Os recentes desenvolvimentos nas relações sino-cubanas indicam que ambos os países têm reforçado as suas relações bilaterais logo após a destituição do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e também imediatamente após a decisão dos EUA de interromper o envio de petróleo da Venezuela para Cuba, cuja economia e sociedade foram profundamente afetadas pela excessiva dependência da Venezuela. O desenvolvimento contínuo das relações mais estreitas entre Cuba e a China mostra que, enquanto Cuba procura o apoio económico e político da China, Pequim considera Havana como o seu irmão socialista, cujas necessidades económicas e meios de subsistência devem ser imediatamente atendidos.
Após a destituição do presidente venezuelano Maduro pelos militares norte-americanos, a 3 de janeiro, Washington interrompeu a exportação de petróleo da Venezuela para Cuba, tentando forçar o regime socialista a implementar reformas económicas e políticas. O impacto imediato em Cuba é o comprometimento dos meios de subsistência de dez milhões de cidadãos, muitos dos quais foram afectados pela escassez de energia, combustível e electricidade (CNN, 18 de Fevereiro de 2026). O turismo em Cuba também foi prejudicado. O Reino Unido e o Canadá alertaram os seus cidadãos para evitarem viagens desnecessárias a Cuba. A economia centralizada de Cuba estava fortemente dependente dos subsídios da antiga União Soviética e do antigo governo venezuelano, sob a liderança de Hugo Chávez e, mais tarde, de Nicolás Maduro. Os cortes diários de energia eléctrica provocaram uma crise de subsistência e de governação em Cuba, cujo presidente, Miguel Díaz-Canel, apelou aos cidadãos para que adoptassem uma mentalidade de guerra de forma a resistir às dificuldades de forma “criativa”. No entanto, a realidade é que muitas pessoas comuns se queixam das suas necessidades básicas e das dificuldades de levar legumes e outros alimentos do campo para as cidades.
A 29 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, emitiu uma ordem executiva que não só declarou o estado de emergência nacional devido a uma alegada “ameaça” cubana à segurança nacional americana, como também impôs tarifas a países como a Venezuela e o México, que vendem ou fornecem petróleo a Cuba.
Antes da emissão da ordem executiva, vários petroleiros venezuelanos, que se dirigiam para Cuba, foram apreendidos e intercetados pelas forças norte-americanas no Mar das Caraíbas (Peoples Dispatch, 23 de janeiro de 2026). Tais ações enviaram claramente uma mensagem de aviso ao governo cubano.
A 30 de janeiro, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, declarou aos jornalistas, em conferência de imprensa, que a China “se opõe resolutamente a quaisquer ações e práticas desumanas que privem o povo cubano dos seus direitos à subsistência e ao desenvolvimento” (Global Times, 30 de janeiro de 2026). Os seus comentários foram feitos em resposta à ordem executiva dos EUA que ameaçava impor tarifas aos países que vendessem petróleo a Cuba.
Para agravar o problema do bloqueio económico dos EUA, a petrolífera estatal mexicana Pemex “recuou” nos seus planos de exportar petróleo para Cuba em janeiro de 2026. Embora a presidente mexicana Claudia Sheinbaum tenha negado que a decisão da Pemex tenha sido uma cedência à pressão dos EUA e argumentando mesmo que a decisão foi “soberana”, a ação da empresa mexicana, por coincidência, agravou a crise energética de Cuba.
A 10 de fevereiro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que não havia relatos de cidadãos chineses retidos em Cuba devido à falta de combustível das companhias aéreas e à suspensão dos seus voos após o bloqueio dos EUA aos carregamentos de petróleo da Venezuela para Cuba (Reuters, 10 de fevereiro de 2026).
Lin Jian, outro porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, disse que a China apoia firmemente Cuba na protecção da sua soberania e segurança nacionais e opõe-se a qualquer interferência estrangeira. Acrescentou que a China ajudaria o lado cubano “da melhor forma possível” (Reuters, 10 de fevereiro de 2026).
Em resposta às sanções dos EUA contra Cuba, a China anunciou, em janeiro e fevereiro de 2026, o envio de 90.000 toneladas de arroz para Cuba e a prestação de assistência financeira de emergência. O primeiro lote de arroz chegou a Cuba a 20 de janeiro de 2026. Claramente, a China veio em socorro de Cuba no meio da luta geopolítica entre Washington e Havana. Após a chegada do arroz chinês a Cuba, no final de janeiro, o vice-primeiro-ministro cubano, Oscar Perez-Oliva, afirmou: “Agradecemos profundamente e estamos gratos por esta ajuda num momento difícil, quando os níveis de agressividade estão a aumentar e o bloqueio económico, comercial e financeiro dos EUA contra o povo cubano está a intensificar-se de uma forma sem precedentes” (Peoples Dispatch, 23 de janeiro de 2026). Ao mesmo tempo, o embaixador chinês em Cuba, Hua Xin, observou que a ajuda chinesa representava os “profundos laços de amizade especial” entre a China e Cuba – um comentário que aponta para a persistente ideologia da fraternidade socialista.
