Analistas consideram que a indústria das burlas online, que poderá afectar Timor-Leste, teve início em Taiwan nos anos 1990 e emigrou para o sudeste asiático em 2010 atraída por fronteiras permeáveis, infraestruturas baratas e elites dispostas a oferecer proteção.
A explicação é dada por Ivan Franceschini, Mark Bo, Ling Li, Neil Loughlin, analistas ligados ao EOS Colletive, grupo de investigadores que estudam a influência global da China em contextos políticos, económicos e sociais sensíveis, num artigo publicado no East Forum Asia. “Este núcleo regional da indústria de burlas online tem origem em Taiwan, nos anos 1990, quando grupos criminosos começaram com fraudes telefónicas e, mais tarde, migraram para a Internet”, pode ler-se no artigo, divulgado no início deste mês.
Segundo aqueles analistas, quando em Taiwan foi reforçada a aplicação da lei, as operações daqueles grupos foram para a China continental e por volta de 2010 para o sudeste asiático “atraídos por fronteiras permeáveis, infraestruturas baratas e elites locais dispostas a oferecer proteção”.
O fenómeno, segundo o artigo, acelerou devido à facilidade de acesso à “infraestrutura ilícita de serviços de criminosos”, nomeadamente “ferramentas de ‘phishing’ prontas a usar”, “plataformas para movimentar fundos roubados” e por causa da covid-19.
A pandemia criou “condições de isolamento e desespero financeiro exploradas pelos burlões, enquanto as restrições de viagem levaram os recrutadores a recorrerem mais ao tráfico e à fraude”, salientam.
Os analistas explicam também que aquele tipo de operação “não prospera no caos” e que para sobreviver precisam de “estabilidade e da protecção das elites”. O artigo dá como exemplo a situação no Camboja, onde a sociedade civil e académicos denunciaram ligações entre as operadoras de burla e pessoas com influência.
Nas Filipinas, por exemplo, a operação cresceu devido a um “regime de licenciamento de jogo ‘online’ profundamente infiltrado pelo crime organizado”.
No Myanmar, segundo os analistas, a indústria das burlas ‘online’ proliferou em “territórios controlados por grupos armados étnicos e forças alinhadas com a junta”, enquanto a zona económica especial do Laos “há muito alberga atividades criminosas sob proteção de atores poderosos”. “Em toda a região, quando estas operações são alvo de acções policiais, poucos dos responsáveis e protetores enfrentam consequências. As atividades reabrem rapidamente ou deslocam-se para outros locais”, salientam no artigo.
A cooperação transfronteiriça tem alcançado alguns resultados, como as acções impostas no ano passado pelos Estados Unidos e Reino Unido contra o Prince Group do Camboja e o seu presidente Chen Zhi (detido e deportado para a China em janeiro), bem como pelas sanções norte-americanas contra o Huione Group.
O antigo presidente da Huione Li Xiong foi extraditado este mês para a China para responder por acusações de branqueamento de capitais. Para Pequim, a Huione é uma subsidiária do Prince Group. Mas, apesar da pressão das autoridades, os analistas consideram que a “estrutura descentralizada da indústria faz com que a remoção de um interveniente não desmantele a rede como um todo”. “Quando a pressão aumenta num local, a indústria adapta-se, desloca-se e continua”, escrevem os analistas.
No artigo, destaca-se que a repressão é insuficiente e pode gerar consequência humanitárias, porque ignora as “vítimas de tráfico”, funcionários muitas vezes coagidos a mudar de país. “Empresas tecnológicas, bancos e reguladores precisam de fazer muito mais para desmantelar a infraestrutura financeira e tecnológica que sustenta esta economia. As autoridades nacionais devem reforçar a sensibilização pública para os riscos de fraude e para o recrutamento enganoso”, recomendam, no artigo.
Para os analistas, sem enfrentar aquelas falhas estruturais a economia das burlas, que já se alastrou aos Emirados Árabes Unidos, África Ocidental, Pacífico e América Latina, vai persistir. “O sudeste asiático poderá continuar a ser o seu epicentro, mas trata-se de um problema que exige uma resposta global concertada”, acrescentam. Lusa












