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      InícioOpiniãoEfemérides camonianas - III O soneto sobre o dia do nascimento...

      Efemérides camonianas – III O soneto sobre o dia do nascimento de Camões

      Nesta terceira entrega da série ‘Efemérides camonianas’, ainda dedicada à data de nascimento de Camões, passaremos à análise do soneto «O dia em que eu nasci morra e pereça».

      Camões frequentemente combinava os seus versos com outros tomados de empréstimo e traduzidos, cultivando a prática da imitação literária. Estas traduções eram facilmente reconhecíveis como tal pelos leitores/ouvintes.

      A maldição do dia do próprio nascimento tinha raízes bíblicas, e conheceu alguma voga nas literaturas do Renascimento. Camões iniciou esta composição por uma glosa de dois textos proféticos do Velho Testamento, somando-lhes os seus versos de mortificação e de autocomiseração pessoal, num estilo e tom que lhe são frequentes.

      Na tabela seguinte transcreve-se o texto tal como se apresenta no Cancioneiro de Luís Franco, com vários castelhanismos, salientando-se a negrito o que no soneto é original, e identificando os trechos traduzidos das imprecações do Livro de Job e do Livro de Jeremias, segundo a Vulgata Latina:

       

      Ho dia em que eu nacy moura & pereça Job 3:3: pereat dies in qua natus sum
      Jer 20:14: maledicta dies in qua natus sum
      não ho queira jamais o tempo dar Job 3:6: non computetur in diebus anni, nec numeretur in mensibus
      não torne mais ao mundo & se tornar
      eclipsse nesse paso o Sol padeça
      A lux lhe falte, o çeo se lh‘escureça Job 3.5: obscurent eum tenebræ et umbra mortis occupet eum caligo et involvatur amaritudine. 6. noctem illam tenebrosus turbo possideat
      mostre o mundo sinais de se acabar
      nação-lhe monstros, sangue chova o ar
      a may ao propio filho não conheça Jer 20:17: qui non me interfecit a vulva ut fieret mihi mater mea sepulchrum et vulva ejus conceptus æternus
      As pessoas pasmadas de ygnorantes
      as lagrimas no Rostro, a cor perdida
      cuidem que o mundo yaá se destrujo
      O gente temerosa. Não te espantes
      q’este dia deitou ao mundo a Vida
      mais des[a]benturada que se Vyo

       

      Camões evoca um eclipse e em seguida a sua consequência, o céu que se escurece. Em Job 3.5 esse negrume não é causado por um eclipse.

      A palavra «eclipse» vem do grego ἔκλειψις, através do latim eclipsis. Significa «ausência» do astro. Encontra-se em algumas traduções modernas de Job 3.5 como interpretação imprópria do grego γνόφος, «sombra» ou «escuridão», e do latim amaritudine, «amargura», «pesar», um termo com um sentido mais moral do que astral. Mas apesar destas traduções deficientes, em nenhum daqueles dois livros, tanto na Bíblia grega como na Vulgata latina, que era a que Camões usava, se encontra realmente a palavra «eclipse».

      Ainda que esteja acompanhado por alguns portentos da tradição antiga, o eclipse deste soneto faz parte dos componentes originais aduzidos na esconjuração de Camões, sendo por isso potencialmente autobiográfico.

      O autor de Jeremias focou-se em amaldiçoar o próprio parto, no qual desejaria ter perecido. É esse o sentido de «que fosse a minha mãe a minha sepultura», dado que o filho nasceria morto. Assim também no v. 8 do soneto, a mãe não viria a conhecer o filho dela, na tradução livre desta passagem bíblica por Camões. Esta leitura com base em Jeremias 20:17 é a inversa daquela que Mário Saa lhe atribuiu em 1978:35-38, ou seja, que do parto resultaria a morte da parturiente, ao basear-se não no referente bíblico e sim em outra passagem de Camões que ele invoca: «Quando vim da materna sepultura / De novo ao mundo», Camões, Rimas 1598:46r.

      O soneto dificilmente poderá ser tido por um exercício inconsequente de virtuosismo poético, ou uma artificiosa glosa bíblica composta em serenos momentos de ócio e de deleitoso desenfadamento. Antes fulgura de emoção, e aponta para a circunstância real de uma coincidência do fenómeno celeste do eclipse com um dos dias de aniversário de Camões. Sucedido o facto, o Poeta procurou na Bíblia as passagens que lhe pudessem servir de mote.

      Quanto à identificação da data do nascimento nele aludida, restarão dúvidas até ao aparecimento de documentação concludente: como vimos anteriormente, dependendo de como foi compilado o Cancioneiro de Luís Franco, esse dia seria 14 de fevereiro, talvez do ano de 1517, ou 25 de fevereiro de 1525, data que parece ser a mais plausível.

       

      Felipe de Saavedra

      Coordenador da Rede Camões na Ásia & África