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      InícioPerfilMorreu António Correia, advogado e poeta, fundador da C&C Advogados

      Morreu António Correia, advogado e poeta, fundador da C&C Advogados

      O causídico, que viveu em Macau durante 20 anos, foi igualmente deputado na Assembleia Legislativa num território onde chegou há 42 anos, precisamente no dia 13 de Junho de 1980. Dedicou-se também às lides literárias, tendo publicado mais de duas dezenas de livros em prosa e poesia. Morreu aos 73 anos, vítima de doença prolongada.

      O advogado e poeta António Correia morreu ontem, em Lisboa, aos 73 anos vítima de doença prolongada. Viveu em Macau durante 20 anos, território onde chegou a 13 de Junho de 1980.

      Fundou, juntamente com Rui Cunha, um dos principais escritórios de advogados do território, a C&C Advogados. Em 1991, foi nomeado membro do Conselho Consultivo do Governo de Macau e, entre 1992 e 1996, foi deputado na Assembleia Legislativa (AL). Saiu do território no final dos anos de 1990, mas manteve sempre uma ligação ao mesmo onde voltou por diversas vezes.

      Ao PONTO FINAL, Rui Cunha mostrou-se transtornado com o desaparecimento de António Correia. “O conhecimento do falecimento de um dos fundadores da C&C constitui, certamente, um profundo choque e motivo de grande consternação para todos os que, ao longo de mais de 25 anos,fizeram e fazem parte do grupo das nossas sociedades”, começou por dizer.

      Rui Cunha lembrou os problemas de saúde do companheiro, embora, confessa, não se esperasse um desenlace tão súbito, que a todos nós, nos deixa tristes e desconsolados. Mesmo afastado das lides diárias, referiu ainda Rui Cunha, continuou sempre ligado ao nosso projecto inicial que ajudou a formar, tanto quanto estimávamos voltar a ver no nosso convívio, cada vez que regressava a Macau, terra que tanto o marcou e que tanto versejou pela vida fora”.

      A sociedade de advogados que ajudou a fundar “sentirá a falta do seu lúcido espírito, a suave forma de falar e conviver e a permanente disponibilidade para ajudar, se preciso. Um amigo a menos, uma perda irreparável, que deixa imensas saudades, e Homem a quem temos de render sentida homenagem e profunda gratidão por tudo quanto fez para estacasa – que foi e será sempre sua -, por Macau a que esteve tão intimamente ligado e pelas suas gentes que, tantas vezes e genuinamente, ajudou a defender nos seus interesses legítimos”, disse ainda, agradecendo ao amigo “pelo exemplo que deixou para respeitarmos e para todos o seguirmos”.

      Também Nuno Sardinha da Mata, sócio e responsável pelo departamento comercial da C&C, não quis deixar de transmitir os seus pêsames. Ao nosso jornal o advogado confessou tratar-se de “um momento de tristeza”. “Perdemos um amigo para além de um colega e fundador da C&C. Estamos chocados e tristes neste momento e recordá-lo-emos sempre com saudade. Esperamos nos próximos dias ter oportunidade de relembrar a sua memória e, para já, enviamos a nossa simpatia e sentidas condolências á família enlutada.”

       

      DE BANCÁRIO ATÉ DEPUTADO NOMEADO

      Amante do Douro convicto, António Correia nasceu em Resende, no distrito de Viseu. Começou o seu percurso profissional como empregado bancário em 1972 no antigo Banco de Angola, tendo chegado a Macau para ingressar os quadros do também extinto Banco Totta & Açores. Em Macau fez diversas amizades, entre as quais Arnaldo Gonçalves, que também falou ao nosso jornal. “Conheci o António Correia nos anos 1990. Era um excelente advogado que foi muito útil na facilitação de alguns projectos da administração Melancia. Era um homem de contacto fácil, comunicativo e empático. Mantivemos o contacto ao longo dos anos. Era um homem preocupado com os outros. Tive-o no lançamento de vários dos meus livros. Foi um homem do consenso e harmonia dividido entre o seu Macau e o seu Brasil. Guardo-o na memória como um homem bom, fraternal. Era um grande português da diáspora”.

      Para além da forte actividade profissional e cívica que teve no território, António Correia também se dedicou de alma e coração às lides literárias. Das mais diversas obras publicadas por António Correia, que tem colaborado igualmente com a imprensa, destacam-se, na poesia, “Amagao Meu Amor” (sonetos), Macau, 1992, “Rua Sem Nome” (romance), Lisboa, 1999, e, “Lisboa, em Haiku”, edição trilingue, em português, inglês e japonês, Lisboa, 2015. Participou ainda em diversas antologias de poesia de onde se destaca a última, editada em 2020 em Macau, intitulada “Rio das Pérolas”, com a chancela da Ipsis Verbis e coordenada pelo poeta português António MR Martins.

      “O seu conceito de liberdade insere-se também numa óptica ocidental e oriental, pois representa metaforicamente o sentido de liberdade ainda vivo na cidade de Macau e explicitado na harmoniosa convivência entre diferentes crenças”, chegou a escrever a italiana Michela Graziani no trabalho académico “Luz e Negrume – Para uma reflexão do sentido da vida em António Correia”.

       

      HOMEM SOLIDÁRIO E DE TRATO FÁCIL

      António Correia também foi colaborador de jornais e da TDM – Rádio Macau onde fez uma profícua amizade com o radialista Hélder Fernando, actualmente radicado em Portugal. “Sinto-me sem pé, mesmo pensando estar preparado de há uns dias para cá. Mesmo presente na ausência de que ele nos deu tempo de preparação, o António Correia partiu. Um irmão que perdi. Dos mais importantes exemplos de homem firmemente solidário. Poema eternamente vivo em nós”, lamentou ao PONTO FINAL.

      Frederico Rato também acedeu a comentar a morte de António Correia com quem sempre teve um “óptimo relacionamento”. “Tenho uma excelente recordação e memória do António Correia. Foi dos primeiros advogados que conheci quando cheguei a Macau em 1984”, disse.

      O advogado da LEKTOU recordou que Correia fez “um percurso interessante, tanto ao nível profissional como político”. “Quando chegou a deputado nomeado, confesso que fiquei surpreendido, mas ele, apesar de afirmar que seria leal, nunca quis ser um ‘yes man’. Foi sempre um homem de pensamento independente e um homem da cultura. Deixa amigos e saudades em Macau”, notou ainda, lembrando que o malogrado advogado “era uma pessoa de trato fácil, dedicado ao contencioso bancário e à área comercial”.

      Depois de regressar a Portugal, o advogado desempenhou funções como administrador-executivo da ANA – Aeroportos de Portugal, com especial destaque para a ilha da Madeira, onde esteve intimamente ligado à ampliação do Aeroporto Internacional do Funchal.

      Em 2000, recebeu das mãos do Presidente da República, Jorge Sampaio, a Ordem de Mérito, no grau de Grande Oficial.

       

      PONTO FINAL