Edição do dia

Sexta-feira, 24 de Maio, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva fraca
25.8 ° C
25.9 °
25.4 °
94 %
4.1kmh
40 %
Qui
26 °
Sex
26 °
Sáb
26 °
Dom
28 °
Seg
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioSociedadeUm surto que parou Macau, mas deu asas à produção artística

      Um surto que parou Macau, mas deu asas à produção artística

      Em Macau, o tempo parou. O surto pôs a cidade em suspenso e mandou quase toda a gente para casa. Os artistas estão a aproveitar este confinamento para se dedicarem à produção criativa. O PONTO FINAL falou com cinco criativos locais e todos atestam que este momento traz inspiração e, essencialmente, dá tempo para criar.

       

      Há uma faixa da sociedade que parece não se importar com o estado de ‘stand by’ em que Macau se encontra nestas últimas três semanas. O surto tem provocado inquietação, mas os artistas locais até o vêem com bons olhos. Dá-lhes mais tempo e espaço para serem criativos, dizem. O PONTO FINAL falou com Joe Tang, Tracy Choi, Fortes Pakeong Sequeira, Crystal Chan e Lawrence Lei, que concordam que este período de recolhimento pode ser inspirador.

      Este é “um período histórico único, que se reflectirá naturalmente nas minhas futuras produções artísticas”, diz Joe Tang, contando que, apesar do confinamento, tem tentado “viver todos os dias de forma a que tenham significado”. “Faço o meu melhor para recordar os sentimentos complexos deste período”, aponta o escritor.

      Joe Tang escreve romances, faz trabalho editorial e escreve para teatro. Venceu já o Prémio Literário de Macau e o Prémio de Romance de Macau. Da sua obra fazem parte romances como “Assassin”, “The Ecstasy” e o ensaio “My Point of View”.

      O escritor local diz que “estranhamente” gosta destes dias de isolamento. “De alguma forma, deu-me mais tempo para ler, pensar e escrever”, comenta. Desde o início da pandemia, lançou “Na Rua – Um livro, duas histórias sobre Macau”, juntamente com Catarina Mesquita. Além disso, Joe Tang também terminou de escrever um romance histórico, que deverá ser lançado em breve, e está agora a terminar uma outra história de ficção científica. “Embora ambos os romances não estejam directamente relacionados com a situação actual, os meus sentimentos durante estes três anos certamente que os afectaram”, refere.

      Questionado sobre a sua opinião acerca do confinamento, Joe Tang começa por assinalar que “a nossa cidade está a enfrentar desafios muito difíceis e sob enorme pressão neste momento”. Por isso, “se quisermos vencer esta batalha juntos, há algumas coisas essenciais: transparência e consistência na elaboração de políticas, flexibilidade e igualdade no julgamento científico, e compreensão mútua com confiança”.

       

      UM CONFINAMENTO QUE PERMITE PENSAR EM NOVOS PROJECTOS

       

      Tracy Choi, galardoada cineasta de Macau, também está a utilizar este tempo em suspenso para trabalhar na sua arte. Está a escrever o guião do seu próximo filme, que, adianta ao PONTO FINAL, é uma longa-metragem sobre como é crescer em Macau. A realizadora local quer começar a filmar no próximo ano.

      Em 2012, a sua curta-metragem documental “I’m Here” ganhou o Prémio do Júri no Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Macau e foi posteriormente exibida em vários festivais internacionais, incluindo o Festival Internacional de Cinema Lésbico e Feminista de Paris de 2013. Em 2013, Choi recebeu o seu diploma em Produção Cinematográfica da Academia de Artes Performativas de Hong Kong. O seu filme “Sisterhood” ganhou o Prémio de Escolha do Público de Macau no Festival Internacional de Cinema e Prémios de 2016. Os seus outros trabalhos incluem os curtas-metragens “Moonbow”, de 2010, “Sometimes Naïve”, de 2013, bem como o documentário “Farming on the Wasteland”, lançado em 2014.

      Tal como Joe Tang, Tracy Choi também vê utilidade neste confinamento. No entanto só em tempos de pré-produção. “Não posso fazer mais nada a não ser preparar e modificar o guião”, conta, ressalvando: “Se estivesse a filmar, seria um desastre”.

      Na opinião de Choi, as medidas implementadas em Macau “podiam ser melhores”, já que “há muitas pessoas que estão a sofrer com este confinamento, especialmente as pessoas que precisam de trabalhar todos os dias para ganharem o seu sustento”.

       

      OPORTUNIDADE PARA “PENSAR NA VIDA”

       

      Fortes Pakeong Sequeira é músico, designer gráfico, ilustrador e fundador da marca Sparrow Music Culture. O vocalista dos Blademark tem dedicado as últimas três semanas de confinamento ao trabalho enquanto designer gráfico. Diz que o que mais tem feito é esboços. “Muitas ideias novas continuam a surgir na minha cabeça”, confessa.

