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      Macau chegava à TV em 1984

       

      O dia da primeira emissão da TDM, a 13 de Maio de 1984, é, naturalmente, histórico. Depois de anos a beber informação dos canais da região vizinha, tinha chegado a altura de Macau ter o seu próprio meio televisivo.

       

      Luciana Leitão

       

      Hoje em dia, a Teledifusão de Macau (TDM) tem uma oferta de cinco canais de televisão digital terrestre, em chinês e em português, além do canal por satélite Ou Mun – Macau e dos canais de rádio Ou Mun Tin Toi e Rádio Macau. Mas, há 40 anos, a emissora estava a dar os seus primeiros passos na televisão, com muita expectativa, ansiedade e entusiasmo à mistura. O PONTO Final conta como foi esse início.

      “Vencendo barreiras sociais, culturais, geográficas e políticas, chega directamente com a força da sua imagem a cada casa, a cada família, a cada cidadão. Encarada com certo cepticismo por uns, e até com algum receio por outros, mas aguardada com justificada expectativa por muitos, a televisão aqui está”, dizia o então Governador de Macau, Almeida e Costa, no arranque da emissão, a 13 de maio de 1984.

      Estava marcado o início do canal de televisão, que não passou imune a algumas críticas, por o primeiro rosto da emissão ser o antigo Governador, que se confundia com um apresentador, e por ter começado a operar, diziam alguns, com falta de material e de instalações. “Na televisão de Macau, os operacionais não foram tidos nem achados no marcar do início das emissões”, lia-se no jornal A Tribuna de Macau, numa reportagem dos bastidores do primeiro dia de emissão. “Há, na realidade, grandes lacunas, no material e na preparação humana, que bem justificariam um adiamento”, escrevia-se.

      João Guedes, que integrou a Rádio Macau em 1982, juntamente com outros nomes conhecidos da informação, como Judite de Sousa, José Alberto de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e Gonçalo César de Sá, para preparar a criação da televisão, anos mais tarde, diz que as críticas não faziam jus à realidade de então. “Não havia falta de meios, era uma televisão com tecnologia de ponta [na altura], mas havia uma questão política — havia quem não achasse que Macau devia ter uma estação de televisão, mas a televisão de Macau foi sempre muito tecnicamente boa, com gente muito capaz”, recorda.

       

      A primeira emissão

      Ana Isabel Dias, que fez parte, durante muitos anos, da equipa da TDM – Teledifusão de Macau, estava lá desde o início, ainda que no primeiro dia tenha sido, também ela, uma espectadora. “A 13 de Maio, que foi quando a emissão começou, era uma emissão especialíssima. O telejornal foi apresentado por José Alberto de Sousa, pela parte portuguesa, e por Marina Tang, pela parte chinesa, enquanto a programação foi apresentada por Johnny Reis [João Sameiro Afonso dos Reis], que era o grande veterano da rádio.”

      Na altura, foi “a grande emoção da década”, já que não havia nada em Macau. “Foi, de facto, a concretização de uma ideia, não só para mim enquanto profissional da TDM, era para a população toda de Macau”, diz. Aliás, Ana Isabel Dias recorda: “Há imagens de arquivo da TDM de pessoas em frente às montras das lojas de electrodomésticos de Macau, todas entusiasmadíssimas.”

       

      O concurso e a formação a cargo da RTP

      Ana Isabel Dias entrou na Rádio Macau como estagiária, acabando por lá ficar e, posteriormente, integrar o canal de televisão — primeiro, na área da apresentação e locução de continuidade. “Entre os programas, aparecia uma apresentadora ou um apresentador que anunciava a programação que se seguia nas próximas horas e eu fazia isso, era apresentação de continuidade.” Só posteriormente acabaria por integrar o departamento de informação.

