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      CRÍTICA

       

      Katie Stallard

      A Dança dos Ossos

      Zigurate

      Tradução de Sara Veiga

       

      Os ossos da história também partem

      O presente em que vivemos é suficientemente rico em convulsões entre Estados para percebermos sem ser preciso recuar no tempo o que queria Mao Zedong dizer com esta frase: «Façam com que o passado sirva o presente». É ela que, em epígrafe, serve de mote A Dança dos Ossos, livro de Kate Stallard originalmente publicado em 2022 e em que a jornalista se propõe olhar para a relação entre história e poder em três países hoje liderados por déspotas: a China, a Rússia e a Coreia do Norte. Da invasão da Ucrânia pela Rússia à matança israelita na Palestina, é evidente o modo como os líderes, de um e outro lado, recorrem a episódios mais ou menos remotos, e mais ou menos verdadeiros, para defenderem as suas posições – sendo certo que algumas são simplesmente indefensáveis.

      Katie Stallard é jornalista da Sky News, trabalhou na China de Xi e na Rússia de Putin, visitou a terra remota e fechada dos Kim em reportagem. Como em muitos outros títulos do género, vai cruzando investigação histórica com narrativas pessoais dos interlocutores que encontra no caminho. Antes, avisa ao que vem e fá-lo com esmero, numa introdução em que confessa ter abraçado este trabalho como «uma missão de vários anos destinada a compreender a forma como os autocratas exploram a história para se manterem no poder». O seu intuito é escrever uma narrativa sobre poder, escrever «a história de como os sucessivos dirigentes autoritários cooptaram e manipularam o passado para servir as suas necessidades políticas», desde a utilidade política dos inimigos estrangeiros às histórias de vitimização nacional; dos riscos de falar verdade ao «potencial das mentiras», dos «heróis patriotas» aos «inimigos do povo».

      Sobre a China, refere a título de exemplo que desde que Xi Jinping assumiu funções em 2012, Pequim praticamente duplicou a cronologia oficial da Segunda Guerra Mundial. «Diz-se agora que esse conflito durou 14 anos, em vez de oito, e que começou em 1931, e não em 1937, como anteriormente. Há novos dias comemorativos, novas leis para proteger a narrativa do partido e uma nova acção repressiva contra opiniões divergentes – ou aquilo a que o partido chama “niilismo histórico”. (…) Xi está determinado a fazer com que a história do país sirva as necessidades actuais do partido».

      Mas, como Stallard vai deixando bem claro com o avançar do livro, em nenhum outro país o passado tem um papel tão relevante na política contemporânea como na Coreia do Norte, «onde a versão da história da dinastia Kim comanda a vida contemporânea».

      Fazendo a importante distinção entre os cidadãos de um país, as suas crenças e aquilo que é o discurso oficial de um regime, Stallard lembra (como se preciso fosse – e é) «os cidadãos da Coreia do Norte, da Rússia e da China não são mais autómatos do que as pessoas de qualquer outra parte do mundo, e é importante não confundir as opiniões que alguém pode expressar publicamente num sistema autoritário – especialmente a uma repórter estrangeira – com convicções privadas e genuínas. (…) As opiniões divergentes e variadas podem subsistir –  e subsistem mesmo – até sob os mais rigorosos controlos sociais».

      Em dez capítulos nos quais estas históricas se inter-conectam, não estando isoladas umas das outras –  da dinastia Kim a Mao e às convulsões da história recente da China; de Estaline às estepes siberianas que estão paredes-meias com a China e as Coreias; do Dia da Vitória celebrado com pompa na Rússia à invenção norte-coreana de um suposto ataque ao país por parte da Coreia do Sul e dos EUA, com os Kim a salvar a honra da nação – o livro avança por mitos, narrativas de vitória, inimigos, memória, vítima, verdade ou que resta dela, mentiras em todo o seu esplendor, histórias de controlo, de heróis e, claro, de patriotas.

      Lembrando as palavras de Hobsbawn – «O que faz uma nação é o passado; o que justifica uma nação perante outras é o passado.» –, Stallard logra aguentar até ao fim um registo em que cruza a reportagem no terreno com a pesquisa de biblioteca e as suas leituras. Ao contrário de outros títulos da autoria de repórteres ou académicos ocidentais que posicionam o seu olhar “do lado de lá”, do lado do outro, a paisagem que Kate Stallard oferece sobre a Rússia e a Ásia é captada quase sempre desde o seu ponto de partida europeu – e não vem mal ao mundo por isso.

      «Todas as nações contam a si histórias do passado e recorrem de forma selectiva à sua história, mas na Rússia, na China e na Coreia do Norte estas narrativas estão a tornar-se cada vez mais arreigadas. Além disso, estes líderes não vão desaparecer tão cedo», nota a Katie Stallard, como que prevendo a longevidade das presentes lideranças. A ajudá-los estará esta noção clara do peso da história de que fala o livro: «A experiência demonstrou a estes homens o poder de apelar à história e, por conseguinte, a importância de a manter sob um controlo rigoroso.»