      “Esta é uma boa oportunidade para mim, enquanto artista, para experienciar esta situação extraordinária, o próprio momento, e sentir o impulso, ver o mundo a sério, sentir e encontrar a minha alma de volta também”, afirma, frisando: “Claro que isto não é bom, mas acho que é óptimo por me trazer tempo e oportunidade para pensar na vida”.

      Fortes apresentou a sua primeira exposição individual em 2005. Depois de se formar na universidade, começou a trabalhar como designer gráfico e iniciou a sua carreira como artista a tempo inteiro em 2008. Desde então, Fortes mostrou, em várias cidades do mundo, o seu talento enquanto designer. Além de Macau, passou por Pequim, Xangai, Hangzhou, Shenzhen, Taiwan, Hong Kong, Tóquio, Malásia, Singapura, Lisboa e Nova Iorque, por exemplo. Para além da arte visual, Fortes tem a sua banda de metal alternativo, onde escreve letras e compõe a música. Os Blademark têm actuado na China e já passaram também pela Austrália.

      “Há tantas coisas a acontecer neste mundo e que não as conseguimos controlar sozinhos. Para mim, isto é apenas uma parte da viagem, uma página da minha vida”, comenta Fortes sobre o vírus que pôs Macau em suspenso.

       

      “FAZER ARTE É SEMPRE A MELHOR COISA”

       

      A adaptação de Crystal Chan a este tempo de confinamento não tem sido difícil. Mesmo antes dos apelos do Governo, Crystal Chan já ficava em casa. “Como criativa, fico em casa com bastante frequência, mesmo quando não há confinamentos”, explica. É em casa que a artista local pinta e faz música. Crystal chegou até a escrever uma música sobre a situação actual. Até porque “fazer arte é sempre a melhor coisa a fazer quando as coisas parecem um pouco sombrias”.

      Crystal Chan nasceu em Macau, viveu em Taiwan e na Grécia, e formou-se no programa de artes plásticas da Escola de Artes Visuais de Nova Iorque. A sua pintura envolve normalmente figuras e paisagens sombrias, evocando emoções que ressoam com memórias. As suas obras têm sido expostas em Macau e internacionalmente, incluindo na Bienal Internacional de Mulheres Artistas de Macau, na Exposição do Festival Literário de Macau, e no fotógrafo Nick Knight’s SHOWstudio em Londres. Em 2014, foi uma das artistas convidadas para uma residência no festival “This Is My City”, em Portugal. Crystal Chan venceu a Exposição Will Barnet de 2017 no National Arts Club em Nova Iorque. Em 2018 trabalhou para o estúdio de Takashi Murakami em Nova Iorque.

      Sobre a acção do Governo perante o surto, Crystal diz concordar com a abordagem “cautelosa” das autoridades. “Mas espero que as coisas abram em breve. Precisamos ver como outros países estão a lidar com isso e ver se há espaço para ajustarmos a nossa forma de encarar a pandemia. Não podemos ficar fechados para sempre”, conclui.

       

      UM PERÍODO QUE “DEFINITIVAMENTE AJUDA” OS ARTISTAS

       

      O dramaturgo e escritor local Lawrence Lei também não se mostra incomodado com o confinamento. Para ele, este é um período que “definitivamente ajuda os artistas”. “Os artistas precisam de registar nas suas obras de arte esta epidemia do século, que reflecte a natureza humana”, diz. Os artistas, afirma, devem aproveitar este momento para “observar e contemplar o que se passa no mundo”.

      Lawrence Lei, professor na Escola de Teatro do Conservatório de Macau, escreve contos, romances e peças de teatro. É o autor de “The Eye of God”, “Project Ragged” e “The Alluring”. Recebeu, por três vezes, o Prémio Literário de Macau, e o prémio de Melhor Conto do Festival Literário de Macau por duas vezes.

      O dramaturgo apresentou, no Sands Theatre, o espectáculo “My name is Nobody”, “um dia antes dos encerramentos”, assinala. Com Macau em suspenso, Lawrence Lei tem aproveitado para ver séries, ler romances e textos dramáticos, conta.

      Questionado sobre as medidas aplicadas até ao momento pelo Governo, Lawrence Lei diz concordar e acrescenta que deviam ser ainda mais rigorosas: “Concordo com o confinamento, que penso ser a medida mais eficaz para parar a propagação da epidemia antes de termos medicamentos que sejam eficazes contra a Covid-19. No entanto, o confinamento deve ser abrangente e completo, e não deve durar demasiado tempo. Actualmente, o confinamento parece estar a ser demasiado descuidado e pouco rigoroso”.