      Mas como é que as equipas iniciais se formaram? “Quando a televisão surgiu em 1984, foram feitos concursos de admissão, concursos públicos, que podiam incluir pessoal que já trabalhava na rádio, concursos lançados à população de Macau no geral”, recorda. E, na realidade, concorreram muitas pessoas. “Foi uma das manifestações em como as pessoas estavam ávidas de uma coisa diferente — não havia nada, a população vivia ligada aos canais de Hong Kong”, destaca. Depois de uma série de provas, que avaliavam também o cuidado com o português e a dicção, algumas pessoas acabaram por integrar a equipa da estação televisiva.

      A formação, na altura, estava a cargo de profissionais da RTP. “Formou-se uma equipa com tudo o que era necessário para o arranque de uma televisão — desde câmaras aos homens da luz, tudo o que aquilo que uma televisão requer”, diz. Entre os muitos profissionais da RTP (e não só) que passaram por Macau para esse arranque inicial, estavam Avelino Rodrigues, João Nuno Nogueira, Joaquim Osório, Manuel Faria de Almeida, Maria Helena Falé, Maria Adelina Cruz, Mário Cardoso, Nestor Ribeiro, Vítor Rebelo e Vítor Pereira.

       

      As primeiras emissões

      Naqueles primeiros tempos, era um único canal, que abria às 18h e fechava às 23h. “O primeiro telejornal da TDM foi apresentado em português e chinês — o José Alberto de Sousa fazia a parte portuguesa e a Marina Tang fazia a parte chinesa. Nas partes da emissão, em que se falava português, apareciam sempre legendas em chinês e, nas partes da emissão em que se falava chinês, apareciam legendas em português. E isto era aplicável aos programas, aos filmes, a tudo”, recorda Ana Isabel Dias.

      “Tínhamos apenas um canal e tínhamos de pôr legendas ao mesmo tempo e, às vezes, tapavam as imagens”, contava Gary Ngai, tradutor na redacção da TDM nesses anos iniciais, no documentário “TDM – 35 anos”, referindo ainda que, por vezes, “as traduções não condiziam”. Considerando as dificuldades na legendagem, veio a ser criada uma máquina, por um informático chinês e por uma funcionária do departamento de tradução da altura, a que se deu o nome Robalina, para que essas legendas fossem feitas de forma mais eficaz.

       

      Do arranque “confuso” a uma altura mais criativa

      O arranque foi, de facto, “confuso”, uma vez que “não havia quase nada”, mas, mais ou menos um ou dois anos depois, surgiu um período de “grande criatividade”, com muita produção local. “Muitos documentários sobre Macau, programas de entretenimento, jogos, imensas ideias que vinham da RTP e eram aproveitadas para Macau, adaptadas à população local e aos meios que nós tínhamos”, recorda Ana Isabel Dias.

      Quando se assinou a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau, em 13 de Abril de 1987, e se decidiu a transferência de administração do território, “já a televisão trabalhava com capacidade para poder acompanhar isso e o que se passava na cidade do ponto de vista político.” Aliás, para Ana Isabel Dias, esses anos antes da transferência de administração foram os que mais gostou, ao longo da sua passagem pela TDM. “Era um momento histórico ímpar, estávamos em fase de transição, havia questões muito sensíveis, em relação às quais era preciso muito cuidado”, justifica, acrescentando: “Na apresentação das notícias, as coisas tinham de ser muito claras, as negociações eram questões extremamente delicadas, porque a parte chinesa do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês tinha os seus tradutores e, obviamente, acompanhavam cada vírgula, cada ponto. Não podia haver equívocos que pudessem colocar mal a parte portuguesa e havia questões muito sensíveis, como a nacionalidade e as seitas.” João Guedes destaca o mesmo período. “Antes de 1999, a TDM era o centro do mundo”, tratando-se de um período particularmente desafiante, já que, com as “guerras das seitas, havia sempre notícias.”

