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      Ruas de Hong Kong encheram-se de polícia para impedir recordar repressão de Tiananmen

      As ruas de Hong Kong encheram-se sábado de polícias para impedir a tradicional vigília comemorativa no 33.º aniversário da repressão na Praça de Tiananmen, quando a China enviou tanques contra manifestantes pacíficos que exigiam mudanças.

       

      A mobilização de um grande número de polícias obrigou aqueles que queriam comemorar o evento a fazê-lo em segredo ou de maneira subtil. Em 4 de Junho de 1989, o regime comunista enviou tanques e militares para reprimir manifestantes pacíficos que ocupavam, há semanas, a icónica praça central de Pequim, exigindo mudanças políticas e o fim da corrupção sistémica. O esmagamento do movimento matou mais de mil pessoas, segundo algumas estimativas.

      Em 1989, muitas pessoas na então britânica Hong Kong apoiaram o movimento de protesto desencadeado em Pequim e, durante 30 anos ininterruptos, realizaram uma vigília à luz de velas para homenagear as vítimas da sangrenta repressão e pedir mecanismos democráticos na China. Mesmo após a entrega da soberania ao país asiático, em 1997, Hong Kong conseguiu manter o evento histórico em virtude do seu estatuto de semiautonomia, que a distingue do resto da China continental.

      Mas há mais de 30 anos que as autoridades chinesas tentam apagar a memória de Tiananmen da memória colectiva, sendo que nenhum livro escolar menciona o episódio e as discussões ‘online’ sobre esse assunto são sistematicamente censuradas.

      Em Pequim, as autoridades instalaram dispositivos de reconhecimento facial nas ruas que conduzem à praça e mobilizaram também um grande número de polícias, realizando verificações de identidade exigentes. No ano 2020, as autoridades chinesas encontraram no combate à disseminação da pandemia de covid-19 uma razão para também impedir as manifestações em Hong Kong e impuseram uma lei de segurança nacional draconiana à região semiautónoma, que reprime todo o tipo de dissidência, após os gigantescos protestos pró-democracia de 2019. Desde então, as autoridades locais trabalham para apagar todos os vestígios da memória de Tiananmen.

      A polícia alertou que participar numa “reunião não autorizada” seria punível com até cinco anos de prisão, aviso que se aplica em particular ao Victoria Park, onde costumava decorrer a vigília de milhares de pessoas nos dias 4 de Junho. Uma grande parte deste parque foi fechada na sexta-feira à noite ao mesmo tempo que a polícia se espalhava pelos arredores.

      Um ex-líder da Aliança de Hong Kong, a associação que organizava as vigílias, foi cercado por polícias enquanto passeava pelo bairro com um ramo de rosas vermelhas e brancas na mão, tendo a sua mala sido completamente revistada, conta a agência de notícias francesa AFP.

      Segundo a mesma fonte, um homem vestido de preto e com um crisântemo na mão também foi revistado e afirmou depois que a polícia lhe ordenou que não fizesse nada que incitasse as pessoas a reunirem-se. “As pessoas passam por aqui a caminho do trabalho, eu simplesmente ando com um crisântemo branco”, referiu.

      No bairro comercial de Causeway Bay, que faz fronteira com o Victoria Park, um artista de rua que tinha esculpido uma batata em forma de vela foi preso na sexta-feira por mais de uma dezena de polícias. “O Governo tem muito medo de uma possível manifestação”, disse Dorothy, uma mulher de 32 anos que vive em Hong Kong, acrescentando que o fim das vigílias é “uma grande perda para a sociedade”. Uma outra mulher residente em Hong Kong adiantou que acendeu uma vela em casa e colocou uma réplica da ‘Deusa da Democracia’, a estátua que se tornou símbolo do movimento Tiananmen, no peitoril da janela.

      As vigílias já tinham sido proibidas em 2020 e 2021 em nome do combate à covid-19, mas, em setembro passado, a Aliança de Hong Kong foi dissolvida e o Museu 4 de Junho foi desmantelado, enquanto os seus responsáveis eram presos.

      Vários consulados ocidentais em Hong Kong publicaram nas redes sociais mensagens relacionadas com Tiananmen, apesar de, como confirmaram responsáveis pela delegação da União Europeia, as autoridades chinesas terem exigido que se abstivessem de fazê-lo.

      No Twitter, que está bloqueado na China, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, prestou homenagem aos “bravos manifestantes” que “exigiram pacificamente a democracia na Praça da Paz Celestial”, há 33 anos. “Apesar da remoção de memoriais e tentativas de apagar a história, honramos a sua memória promovendo o respeito pelos direitos humanos onde quer que sejam ameaçados”, escreveu. “A memória colectiva de 4 de Junho em Hong Kong é sistematicamente apagada”, disse o Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, garantindo, no entanto, que “medidas tão grosseiras e irracionais não podem apagar a memória do povo”.

      Entretanto, a associação das “Mães de Tiananmen” apelou, mais uma vez este ano, para que sejam esclarecidos os factos do que aconteceu na noite de 3 para 4 de Junho de 1989, já que o número de mortos causado pela repressão militar ainda é desconhecido e varia entre centenas e milhares de pessoas, consoante a fonte.

      As autoridades e a imprensa oficial permaneceram em silêncio durante mais um ano após a tragédia que chocou o mundo e continuam, ainda hoje, sem dar explicações ou garantir aos familiares – que vivem sob vigilância, especialmente durante as épocas de aniversário do acontecimento – o direito de lembrar as vítimas.

      Os porta-vozes do Governo chinês nunca se referiram ao massacre, exceto no 30.º aniversário, quando o então porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang, referiu que, naqueles dias de “turbulência política”, o PCC (Partido Comunista Chinês) tinha chegado a uma conclusão: “O enorme sucesso económico que o país alcançou mostra que o caminho de desenvolvimento escolhido foi o certo”. Lusa

       

       

       

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      Redacção do Ponto Final Macau