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      VÍRGULA

      Os dias que não voltarão a passar

       

      Nos volumes de Conta-corrente, o diário que Virgílio Ferreira manteve a partir dos cinquenta e três anos, é muito comum referir-se apenas pelas iniciais as pessoas que fizeram parte dos seus dias. Hoje, esses diários encontram-se principalmente em alfarrabistas, entre livros de outros tempos. Quem se interessará ainda por saber a que nomes correspondem essas iniciais?

      Na adolescência, naquela idade em que se lê os livros que serão lembrados durante toda a vida, tive à minha disposição uma biblioteca pública. Ao longo de uma vertigem, como se caísse no interior de um poço de onde nunca poderia sair, aquelas prateleiras mudavam-me o destino. Com sofreguidão, virava-me em todas as direções, esticava-me para chegar aos livros mais altos da secção de poesia ou, sem medo, enfrentava romances com centenas de páginas, sabendo que, depois de longas tardes, não seriam capazes de me resistir. Eu tinha quinze, dezasseis, dezassete anos e, agora, quando olho para trás, surpreendo-me com a existência desse tempo e, em simultâneo, orgulho-me dele. Faz parte da minha história.

      Ao longo desses anos, foram sobretudo os autores portugueses que me formaram. Não posso garantir que não haja ausências, esta é uma afirmação tão relativa, tão subjectiva e, no entanto, porque não tenho medo, não resisto a fazê-la: não há qualquer nome fundamental da literatura portuguesa do século XX de que não tenha lido pelo menos uma obra, completa, da primeira à última página. Uma parte significativa dessas leituras foram feitas durante esse período, de forma obsessiva.

      Nesse tempo, e mesmo depois, os diários faziam parte das leituras que me cativavam, que me ensinavam a pensar e a olhar. No entanto, quando lia contextualizações críticas, ficava sempre perplexo com o papel secundário que lhes era atribuído. Poderia citar outros exemplos, mas escolho quatro importantes autores que descobri nessa altura e que me parecem significativos daquilo a que me estou a referir: José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago. Nas muitas diferenças que estas quatro obras apresentam, o registo dos dias ocupa uma posição importante em todas elas.

      Em prateleiras organizadas por ordem alfabética, em livros com um código colado na lombada, os diários destes autores são oportunidades de acesso a uma dimensão única do que escreveram. Por contraste com a solenidade dos títulos de prosa ou de poesia, os diários permitem um contacto com estes autores a nível mais prosaico, pessoal, imperfeito, profundamente humano. Como numa conversa, num passeio pelo pensamento de todos os dias, qualquer tema pode ser assunto: as visitas lá de casa, as impressões acerca de um filme, a família, as amizades, as pequenas alegrias, as queixas, os ressentimentos, o medo dos críticos. Nos temas profundos ou superficiais, nas reflexões gigantes ou ínfimas, posicionamo-nos a pouca distância destes autores, debaixo da pele, é-nos oferecida a possibilidade de lhes entrar no olhar.

      No entanto, depois de décadas, os diários continuam a ser menorizados na hora de se avaliar as obras principais destes autores. Talvez Miguel Torga seja aquele em que o texto diarístico alcançou maior reconhecimento. Sobre esse longo trabalho, publicado originalmente em dezasseis volumes, Torga escreveu: «Este diário (…) não é a crónica dos meus dias, mas a parábola deles». Mesmo assim, a sua leitura, quase sempre doseada em excertos, é com muito mais frequência apresentada como curiosidade histórica do que como passagem lapidar. É certo que, pela sua natureza, o texto diarístico tem uma relação implícita com a história mas, ainda assim, a sua dimensão literária existe e, muitas vezes, tem suficiente solidez para ser considerada de modo isolado. Implicitamente, afirma-se que as palavras quotidianas não podem ser eternas. Fico com a sensação de que preferimos recordar esses autores com a máscara mitificada que, muitas vezes, lhe aplicamos ainda em vida, é como se não suportássemos a nitidez das fotografias.

      Também deste modo, e mais uma vez, os livros nos falam do tempo e, ao fazê-lo, nos falam de nós. Falam da maneira como lidamos com o tempo, falam da memória que escolhemos.