Lei de Segurança Nacional pôs fim a caos em Hong Kong, dizem lusodescendentes

Cerca de um ano após a implementação da Lei de Segurança Nacional em Hong Kong, portugueses e lusodescendentes dizem que a polémica decisão conseguiu pôr cobro à instabilidade política e social que tinha paralisado a cidade.

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O Governo Central chinês impôs e Hong Kong, a 1 Julho de 2020, uma lei que criminaliza, na prática, a expressão de qualquer forma de oposição ao Partido Comunista. A China é acusada de ter colocado um ponto final no princípio “Um País, Dois Sistemas” que governou a transferência de soberania da antiga colónia britânica, em 1997. Pequim, contudo, alega que a Lei de Segurança Nacional foi necessária para restaurar a ordem em Hong Kong. Isto após 2019 ter sido marcado por sete meses de manifestações em defesa de reformas democráticas e quase sempre com confrontos com a polícia, que levaram à detenção de mais de nove mil pessoas.

“A violência gratuita e a destruição de propriedade, por vezes de forma selvagem, não são aceitáveis e aqueles que cometeram esses atos terão de ir a tribunal responder pelo que fizeram”, disse à Lusa o investigador Francisco da Rosa. O octogenário, que nasceu em Xangai e cresceu entre Macau e Hong Kong, acredita que os lusodescendentes estão satisfeitos com o fim do “caos” que tinha paralisado a cidade. “Alguns dos mais velhos provavelmente diriam que Hong Kong andava a pedi-las”, disse à Lusa Georgine Leung. “Eles queriam uma sociedade calma, pacífica e estável e na verdade esta lei permitiu isso”, sublinha.

A portuguesa, nascida em Hong Kong, regressou à região em Junho de 2020, após largos anos a viver no Reino Unido. “Vimos as coisas mudar muito rapidamente após a lei ter sido introduzida”, recorda Georgine. “Obviamente que os protestos pararam imediatamente”, confirma.

O medo da repressão levou à dissolução de cerca de 30 organizações da sociedade civil, de acordo com uma contagem feita pela agência de notícias France-Presse. Na semana passada foi a vez da Frente Cívica de Direitos Humanos, uma coligação que promoveu os maiores protestos pró-democracia na cidade em 2019, a anunciar a dissolução do movimento. Hei-man participou em algumas das manifestações em 2019, mas agora a portuguesa admite ter receio do que possa acontecer se voltar às ruas. “Os organizadores dos protestos foram todos presos”, explicou à Lusa a portuguesa. Mais de 60 pessoas foram detidas ao abrigo da Lei de Segurança Nacional.

As autoridades “já tinham em mente quem queriam atingir com esta lei, pessoas que já tinham demonstrado ser problemáticas, empecilhos”, admite Georgine Leung.

Além dos líderes do movimento pró-democracia, também alguns manifestantes foram detidos, “apenas por erguerem cartazes com oito carateres chineses”, diz Hei-man, referindo-se ao slogan do movimento: “Libertem Hong Kong, a revolução da nossa era”. A portuguesa nasceu em Macau e mudou-se para a cidade vizinha para prosseguir os estudos. “Nessa altura éramos livres de participar em qualquer protesto contra algo que achássemos injustos. Isso é algo que tomei por garantido, mas que agora nos foi roubado”, lamenta.

 

Hong Kong não está “morta”

O espírito de Hong Kong não foi quebrado, garantem portugueses e lusodescendentes ali residentes. A controversa legislação, implementada a 1 de Julho de 2020, “não teve qualquer efeito” na vida da comunidade, cujos membros são “apolíticos”, disse à Lusa o investigador Francisco da Rosa, que preparou uma exposição sobre a presença dos lusodescendentes na cidade, que deveria abrir ao público no Museu de História de Hong Kong em 2022.

O mesmo se pode dizer da população em geral, garante Georgine Leung. “As pessoas de Hong Kong são muito realistas. Na escola da minha filha, os pais estão preocupados é em pagar as contas e criar os filhos durante uma pandemia”, disse à Lusa a portuguesa. Mas mesmo a jovem nascida em Hong Kong admite que a Lei de Segurança Nacional afetou a liberdade de expressão. “No meu caso, eu tenho mais cuidado com o que escrevo no Twitter”, confessa.

Hei-man, que participou em algumas das manifestações em 2019, foi mais longe: bloqueou no Facebook um antigo colega de universidade, que agora é agente da polícia. Também a organização ambiental para a qual a portuguesa trabalha decidiu deixar de mencionar “assuntos políticos sensíveis” nas redes sociais. Aliás, a maioria dos portugueses e lusodescendentes em Hong Kong prefere o silêncio sobre a Lei de Segurança Nacional.

“Não seria apropriado eu fazer comentários sobre esse tema, uma vez que quaisquer comentários que eu faça poderiam ser associados à comunidade”, disse à Lusa um dos líderes dos lusodescendentes na cidade. A esta lei vieram juntar-se esforços do Governo Central para promover a educação patriótica em Hong Kong.

“Começaram a tocar o hino nacional [chinês] todos os dias na rádio às 8 da manhã e também o tocam na escola da minha filha”, diz Georgine Leung. “Ela disse-me que na verdade não entende a letra e por isso só entoa a melodia”, acrescenta, com um sorriso. Uma subtil forma de resistência que dá esperança à portuguesa. “Hong Kong sempre teve uma tradição de sátira e basta ouvir a rádio para ver que não deixaram de gozar com o governo” local, sublinha.

Também Hei-man garante que os slogans do movimento pró-democrático continuam a surgir, “embora muito cautelosamente”, em grafittis e outras formas de arte urbana. Mas para muitos a única solução foi o exílio. No primeiro ano desde a implementação da Lei de Segurança Nacional, a cidade perdeu mais de 116 mil habitantes, segundo dados compilados pelo ativista David Webb.

Os que abandonam Hong Kong “sentem-se uns mártires políticos”, quando na realidade a maioria vem das classes alta ou média-alta e detém um passaporte estrangeiro que lhes dá “uma escolha, um privilégio”, diz Georgine Leung. O fatalismo, diz a portuguesa, só aumentou com o encerramento forçado, a 24 de Junho, do jornal Apple Daily, um firme apoiante do movimento pró-democracia. “Eu não acho que Hong Kong esteja morta”, garante Georgine. “Continuamos cá e a falar cantonês”, sublinha.

Hei-man, que nasceu em Macau e se mudou para a cidade vizinha para prosseguir os estudos, não tem a certeza do que o futuro lhe reserva. “É realmente difícil imaginar [ficar em Hong Kong] se as coisas só ficarem piores para a minha geração e para a próxima”. Entretanto, a portuguesa continua à espera que as fronteiras reabram para que os pais dela possam vir de Macau para um casamento em suspenso. “Antes da Lei de Segurança Nacional, tínhamos um sonho para o futuro, queríamos um mundo mais livre”, recorda a jovem. “Ainda tenho esperança, ainda temos a força para continuar a fazer o que for possível”, acrescenta.