Edição do dia

Segunda-feira, 26 de Fevereiro, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
13.9 ° C
15.9 °
13.9 °
77 %
6.2kmh
40 %
Dom
15 °
Seg
19 °
Ter
19 °
Qua
20 °
Qui
22 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      Início Sociedade Altura permitida dos lotes C na Praia Grande deve garantir vista paisagística,...

      Altura permitida dos lotes C na Praia Grande deve garantir vista paisagística, consideram arquitectos

      O desenvolvimento do terreno dos lotes C1 a C4 junto ao Lago Nam Van, cuja anterior planta de condições urbanísticas suscitou vozes opostas na sociedade no ano passado, foi novamente objecto de recolha de opiniões através de consulta pública. Em declarações ao PONTO FINAL, vários arquitectos e profissionais do sector salientaram a importância da futura construção nos terrenos, devido à sua localização numa zona com valor histórico, alertando que o Governo deve ser mais prudente na análise do impacto paisagístico causado pelo projecto.

       

      A Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) publicou na semana passada 12 plantas de condições urbanísticas para recolha de opiniões públicas, incluindo o Terreno junto à Avenida Doutor Stanley Ho e Rua do Lago Sai Van, ou seja, os lotes C1 a C4 na zona do Lago Nam Van.

      Em declarações ao PONTO FINAL, o arquitecto Rui Leão referiu que uma das maiores considerações para a planta em questão é a continuidade visual da paisagem, tanto a partir da Colina da Penha, ou da Fortaleza da Nossa Senhora do Bom Parto, como para a percepção visual dos transeuntes que passam na rua.

      O arquitecto reitera ainda que o Governo e as autoridades competentes devem realizar um estudo mais cuidadoso. “Como é que pode não haver um estudo de impacto visual, para um edifício ficar trinta e tal metros do outro lado rua, em relação à Fortaleza da Nossa Senhora do Bom Parto”, que está perto também de outro edifício classificado, o Hotel Bela Vista, que é considerada uma construção de interesse arquitectónico.

      A eventual obstrução resultante dos edifícios altos poderá criar uma descontinuidade da paisagem desses monumentos, contudo, “é importante que as pessoas e o Governo percebam que a Fortaleza não é um edifício qualquer, tem a mesma relação com a paisagem, com mesma natureza que tem o Farol da Guia”, asseverou Rui Leão, alertando para a possibilidade da Fortaleza ficar envolvida em sombras devido aos edifícios. “Uma vez que tomem a decisão, vai ser irreversível, pelo que a consulta pública devia servir para o público fazer a reflexão e articular a um estudo de impacto ambiental”, frisou.

      O antigo vogal do Conselho do Planeamento Urbanístico sugeriu assim determinar uma linha de ordenamento volumétrico dos lotes das zonas C, E, D do plano do fecho da Baía da Praia Grande, ou seja, os complexos de edifícios podem ter uma altimetria mais baixa entre 6 a 7 pisos, na extremidade junto à cruzada da Avenida da República e a Rua do Lago Sai Van, perto da Fortaleza da Nossa Senhora do Bom Parto. “Nas restantes Zonas C e D do plano a altimetria do plano permitiu progressivamente a construção de 10 a 20 pisos, correspondendo os volumes mais afastados de 25 a 30 pisos”, na extremidade ao lado da instalação do Corpo de Bombeiros.

      Desse modo, pode ser reduzido “o impacto visual do entorno da Fortaleza”, permitido que “ao longo da Avenida da República a vista não seja ocupada por volumetrias altas”, uma vez que a questão da paisagem é do campo visual, mas não de um só corredor visual que funciona, segundo o arquitecto.

      Já André Lui, vogal do Conselho do Planeamento Urbanístico, assinalou também o problema paisagístico. “O anterior documento da planta tinha mencionado a relevância da Colina da Penha nas últimas reuniões, uma vez que para esta altura permitida poderá haver algum impacto à vista”, referiu ao PONTO FINAL, acrescentando que, do ponto de vista a partir da Fortaleza da Nossa Senhora do Bom Parto, da residência do cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, poderá tornar-se impossível ver o mar, pois os edifícios no futuro “vão obstruir tudo”.

