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      Morreu Armandinho, “figura que deu tanto à música e que tão pouco retirou dela”

      Morreu na manhã de ontem, aos 74 anos, Armando Araújo, músico brasileiro que se estabeleceu em Macau nos anos 1970. Músico de jazz “absolutamente fantástico” e com estatuto de lenda em Macau e não só, Armandinho é recordado como “uma figura que deu tanto à música e que tão pouco retirou dela”.

      Armando Araújo morreu na manhã de ontem, aos 74 anos. Armandinho, como era conhecido em Macau, chegou ao território nos anos 1970 e desde então trabalhou como músico. No território, era considerado uma lenda do jazz.

      Inicialmente, Armandinho fez de Macau uma plataforma de onde saltava para ir tocar ao Japão sempre que podia, dividindo o tempo entre os dois sítios. Mais tarde, o Japão começou a fechar as oportunidades de trabalho sazonal aos músicos que lá iam com regularidade e, por isso, Armandinho deixou de lá ir com tanta frequência, fazendo de Macau a sua casa a tempo inteiro. Aqui, o trabalho como músico também era escasso, trabalhando como músico essencialmente nos cabarés da cidade. Armandinho chegou também a tocar bateria com músicos vindos de Portugal naquele que foi considerado o primeiro festival de jazz de Macau, nos anos 1980.

      Foi nessa altura que o arquitecto Miguel Campina Ferreira conheceu Armando Araújo, através do Jazz Club de Macau, tendo mantido com ele uma relação longa de amizade.

      Ao PONTO FINAL, Miguel Campina Ferreira descreve Armandinho como “uma personagem particular”, que “fazia uma vida muito pouco comum”. “Era uma pessoa particularmente dotada, tinha estudado música, tinha uma grande intuição, tinha jeito para o que fazia, tocava diferentes instrumentos e também cantava”, recorda, sublinhando que “como músico era absolutamente fantástico”. “Recordo-o como uma figura que deu tanto à música e que tão pouco retirou dela”, declara o amigo.

      O arquitecto lembra também a sua personalidade única, que fazia com que tivesse “dificuldades em cumprir obrigações”: “Os deveres regulares e a regularidade da vida não eram conceitos que casassem bem com a sua personalidade e maneira de ser”.

      Nos últimos anos, Armandinho vivia no Lar de Nossa Senhora da Misericórdia e as condições de saúde faziam com que tivesse de se deslocar ao hospital frequentemente. Apesar do estado frágil de saúde, Armandinho rejuvenescia quando tinha oportunidade de tocar bateria. “Era um elixir de vida para ele poder juntar-se a outros e tocar. Tinha uma atitude de grande disponibilidade e vitalidade quanto a tudo o que dizia respeito à música”, comenta Miguel Campina Ferreira.

      Aliás, em 2020, foi organizado um concerto no espaço D2 onde a carreira de Armandinho foi celebrada por mais de 25 artistas locais, incluindo a banda a que pertenceu, os The Bridge. No concerto, Armandinho pegou nas baquetas e voltou a tocar.

       

      “É UMA LENDA DA MÚSICA”

       

      José Luís Sales Marques descreve Armandinho como um músico “excepcional” e “muito talentoso”. Ao PONTO FINAL, diz que para a história fica o seu legado, o carinho com que tocava a bateria e o som que produzia.

      À frente do Jazz Club de Macau desde 2013, Sales Marques lembra também as Sunday Jazz Sessions, que se realizavam no LMA, nas quais Armandinho chegou a tocar: “O Armandinho estava bastante doente e eu vi-o renascer tocando bateria. Fisicamente, ele recuperava a tocar bateria. A música era tão importante para ele que ele parecia um homem diferente”.

      “É uma perda imensa para todos nós, para a música em Macau e não só”, diz Sales Marques, apontando para o estatuto de lenda da música não só na região como no Brasil, por exemplo. “Somos uns privilegiados por termos podido ouvi-lo tocar e ter convivido com ele”, conclui.