Edição do dia

Quarta-feira, 19 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
céu pouco nublado
29 ° C
29.9 °
28.9 °
94 %
3.6kmh
20 %
Ter
29 °
Qua
30 °
Qui
30 °
Sex
30 °
Sáb
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioOpiniãoEfemérides camonianas – II Ainda a data de nascimento de Camões

      Efemérides camonianas – II Ainda a data de nascimento de Camões

      FOTOGRAFIA GONÇALO LOBO PINHEIRO

      No artigo anterior desta série ‘Efemérides camonianas’, publicado a 2 de abril no magazine cultural “Parágrafo” do jornal Ponto Final, concluímos que Camões aludia a um eclipse do sol no soneto «O dia em que eu nasci morra e pereça», cuja ocorrência ele teria testemunhado num dos seus dias de aniversário.

      Este eclipse não pode ser o indicado pela Universidade de Coimbra, o do dia 23 de janeiro de 1525, por duas razões: um Camões lactente não teria memória dessa ocorrência; e dificilmente ela lhe poderia ter sido transmitida pela memória familiar, dado que nesta data o fenómeno não foi percetível como eclipse total em nenhuma parte do território português. Quanto a eclipses visíveis apenas como parciais, o que seria o caso deste, nos locais onde Camões viveu houve mais de uma dezena desse tipo, aos quais faltaria o impacto dramático que o Poeta confere ao eclipse do soneto, pois não chegariam a transformar o dia em noite. Com alguma nebulosidade atmosférica, um eclipse parcial pode mesmo passar despercebido.

      Mas existem dois eclipses a que Camões assistiu, com potencial para terem inspirado o soneto: um em Goa, que foi visto como quase total a 14 de fevereiro de 1561, e um em Lisboa, este total, a 25 de fevereiro de 1579. O último parece ser o candidato perfeito: neste caso o soneto teria sido escrito quase à beira da morte, e o tom desencantado dos versos ajusta-se na perfeição ao estado de espírito de Camões, mormente após o desastre marroquino que, como escreveu Severim de Faria, o mergulhou em profunda depressão (Camões, Epistolário Magno I, ed. de Felipe de Saavedra, 2022:204), sem esquecer as aflições da miséria e da doença de que padecia. Para 1561 só uma possível frustração amorosa poderia ser a causa de tamanho desgosto de si, um pouco forçada talvez, pois aquela foi uma época de prosperidade e plenitude para Camões, então sob a proteção do seu amigo D. Constantino de Bragança, vice-rei da Índia de 1558 a 1561.

      Mas a data de 25 de fevereiro de 1579 depara-se com uma objeção importante: o lugar que «O dia nasci morra e pereça» ocupa no códice que o conservou, o Cancioneiro de Luís Franco. No frontispício deste Cancioneiro informa-se que ele foi «começado na India a 15 de janeiro de 1557 e acabado em Lisboa em 1589», com uma foliação de 296 unidades, figurando o soneto no fólio 132r.

      Ora Luís Franco iniciou no fólio 203r em diante a transcrição de Os Lusíadas, a partir de uma versão que Camões lhe confiara diretamente, e que refletia um dos estádios do texto anteriores ao da versão impressa.

      Que o texto do Cancioneiro não tinha ainda passado pelo crivo da censura religiosa comprova-se, por exemplo, na 8ª estância do Canto I, dirigida a el-rei D. Sebastião. Neste códice lê-se: «Vós ô sagrado Rei a cujo Imperio». A censura forçou a mudança para «Vos poderoso Rei, cujo alto Imperio». A versão inicial de Camões comprova que ele estava em sintonia com as pretensões do rei à sacralidade imperial, que por herança do Império romano ostentara já o avô Carlos I (sacra majestade). Ao aproximar no mesmo verso as palavras «sagrado» e «Imperio», o Poeta sugeria o direito do rei àquela dignidade suprema, o que seria de grande agrado do monarca. Mas a intransigência da Inquisição, pouco disposta a adulações e em especial àquele rei, terá opinado que «sagrado» se reservaria para pessoas e assuntos religiosos. A versão publicada representa um evidente empobrecimento semântico, dado que «poderoso» é um qualificativo comum, e não exclusivo de pessoas régias, imperiais ou divinas.

      E aqui reside a aparente impossibilidade de o soneto se referir ao eclipse de 1579: no final da transcrição do Canto I de Os Lusíadas, no fólio 215v, Luís Franco informa que decidiu não prosseguir a tarefa, dado que a obra tinha, entretanto, saído à luz. Este fólio 215 tem então data posterior a 1572.