      O arquitecto recordou também que nas reuniões anteriores sobre o assunto do mesmo terreno havia membros que concordaram em construir edifícios altos, caso contrário seria “um desperdício de espaço”, havendo também opiniões que referiram que “os tribunais devem ser altos por terem prestígio”.

      Recorde-se que a planta de condições urbanísticas da respectiva zona já tinha suscitado no passado alguma discussão, havendo fortes oposições pois a altura permitida prevista no projecto poderá prejudicar a vista única da Colina da Penha sobre a ligação visual entre o edifício e o mar.

      No entanto, o documento para recolha de opiniões desta vez não sofreu alteração na proposta de altura máxima permitida do edifício, com referência ao parecer do Instituto Cultural que diz que os edifícios da parcela perto do Lago Sai Van podem atingir 50,8 metros do nível médio do mar, enquanto a parcela pequena perto da Avenida Doutor Stanley Ho é de 46,7 metros do nível médio do mar.

      “Não sei exactamente quais são os critérios urbanísticos para esta diferenciação, apenas uma pequena zona que confere uma altura ligeiramente inferior. O projecto de arquitectura deverá explicar melhor o que está em jogo”, referiu o arquitecto Francisco Ricarte.

      À semelhança de outras opiniões, Francisco Ricarte defendeu que os lotes em causa estão localizados numa zona de grande eixo de comunicação e transporte da sociedade, também com proximidade de elementos paisagísticos e patrimoniais muito importantes, como o antigo Hotel Bela Vista. “A potencial obstrução da vista para a Colina da Penha deve ser mais cuidada”, frisou.

      A proposta de altura para esses lotes anteriormente foi ainda mais elevada, recordou, considerando que a altura de 50 metros agora sugerida parece ser uma “tentativa de controlar o impacto urbanístico”.

      O terreno referido, que envolve também o local onde se encontra actualmente construído o edifício do Tribunal Judicial de Base, tem uma área total de 4.636 metros quadrados, com a finalidade proposta de solos para equipamentos e instalações das entidades públicas: Tribunal e Ministério Público.

      Francisco Ricarte mostrou-se de acordo com a finalidade do terreno. “Uma área com grande importância urbana onde será instalado um equipamento também de grande importância para cidade, como sejam os tribunais”, comentou o arquitecto, esperando que o projecto concreto possa ser executado e instalado de forma adequada com qualidade. “A intenção pode ser boa, a concretização pode ser problemática, vamos ver”, frisou.

      Por sua vez, o deputado Wu Chou Kit defendeu que é razoável que os tribunais e a Assembleia Legislativa se concentrem na Praia Grande, que tem sido uma zona focada pelos sectores comerciais e judiciais. Ao PONTO FINAL, o profissional de engenharia e da indústria da construção disse acreditar que a altura proposta na planta já é o resultado após “ouvir as opiniões dos cidadãos”.

      Apontando que a altura inicial foi ainda mais elevada, o Governo da RAEM já tomou como referência os estudos sobre a vista realizados pelo Instituto Cultural, e considerou a vista horizontal da adjacente zona B, segundo explicou.

      Apesar de não haver alteração da altura permitida nos lotes, o legislador considera que a planta actual visa nada mais do que “esclarecer a orientação do desenvolvimento social”, tendo seguido as regras e as leis relacionadas em vigor, particularmente o Plano Director da RAEM.

      Outro antigo vogal do Conselho de Planeamento Urbanístico, Chan Tak Seng, referiu ao PONTO FINAL a sua insatisfação com a planta em questão, sobretudo em relação à altura permitida, e a falta de transparência existente no trabalho do planeamento da cidade. “Esta zona não deve ter obras com essa finalidade, porque é que insistem em construir edifícios altos de uso judicial, mesmo que haja tantas opiniões opostas por parte dos cidadãos?”, questionou. Chan Tak Seng disse também que a proposta actual violará a paisagem natural da Colina e com valores históricos, considerando que não existe a necessidade duma “altura tão elevada” uma vez que “o terreno não tem uma área particularmente espaçosa para instalações da administração pública”. “Este problema não deve ser resolvido assim por prejudicar o património em Macau”, lamentou.

       

       

      PONTO FINAL

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau