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      “A ideia de estarmos sempre em movimento é algo que nos agrada enquanto músicos e pessoas”

      Os Capitão Fausto actuam hoje, às 20h, no MGM Theatre, acompanhados pelo músico cabo-verdiano Miroca Paris e pelo taiwanês David Huang. Em entrevista ao PONTO FINAL, a banda portuguesa mostrou-se entusiasmada com esta estreia em Macau. Tomás Wallenstein, o vocalista, confessou que gostava de ter mais tempo para explorar a cidade e a sua música e deixou no ar a possibilidade de um regresso.

      Os Capitão Fausto – Tomás Wallenstein, Domingos Coimbra, Manuel Palha e Salvador Seabra – vão actuar hoje, pela primeira vez, em Macau. Neste espectáculo, a banda lisboeta vai integrar também o músico cabo-verdiano Miroca Paris. David Huang, músico de Taiwan, vai juntar-se depois ao quinteto para fechar o concerto. Este espectáculo sino-português começa às 20h, no MGM Theatre. Em entrevista ao PONTO FINAL, os Capitão Fausto assumem que estão curiosos em relação à reacção do público de Macau, mas garantem que o concerto desta noite irá além da eventual barreira linguística. Tomás Wallenstein admite que gostava de ter mais tempo em Macau para poder descobrir a cena musical desta zona do globo. “Estas oportunidades que temos, de vir a sítios novos, podem-nos fazer mudar muito como músicos”, indica, acrescentando: “Mesmo antes de começarmos a ensaiar, já estava a sugerir voltarmos cá”. Sobre a evolução musical ao longo dos cinco álbuns de estúdio da banda, Domingos Coimbra destaca a importância da não repetição e de desbravar novos caminhos. Na entrevista, Tomás Wallenstein explica que o último disco, “Subida Infinita”, serve de retrospectiva dos últimos anos, em que os Capitão Fausto enfrentaram vários desafios, entre eles, a saída de Francisco Ferreira. As músicas aludem ao sentimento de reacção à perda e Tomás Wallenstein desconstrói: “Nós somos um organismo que vai tentando sobreviver e avançar na sua subida, ainda que as coisas à nossa volta possam ir mudando muito drasticamente”.

       

      É a primeira vez que vêem a Macau?

      Tomás Wallenstein – É a primeira vez.

      Miroca Paris – Eu já cá tinha vindo acompanhar outros artistas. Esta é a primeira vez que vou cantar um tema em Macau.

      E quais é que são as vossas impressões da cidade?

       

      Domingos Coimbra – Nós chegámos à noite [na segunda-feira], fomos jantar e passear na Taipa. Ontem [terça-feira], fomos a Hong Kong, voltámos e passámos aqui algum tempo em Macau. A primeira impressão que tivemos foi uma mistura curiosa de São Paulo com Nova Iorque, com calçada portuguesa, com tudo em português…

       

      Tomás Wallenstein – Conhecemos logo imensa gente. Tem sido muito giro. Há muita coisa a descobrir ainda.

      Como é que surge esta oportunidade de virem tocar a Macau?

      Tomás Wallenstein – Foi um desafio no âmbito desta ideia de um concerto que agrega artistas de vários sítios aqui no MGM. Foi, evidentemente, uma ideia que nos agradou. Nós tentámos perceber quando é que poderia haver essa possibilidade e quando é que o Miroca tinha disponibilidade para vir connosco. Nós já fizemos um concerto juntos há uns anos e foi também um desafio que lhe lançámos. O David Huang ainda não conhecíamos.

       

      Miroca, qual é que será o seu papel neste espectáculo?

      Miroca Paris – Eu caí aqui de paraquedas, mas aproveito a oportunidade para apresentar um tema que me tem perseguido ao longo da minha vida, no bom sentido, e trago a estes rapazes um pouquinho mais das minhas ilhas, Cabo Verde. Vamos cantar em crioulo, vamos tocar música das ilhas. Macau não é apenas uma janela de oportunidades, é uma porta. Graças a Deus estes rapazes estão aqui para poderem mostrar o seu valor também fora do país. A diversidade é a riqueza.

      – Esta é, então, a primeira vez que os Capitão Fausto tocam na Ásia. Que expectativas é que têm para o concerto de sexta-feira? Possivelmente grande parte das pessoas no público não perceberá português…

       

      Domingos Coimbra – Estamos curiosos para ver como é que as pessoas vão reagir. Nós estamos muito contentes, vamos fazer aquilo que fazemos sempre. Já sabemos que vai haver alguns portugueses a verem-nos noutro sítio do mundo, o que será divertido.

      A questão da língua não é um problema, então?

      Tomás Wallenstein – O concerto irá além da barreira linguística. Nós trabalhamos com a universalidade da linguagem da música. O espectáculo é construído de forma a elaborar uma narrativa e eu gosto de acreditar que, mesmo quem não percebe o que se está a cantar, poderá apreciar e divertir-se.

       

      Domingos Coimbra – Também já tivemos várias experiências em festivais com artistas que não cantam em inglês nem em português e há sempre um contacto que se consegue fazer. Não deixa de ser um desafio interessante tentar, quando existe uma barreira linguística, que todo o outro lado consiga ultrapassar essa barreira para existir uma ligação criada através da música.

      Vão actuar também com o músico de Taiwan David Huang. Já conheciam o trabalho dele? Como é que surgiu esta parceria?

      Tomás Wallenstein – Não, foi-nos apresentado no âmbito deste desafio e nós fomos descobrir. Ele é de outra geração, tem mais experiência do que nós. O desafio foi também montar o espectáculo em separado, cada um no seu sítio, e cruzá-lo quando chegássemos aqui, partilhando algumas músicas.

      Domingos Coimbra – Nós vamos fazer uma primeira parte do espectáculo em que o Miroca toca connosco, depois vamos tocar uma canção com o Miroca a cantar; depois o David Huang junta-se a nós e tocamos uma música nossa e uma música dele, e depois segue o espectáculo do David Huang. Há uma junção de vários tipos de espectáculo e de música. Nenhum dos lados sabe o resultado final e isso faz parte do interesse.

       

      Foi fácil coordenar com o David Huang à distância?

      Tomás Wallenstein – Foi fácil. Tivemos ajuda da organização.

      Domingos Coimbra – Há também uma parte de imediatez. Há uma parte de intuição musical e que deixámos para acontecer aqui. Aprendemos o que tínhamos a aprender de forma suave para que esse diálogo através da música possa acontecer.

      Da vossa parte, o que é que vamos ouvir no concerto? Mais “Subida Infinita”, ou um pouco de toda a discografia?

      Domingos Coimbra – Há mais ênfase nos últimos álbuns, “Subida Infinita” e “A Invenção do Dia Claro”. Acho que só não tocamos canções do “Pesar o Sol”.

      Tomás Wallenstein – Será uma representação fiel daquilo que têm sido os nossos concertos, que dão sempre um bocadinho mais de ênfase aos trabalhos mais recentes, tentando passar também por todo o resto do trabalho que fizemos. Aqui será mais sintético.

      Miroca Paris – Muita música boa ficou fora [risos]. Têm de voltar cá…

      E como é que é preparar um espectáculo do outro lado do mundo? Tem mais dificuldade?

      Manuel Palha – Tem, mas correu bem. A nossa equipa está em constante comunicação com a equipa de cá em termos técnicos. Mas, quando há boa vontade e profissionalismo, a coisa vai-se fazendo. É um trabalho contínuo.

       

      Qual é que é a maior dificuldade?

      Salvador Seabra – Nós vamos ter aqui dois dias de ensaios, tanto com o Miroca como com o David Huang, e os detalhes e as coisas mais complexas guardámos para vermos cá com eles.

      Tomás Wallenstein – Na componente prática do espectáculo, a organização também nos facilitou muito a vida para não termos de trazer toneladas de instrumentos.

      Domingos Coimbra – Normalmente, nos nossos concertos em Portugal – e a banda tem esse historial -, andamos com teclados analógicos atrás, levamos o estúdio às costas, os nossos próprios microfones, as mesas de mistura, etc. Num concerto do outro lado do mundo naturalmente não conseguimos levar isso tudo às costas, então parte da preparação do espectáculo foi articular o que há e o que não há, o que é que levamos e o que é que não levamos, como é que adaptamos o nosso espectáculo, os instrumentos e a música. Isso também é interessante.

      Olhando agora para o vosso percurso e para a música que fazem, ouvindo a vossa discografia nota-se uma evolução, ainda que haja sempre pontos em comum. Isso é pensado de álbum para álbum ou acontece naturalmente?

      Tomás Wallenstein – Acontece naturalmente. Tem sido um processo cíclico. Preparamos os discos, gravamos, depois vamos tocá-los ao vivo, e às tantas começa a surgir a vontade de fazer coisas novas. Este disco não foi excepção. A meio do processo de estarmos a compor, começa-se a descobrir o que é que vai ser o disco a seguir. Não é logo evidente, precisamos de estar meio emaranhados.

       

      Domingos Coimbra – Nunca há uma decisão premeditada do caminho a seguir.

      Tomás Wallenstein – Às vezes até há tentativas.

      Manuel Palha – Às vezes há pequenas ideias, tipo: “Era mesmo giro agora fazermos de forma A em vez de fazermos de forma B”. Mas, só a meio é que começamos a perceber a que é que vai soar no fim, para onde é que nos estamos a levar. É uma coisa que se vai mexendo, vamos trocando ideias…

      Domingos Coimbra – As primeiras músicas costumam demorar um bocadinho mais a tomarem forma, e depois as últimas são um bocado mais rápidas porque já temos uma ideia.

      Tomás Wallenstein – Elas alimentam-se umas às outras.

      Essa transformação vai, então, continuar no futuro, ou consideram que chegaram ao vosso pico de maturação?

      Tomás Wallenstein – Vamos ter de descobrir no próximo disco.

      Domingos Coimbra – Mas, em teoria, a ideia de estarmos sempre em movimento é algo que nos agrada enquanto músicos e pessoas. A ideia de que há sempre coisas que podemos descobrir na forma como trabalhamos e na música que fazemos, e eu acredito que isso ainda é verdade.

      Tomás Wallenstein – É uma maneira boa de estarmos na vida, ter a humildade de saber que temos mais para aprender, para melhorar e para descobrir. Se nos pusermos sempre na posição de aluno e não de professor, estamos constantemente a evoluir. Só se chegarmos a um estado de saturação tal que nos torne repetitivos…

      Domingos Coimbra – O músico acaba a repetir muitos processos, quer seja nos concertos, ensaios ou gravação, mas continua a ser muito importante para nós que a criação não seja uma coisa repetitiva. Estamos sempre à procura de algo novo.

      Este último álbum, “Subida Infinita”, alude àquela ideia do mito de Sísifo e algumas músicas tocam naquele sentimento de reacção à perda. Esta interpretação é correcta? Porquê este conceito para este álbum?

      Tomás Wallenstein – Sim, é correcta. Os últimos anos foram um bocado atípicos para toda a gente, com confinamentos e mudanças muito drásticas na vida das pessoas. Nós não fomos excepção. Houve um evento muito disruptivo, que foi a saída do Francisco Ferreira [músico que deixou a banda, mas que ainda participou neste último disco]. Apesar de agora termos descoberto que havia uma outra vida para a banda, durante muito tempo foi uma grande incógnita. Esse é um tema que fica no meio de nós e que nos vai condicionar os últimos anos. É um disco que acaba por ser sobre nós, é uma imagem da maneira como nós vemos o mundo à nossa volta. Passou-se muita coisa, houve filhos a nascer, pessoas a morrer. Tudo isso tinha de estar porque fez parte das nossas vidas. Em relação ao mito de Sísifo, não há uma referência directa, mas existe essa ideia. Nós somos um organismo que vai tentando sobreviver e avançar na sua subida, ainda que as coisas à nossa volta possam ir mudando muito drasticamente. É uma descoberta de como é que nós nos conseguimos aguentar como um organismo só e ir prosseguindo as nossas ambições.

       

      Conhecem algo da música asiática? Alguma coisa que vos possa inspirar para futuros trabalhos?

      Domingos Coimbra – Eu gosto imenso de Yellow Magic Orchestra. Gosto muito de Sakamoto. Chega-nos mais música japonesa. Nobuo Uematsu, adoro.

      Manuel Palha – Casiopea.

      Tomás Wallenstein – O mercado japonês chega-nos muito mais por uma questão de estrutura.

      Miroca Paris – A música chinesa está um pouco englobada na ‘world music’. Eu conheço alguns artistas e também música da Malásia. Eu gravei alguns temas na Malásia, fiz lá a capa do meu disco. Vocês têm de ir à Malásia. É um lugar onde eu me descobri.

      Tomás Wallenstein – Estas oportunidades que temos, de vir a sítios novos, podem-nos fazer mudar muito como músicos. Já estou com pena do pouco tempo que vamos passar aqui. Idealmente, nós passaríamos mais tempo para podermos descobrir a cena musical, isso demora tempo. Mesmo antes de começarmos a ensaiar, já estava a sugerir voltarmos cá.

      Miroca Paris – Ele já disse isto umas três vezes, já ficou claro [risos].