      Se partirmos do princípio de que a transcrição dos poemas para o códice ao longo de mais de três décadas foi sendo feita de forma paulatina e gradual, aquela localização do soneto no códice, oitenta e tal fólios antes desta anotação, implicaria a sua composição durante os anos 60 na Índia portuguesa, quando Luís Franco ali convivia com o seu amigo Camões. Nesse caso o eclipse aludido seria o de Goa, de 14 de fevereiro de 1561.

      Porém, trinta e dois anos são um tempo demasiado longo para aquela empreitada. Poderíamos glosar Camões e alvitrar que foi «para tão longo trabalho, tão curto o resultado».

      A elaboração material dos códices cancioneiris era caótica, incluída a fase final de junção dos cadernos, onde era possível uma troca na ordem deles. Mas o que em todo o caso é muito duvidoso, é que a compilação tivesse sido um trabalho constante, e harmoniosamente distribuído por aquele intervalo temporal colossal, ao ritmo de três ou quatro poemas copiados por ano. É mais aceitável que grande parte do conteúdo do códice tenha sido incluída perto da data do termo dos trabalhos de compilação, o ano de 1589, e sem quaisquer critérios cronológicos. Nesse caso um soneto de 1579, e última produção do poeta, já poderia figurar muitos fólios antes da constatação da impressão de Os Lusíadas, notícia que Luís Franco obteve após o ano de 1572, mas talvez não imediatamente. Significativamente, no Cancioneiro de Fernandes Tomás, que embora posterior ao de Luís Franco é outra compilação importante para a poesia de Camões, o soneto ocupa o lugar que se esperaria que ocupasse: é a última composição no final do último fólio (174v), onde de facto deveria figurar o testamento poético de Camões que este soneto representa. O que vem reforçar as suspeitas sobre a correta ordenação dos fólios no Cancioneiro de Luís Franco, ou sobre a duvidosa ordenação cronológica desta compilação, sendo mais provável que grande parte dos poemas tenha sido recebida em conjunto e em data tardia.

      Mário Saa, na obra já citada, argumenta que Camões teria nascido a um sábado, Saa 1978:51-53. Aceitando este dado suplementar, os dois eclipses totais referidos caem em datas que foram sábados nos anos apontados como sendo os do nascimento de Camões:

       

      Local e data Dia 1517 1525
      Goa (quase total) – 1561 14 de fevereiro Sábado
      Lisboa (total) – 1579 25 de fevereiro Sábado

       

      No caso do eclipse de Goa, esta variável forçaria a reabertura do debate quanto ao nascimento de Camões ter ocorrido em 1517, data geralmente preterida após a publicação em 1685 da Segunda Vida do Poeta, por Faria e Sousa, onde se atesta que Camões declarou ter 25 anos no momento da entrevista que fez para incorporação na armada da Índia em 1550.

      Esta postergação da data de nascimento faz bastante sentido: é difícil aceitar que Camões quisesse ir fazer um segundo serviço de armas voluntário já com trinta e três anos de idade, e não aos vinte e cinco. O mesmo se poderá dizer do primeiro serviço, esse em Ceuta em 1548: é pouco provável que Camões fosse mobilizado com mais de trinta anos de idade, sendo bem mais crível que o fosse aos vinte e três.

      Em 1550 a Armada partiu invulgarmente tarde, já no mês de maio (Memória das Armadas, 1566:61), aliás sem Camões. As entrevistas eram feitas quase à boca do embarque, pois recebia-se uma significativa quantia a título de adiantamento: «como sabeis pagão soldos e moradias adiantadas, com outras merçeszinhas» (Epistolário Magno 2022:13). Não conviria que houvesse tempo para arrependimentos, ou para desaparecimentos, ou que a paga fosse dilapidada nas costumeiras baiucas de perdição, os cabarés do vício, onde já se cantava o antepassado do fado (Epistolário Magno 2022: 101) e que Camões frequentou e satirizou.

      Assim sendo, apenas no caso de Camões ter nascido em fevereiro de 1525, e não de 1524, poderia ter declarado a partir do final de fevereiro de 1550, e antes de maio, que contava 25 anos completos, e não 26.

      Na próxima e última entrega relativa a este tema analisaremos o célebre soneto e o seu verosímil contributo para o esclarecimento da data de nascimento de Camões.

       

      Felipe de Saavedra

      Coordenador da Rede Camões na Ásia & África