Numa exposição inédita em Portugal e a primeira no mundo depois da sua morte, a Ochre Space traz uma selecção de fotografias do artista japonês Hosoe Eikoh, publicadas no livro Barakei, que têm como protagonista o famoso escritor, Yukio Mishima. A curadoria esteve a cargo do advogado e fotógrafo de Macau, João Miguel Barros, proprietário da galeria.
“A fotografia parece muito realista, mas será real?”, lê-se nas paredes da Ochre Space, em Lisboa. A pergunta, lançada por Hosoe Eikoh, é a introdução perfeita para o que segue: uma selecção de imagens da sua autoria, publicadas no famoso livro Barakei (em inglês, Ordeal by Roses), em 1963, no Japão, do escritor japonês, Yukio Mishima. Mas estas imagens, “desafiantes para toda a gente”, conforme refere o curador João Miguel Barros, reflectem, na verdade, um olhar muito particular que, em alguns casos, chega a ter uns laivos de surrealismo. A abertura oficial da exposição deu-se no dia 14 de Janeiro, mas estará patente até ao dia 8 de Fevereiro.
Olhando para as 15 imagens, que estão em exposição nas paredes da Ochre Space, o advogado e fotógrafo de Macau destaca uma que considera ser a “síntese perfeita” de Barakei. “A grande fotografia da cara do Mishima com a rosa tem sido apresentada como icónica deste projecto e é, na verdade, uma imagem que mostra a grande dualidade do escritor”, diz ao PONTO FINAL, explicando: “Do lado direito, temos a luz e, do outro lado, a negritude. À frente, temos a rosa, que é, ela própria, o significado do tormento, da tortura, do suplício, devido aos espinhos.” Na verdade, Barakei significa essa mesma duplicidade. “Como Hosoe explica, no texto que acompanha a 3.ª edição do livro em japonês, Bara significa rosa e Kei significa castigo”, lê-se na brochura da exposição, num texto assinado por Barros.
Uma selecção “difícil”
Das 40 imagens incluídas no livro Barakei, apenas algumas, por limitações de espaço, puderam figurar na exposição. Com a preocupação de “ir buscar a diversidade dentro dos diversos capítulos do livro”, o curador seleccionou 15 que representassem momentos importantes deste projecto. Por exemplo, do conjunto constam duas imagens, que não fazem parte do livro, mas que, na verdade, deram início a este trabalho e são, por isso, marcantes.
Em 1961, o Hosoe foi contactado pelo editor do Mishima para tirar “uma fotografia [de capa] fora da caixa para um livro de ensaios” que o escritor estava então a concluir, conta o curador. Quando o fotógrafo chegou a casa de Mishima, onde estava também o pai a regar o jardim, o Hosoe teve a ideia de “tirar fotografias com o escritor enrolado numa mangueira”. No fim, Hosoe atreveu-se a propor “continuar a sessão de fotografias”, no projecto Barakei.
Além destas fotografias representativas, João Miguel Barros escolheu também outras bem conhecidas, como a imagem em que Mishima se encontra agarrado a um relógio. Mas a maioria das obras escolhidas foram-no por estarem no centro do livro e representarem “a intersecção do Mishima com todas as suas referências culturais”, tendo por pano de fundo diferentes pinturas do Renascimento. E, apesar de ser uma exposição mais focada na vida, também inclui uma imagem da mulher de Tatsumi Hijikata, o amigo em comum de Hosoe e Mishima, em grande plano, com o escritor atrás. “Essa já faz parte de outro capítulo introdutório da parte da morte e do sofrimento”, explica.
Dadas as suas características, não se tratam de imagens de leitura imediata, permitindo, por isso, “diferentes interpretações”, que variam “conforme os conhecimentos intelectuais” de quem as visualiza. “Naquela altura, no Japão, havia muita tendência para a fotografia realista”, afirma João Miguel Barros, mas “olhar para estas imagens com uma multiplicidade de elementos e esta mistura de referências culturais” acaba por constituir um desafio à sensibilidade. E leva a diferentes perguntas: “O que quer o autor dizer com isso? Isto é por acaso? Tem algum significado especial?”.
A história de Barakei
Barakei é uma obra “sobre a vida e o sofrimento, centrada na figura de Yukio Mishima”, mas não é um trabalho conjunto das duas personalidades, escreve Barros na brochura da exposição. “Pensei em usar tudo o que Mishima amava ou possuía para formar um documento sobre o escritor. No entanto, a interpretação e a expressão seriam minhas”, disse Hosoe, citado pelo curador, nesse mesmo texto. “Queria criar uma nova imagem de Yukio Mishima através da minha fotografia”, continuou o fotógrafo japonês.
Na introdução a Barakei, o escritor Mishima referia: “Um primeiro requisito para este processo é, obviamente, que os objectos fotografados tenham algum significado do qual possam ser despojados. Por isso, era necessário que o modelo humano fosse um escritor e que o pano de fundo consistisse de pinturas renascentistas e mobiliário barroco espanhol”. Aliás, Hosoe refere, citado por Barros no texto da exposição, que o escritor lhe mostrou “uma série de reproduções de pinturas italianas do Renascimento, incluindo obras de Botticelli e Rafael”.
Este trabalho, que resultou do diálogo destes dois artistas, é a grande mais-valia de Barakei. “Não é um trabalho de colaboração, é um trabalho do Hosoe, mas o Hosoe incorpora o Mishima enquanto matéria-prima, mas também muito do seu património cultural e intelectual”, explica o curador ao PONTO FINAL.
Com as fotografias que deste livro fazem parte a “serem susceptíveis de várias interpretações”, Barakei é um “projecto muito enigmático”. Há, aliás, vários “mistérios” ainda por resolver associados ao livro. “Em algumas imagens, há corpos que não se sabe quem são e o Hosoe nunca disse quem foram”, diz, a título de exemplo.
O autor também não facilitou o processo de interpretação, por não atribuir uma legenda a nenhuma das imagens, tal como nunca fez ao longo da sua carreira. “As próprias fotografias não têm nome, têm um cardinal e um número, mas faz parte da cultura do Hosoe não dar nome às suas obras”, declara o curador.
Barakei teve quatro edições, com a primeira e a terceira a terem reimpressões. Mas há também um papel importante dos designers nesta obra. “O que torna única cada uma destas quatro edições é o papel criativo atribuído aos designers que as pensaram, sendo-lhes permitido acrescentar uma marca inovadora ao trabalho de Hosoe”, escreve João Miguel Barros, na brochura da exposição. Por exemplo, as três pinturas concebidas por Tandanori Yokoo para a segunda edição estiveram expostas no MoMa, fora do contexto do livro Barakei.
A exposição patente no Ochre Space inclui 15 imagens e um vídeo, que resulta de uma montagem, a cargo do realizador Hélder Faria, de uma pequena entrevista feita a Hosoe sobre Barakei, a que se juntam imagens das 40 fotografias do projecto e das suas quatro edições. Uma peça “didáctica e pedagógica”, explica João Miguel Barros, que ajuda, quem por ali passa, a navegar pela obra de Hosoe.