De facto, o lado chinês enviou seis remessas de alimentos por via aérea para Cuba antes da última semana de janeiro de 2026. Em 2026, a RPC forneceu a Cuba lâmpadas solares, materiais para telhados e colchões, enquanto o presidente Xi Jinping aprovou uma ajuda financeira no valor de 80 milhões de dólares.
Tanto a China como a Rússia aparentemente previram as sanções americanas mais duras e iminentes contra Cuba antes da emissão da ordem executiva de Trump. No dia 21 de janeiro, o ministro do Interior russo, Vladimir Alexandrovich Kolokolssev, deslocou-se a Havana para conversar com o presidente Díaz-Canel e com uma delegação russa. Se Cuba se situa no quintal dos EUA, tanto a Rússia como a China estão ansiosas por apoiar Cuba económica e praticamente – uma ilustração de como as lutas geopolíticas se têm desenrolado na América Latina.
No início de fevereiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, e o membro do Comité Permanente do Politburo, Wang Huning, realizaram reuniões separadas com Bruno Rodríguez Parrilla, enviado especial e ministro dos Negócios Estrangeiros do governo cubano e do Partido Comunista Cubano (China Daily, 6 de fevereiro de 2026). Wang Yi afirmou que Cuba já tinha conquistado um amplo respeito da comunidade internacional devido ao seu espírito de resistência à política de poder e que o princípio da política externa da China era defender a equidade e a justiça, prestando apoio e assistência a Cuba. Acrescentou ainda que a China atribui imensa importância ao reforço da solidariedade do Sul Global e à salvaguarda da paz regional e mundial. De facto, Cuba é um importante país socialista na visão da China, pois foi o primeiro país do Hemisfério Ocidental a estabelecer relações diplomáticas com a República Popular da China em setembro de 1960. Por outro lado, a China continua a ser o segundo maior parceiro comercial de Cuba, que, por sua vez, é o quinto maior parceiro comercial chinês na região das Caraíbas.
A visita de Bruno Rodríguez Parrilla a Pequim, no início de Fevereiro, foi política e diplomaticamente significativa. Isto aconteceu apenas uma semana após a emissão da ordem executiva dos EUA contra Cuba. Parrilla expressou a sua gratidão pelo apoio da China a Cuba na oposição ao bloqueio e às sanções externas, bem como pela exportação de arroz e pela ajuda financeira de Pequim a Havana.
A forte ligação socialista entre a China e Cuba pôde ser constatada nas declarações do Presidente Xi Jinping em Setembro de 2025, quando ambos os países celebraram o 65º aniversário das suas relações diplomáticas. O Presidente Xi enfatizou que a China atribui imensa importância às suas relações com Cuba historicamente. Além disso, para Xi, ambos os países devem fortalecer a amizade tradicional, aumentar a confiança política mútua e impulsionar todos os aspetos da cooperação abrangente e estratégica (Ming Pao, 28 de setembro de 2025). Utilizou também o termo “entidade de destino comum sino-cubana” para se referir às relações bilaterais entre os dois países – um termo que reflete a forte ligação sob a ideologia da fraternidade socialista.
As fortes relações ideológicas e históricas puderam também ser detectadas em Dezembro de 2024, quando Cuba foi afectada por um apagão que interrompeu o funcionamento das escolas e dos locais de trabalho. Em resposta ao apagão, a China forneceu infraestruturas elétricas a Cuba no início de 2025. Em setembro de 2025, ambos os países assinaram um memorando de entendimento sobre a sua cooperação no desenvolvimento de infraestruturas básicas, troca e partilha de informações, normalização de medições e controlo de qualidade das instalações. No final de outubro de 2025, quando Cuba foi atingida pelo furacão Melissa, que danificou muitas casas e plantações, a China prestou ajuda imediata, incluindo alimentos, lâmpadas solares, mobiliário e materiais de construção por via aérea e marítima (China News Agency in Hong Kong, 17 de novembro de 2026).
