As manhãs de conversas organizadas pela Câmara de Comércio França-Macau (FMCC), realizadas no Sofitel, têm vindo a trazer, uma vez por mês, discussões pertinentes sobre temas que afectam a actual situação económica local e global. A Inteligência Artificial (IA) encontra-se no centro de uma revolução laboral que exige reflexões sobre a coexistência entre inovação e ética. Três especialistas no assunto articularam visões diferentes sobre o tema “A inteligência artificial na encruzilhada: Podem a inovação e a ética coexistir?”.
“A IA não está a ‘matar’ empregos, está a tornar pessoas mais produtivas e eficientes”, foi uma das considerações de Stéphane Monsallier, fundador da empresa especializada em soluções estratégicas através da IA, System in Motion, que participou na última conversa realizada na sala Baccara, no sexto andar do Sofitel Macau at Ponte 16, na manhã de quarta-feira, juntamente com outras duas importantes figuras na área que actuam em Macau.
Entre os oradores, estava presente também Serge Stinckwich, especialista do Instituto para Tecnologia de Programação da Universidade Internacional das Nações Unidas em Macau (UNU-IIST), que trouxe uma perspectiva global sobre sustentabilidade e impacto ambiental da IA. Também esteve presente a advogada Sara Migliorini, que abordou as questões jurídicas e de propriedade intelectual relacionadas com o uso de dados e a responsabilidade das empresas. Já Stéphane Monsallier, contribuiu com a sua visão sobre a inovação responsável, regulação e o papel das empresas na construção de um uso ético da inteligência artificial.
Com a moderação a cargo de Jérémy Artan de Saint Martin, membro da FMCC, a conversa deu início com a sua questão: Como garantir que os benefícios desta nova tecnologia sejam acessíveis a todos, sem que os riscos éticos, sociais e ambientais sejam negligenciados?
Desde a utilização de “datasets” massivos (informações diversas que são tratadas por um sistema operativo como uma unidade), até às implicações de transparência, responsabilidade e regulação, o debate revelou uma série de desafios e oportunidades que exigem uma abordagem colaborativa e informada.
“É fundamental promover uma abordagem mais holística, que não considere apenas os aspectos éticos, mas também os impactos ambientais da tecnologia”, salientou Serge Stinckwich em relação à responsabilidade na aplicação destes novos sistemas. Segundo Stinckwich, “a elevada utilização de energia por parte de sistemas de IA tem um impacto directo na pegada de carbono, contribuindo para as mudanças climáticas, uma preocupação que muitas vezes passa despercebida na discussão sobre inovação”. Assim, introduziu a sustentabilidade como uma prioridade na discussão sobre implementação de soluções de IA, e a necessidade de informar o público geral e investidores sobre como evitar que o avanço tecnológico comprometa os recursos do planeta e seja realizado de forma mais consciente.
Além disso, a questão da regulação revelou-se uma das mais complexas, como explicou a advogada Sara Migliorini. “Embora a legislação existente, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) europeu, tenha sido aplicada para limitar certas operações de sistemas de IA, ainda há uma lacuna significativa na regulamentação específica para a IA em muitas jurisdições”. Migliorini acrescentou que “a ausência de regras claras pode levar ao uso indevido de dados, à produção de informações falsas – como as chamadas ‘alucinações’ de grandes modelos de linguagem, que geram respostas incoerentes ou inventadas – e a problemas relacionados com a propriedade intelectual”. Por exemplo, casos recentes de “datasets” contendo imagens ou textos protegidos por direitos de autor suscitam dúvidas sobre o uso legal de tais informações na formação de modelos de IA, levantando acções judiciais e debates sobre os limites da propriedade intelectual.
No que diz respeito à responsabilidade, o debate também abordou a questão da transparência e da obrigação de as empresas serem mais abertas quanto ao funcionamento dos seus sistemas. Como referiu o investigador Serge Stinckwich: “incentivar a transparência pode criar um sistema de incentivos onde as organizações, ao explicarem claramente as limitações e os riscos dos seus produtos de IA, possam escapar a responsabilidades legais em certas circunstâncias”. Este conceito de responsabilidade partilhada foi apontado como fundamental para criar uma cultura de ética empresarial, onde a inovação não pode ser um pretexto para negligência ou descuido.
No entanto, há também uma preocupação legítima de que a regulação excessiva possa sufocar a inovação. Essa perspectiva foi partilhada por Stéphane Monsallier, que destacou “a importância de uma postura de auto-regulação responsável por parte das empresas”, defendendo que “a experimentação e o desenvolvimento de competências internas são essenciais para um uso ético da IA”. Segundo Monsallier, “o investimento em formação e na capacitação dos profissionais é a melhor estratégia para garantir que a IA beneficie a sociedade, sem que seja necessário criar uma estrutura regulatória excessivamente rígida que possa atrasar o progresso”.
IMPACTO SOCIAL E ECONÓMICO
Outro ponto importante discutido foi o impacto social e económico da IA, especialmente para pequenas e médias empresas (PMEs). A rápida evolução da tecnologia pode parecer uma corrida de obstáculos, mas também apresenta uma oportunidade para criar novos empregos, como os promotores de ‘prompts’ (‘prompt engineers’) ou especialistas em IA, que podem desempenhar um papel fundamental na adaptação às mudanças.
A discussão também abordou os desafios específicos de países em desenvolvimento, onde o acesso à infraestrutura digital e à internet ainda é limitado. O especialista do UN, Serge Stinckwich, destacou que “em regiões como a África, é necessário repensar modelos de implementação de IA, incluindo a utilização de infraestrutura local e o desenvolvimento de datasets em línguas locais, de modo a garantir que a tecnologia seja inclusiva e beneficie todas as comunidades”.
Por fim, o debate reflectiu sobre a dualidade do impacto da IA na humanidade. Seria a IA positiva ou negativa para a humanidade? Como afirmou Sara Migliorini, “a questão não é se a IA é ‘boa’ ou ‘má’, mas sim como a usamos. É uma decisão colectiva que exige responsabilidade, transparência e um compromisso de todos – governos, empresas e cidadãos”. Acrescentou que “a ética deve orientar o desenvolvimento e a aplicação da IA, promovendo um uso que priorize o bem-estar social, a sustentabilidade e os direitos humanos”.
Encerrando com a frase de Stéphane Monsallier, “cabe a nós todos fazer com que a IA seja positiva para a humanidade”, em última análise, o consenso foi de que o futuro da inteligência artificial depende de cada um de nós. Como sociedade, devemos assumir um papel activo na moldagem deste futuro, promovendo uma cultura de responsabilidade e ética. É necessário esse esforço conjunto para garantir que esta tecnologia seja uma força de progresso, que contribua para o desenvolvimento sustentável, a justiça social e o bem-estar global, segundo os oradores deste debate. Afinal, a inteligência artificial só será verdadeiramente benéfica se todos assumirmos a responsabilidade de conduzi-la por um caminho ético e responsável.











