Monterrey, no México.