Em termos de rivalidade geopolítica, os EUA estavam alegadamente preocupados com a tentativa da China de instalar quatro estações de recolha de informações em Cuba já em 2023 (TVBS News, 9 de Janeiro de 2026). Além disso, os EUA estavam alarmados com a ação de empresas chinesas, como a Huawei, para construir redes de telecomunicações em Cuba, que terão sido utilizadas pelas autoridades cubanas para interromper as comunicações entre alguns manifestantes e dissidentes cubanos internamente (TVBS News, 9 de janeiro de 2026). Acima de tudo, Cuba está situada a menos de 160 quilómetros a sul da Florida e está bem posicionada para realizar vigilância sobre instalações militares dos EUA (CSIS, 6 de dezembro de 2024). Assim, as operações chinesas em Cuba têm sido observadas pelos EUA de forma alarmante.
Por outro lado, embora a China tenha prestado ajuda a Cuba, a dívida desta última para com aquela é enorme e não pode ser facilmente paga (RFA, 30 de outubro de 2024). Devido à instabilidade da situação financeira cubana, o aumento da dívida nacional representa um problema crónico de pagamento à China. A natureza “insondável” da dívida cubana pode também significar que Cuba terá provavelmente de experimentar reformas de mercado ao estilo chinês para que a sua economia melhore. Assim, a ajuda económica chinesa a Cuba deve idealmente ser acompanhada de conselhos construtivos da China às autoridades cubanas sobre a forma como a economia cubana, excessivamente centralizada, pode ser reformada de uma forma mais eficiente, produtiva e eficaz. De facto, a Declaração Conjunta assinada por Cuba e pela China em Setembro de 2025 prevê a cooperação nas áreas económica, social e política, o que implica que Havana pode procurar a ajuda de Pequim para reformar a sua economia excessivamente centralizada.
No entanto, a vontade política de reformar a economia cubana deriva, em última análise, da sua liderança. Há relatos de que o Presidente Díaz-Canel já acelerou as reformas de mercado desde 2018, legalizando as pequenas e médias empresas e impulsionando o investimento estrangeiro. Ainda assim, a grande burocracia, as restrições financeiras e as sanções dos EUA tornaram-se os obstáculos às reformas económicas de Cuba. O mais importante é que os EUA estão empenhados em mudar o regime cubano. O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, um cubano-americano que imigrou de Cuba para Miami em 1971 e que continua interessado na política cubana, terá mantido um diálogo secreto com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos, neto do líder cubano Raúl Castro (Axio, 18 de fevereiro de 2026). O jovem Castro é visto como mais virado para os negócios do que os outros membros da família Castro. Resta saber como irá evoluir a liderança cubana. De qualquer modo, a mudança de regime é um objectivo geopolítico fundamental dos EUA na sua política externa para a América Latina, tal como o destino de Maduro na Venezuela. Maduro foi detido pelos militares norte-americanos e morto por seguranças cubanos durante o ataque norte-americano de 3 de janeiro.
Dadas as circunstâncias em que Cuba se encontra sob a esfera de influência geopolítica e militar dos EUA, e considerando a influência económica chinesa sobre Cuba e as relações diplomáticas de Moscovo com Havana, a política de sanções americanas contra Cuba conduziu naturalmente a respostas diplomáticas imediatas da China e da Rússia. A disputa entre os EUA, a China e a Rússia pela influência político-económica sobre Cuba ainda tem de ser observada.
Em conclusão, o recente aumento das sanções americanas contra Cuba já provocou reacções imediatas por parte da China e da Rússia, tanto mais que Pequim prontamente forneceu ajuda financeira e logística a Havana. A China e Cuba continuam a ser irmãos socialistas amigáveis e, como tal, o apoio incondicional da primeira à segunda é natural e compreensível. O desafio para Cuba é acelerar e aprofundar as suas reformas de mercado seguindo o caminho chinês, ao mesmo tempo que se torna mais auto-suficiente economicamente, em vez de depender excessivamente das potências regionais e globais, sejam elas a antiga União Soviética e a Venezuela no passado, ou a China e a Rússia no presente. Para proteger e promover os seus interesses geopolíticos e militares, os EUA procuram naturalmente uma mudança de regime em Cuba – uma política externa americana consistente que, no entanto, mina a segurança nacional do regime cubano. Em resposta, Cuba deve procurar mais apoio político-económico e diplomático da China e da Rússia. Os tempos da invasão da Baía dos Porcos em Abril de 1961, quando os EUA não conseguiram derrubar o regime de Fidel Castro, ficaram para trás. Actualmente, os EUA procuram promover a mudança de regime através de sanções económicas muito mais severas do que nunca. A política de procura de mudança de regime em Cuba por parte dos EUA e a política reativa de ajuda ideológico-económica de Pequim a Havana sinalizam a intensificação da rivalidade entre os EUA e a China em relação a Cuba – outro campo de batalha após o colapso do regime de Maduro na Venezuela.