      E, por fim, deu-se a transferência de administração. “Tudo aquilo que tivemos de fazer pela cerimónia da passagem do testemunho e ver descer a nossa bandeira e subir a bandeira chinesa, e perceber que estávamos numa fase diferente, assistir a essa passagem de momento”, destaca Ana Isabel Dias.

       

      Os anos prévios à primeira emissão

       

      Nos anos 60, já tinha havido uma primeira proposta da companhia de Macau F Rodrigues para criar uma estação televisiva, que fosse ao encontro dos interesses da população local, conforme salienta o documentário “TDM-35 anos”, da autoria da jornalista, Ana Isabel Dias.

      Mas foi apenas mais tarde, na sequência da Revolução dos Cravos em Portugal, a 25 de Abril de 1974, que se chegou mesmo à conclusão de que a cidade precisava da sua própria estação. Em 1978, viria a ser constituído um grupo de trabalho para preparar a criação daquele que seria “um instrumento de afirmação política e de afirmação cultural, através da língua portuguesa”, dizia o Governador de Macau na altura, Garcia Leandro.

      Num ofício endereçado ao Colonial Office, com a data de 25 de Outubro de 1979, o vice-cônsul britânico de Macau da altura referia os planos do então Governador de Macau, Melo Egídio, tal como o antecessor Garcia Leandro, para o desenvolvimento do território — entre os quais, incluía-se um aeroporto, o aterro do NAPE e dos lagos Nam Van e a criação de uma estação de televisão local. Segundo o documento, o Governador já teria “anunciado em Setembro [1979] de que Macau iria ter a sua própria estação de televisão, detida pela Rádio Televisão Portuguesa”. Melo Egídio viria a terminar o seu mandato, ao fim de apenas dois anos, sem dar início ao projecto.

      Em 1982, Almeida e Costa era então Governador de Macau, foi promulgado o decreto-lei criando a Empresa Pública de Teledifusão de Macau, que integrava os serviços de radiofusão, ao mesmo tempo em que se extinguia a ERM-Emissora de Radiodifusão de Macau. “Nós começámos a rádio como o primeiro passo para criarmos as estruturas informativas, as estruturas de contactos em Macau para depois lançar a televisão”, dizia Gonçalo César de Sá, chefe de redacção da Rádio Macau – TDM, entre 1980 e 1986, em imagens reproduzida no documentário “Macau – 35 anos”.

       

      Os altos e baixos de quatro décadas

       

      1982: A Rádio Macau começa a operar em português e chinês, preparando o caminho para o canal televisivo.

       

      1983: É fundada a Teledifusão de Macau, para emitir programas televisivos e radiofónicos em português e cantonense.

       

      13 de Maio, 1984: A primeira emissão da TDM dá-se a 13 de Maio de 1984, com o então Governador Almeida e Costa a discursar na sua abertura.

       

      1985: A Ou Mun Tin Toi, canal em chinês da Rádio Macau, começa a emitir 24 horas por dia.

       

      1988: Surgem acusações de que estaria a ser preparado um processo de transformação da empresa pública numa sociedade anónima, por forma a facilitar a entrada da Emaudio — uma empresa associada ao então magnata dos média britânicos Robert Maxwell, que tinha tido por sócio o antigo Governador de Macau, Carlos Melancia.

       

      1988: Embora noutros termos, o processo de privatização acaba por avançar e, depois de 49,5% das suas acções terem sido compradas, a TDM torna-se sociedade anónima. O Conselho de Administração era presidido por Stanley Ho e era integrado, entre outros, por José Egreja, Ambrose So e Roldão Lopes.

       

      1990: Abertura das instalações da TDM – Rádio Macau no edifício Nam Kwong.

       

      1990: O único canal bilingue de televisão divide-se em dois: um canal português e um canal chinês.

       

      1995: Edmund Ho, que viria a ser o primeiro Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau, passa a integrar o Conselho de Administração da TDM, que abandonaria antes de assumir funções governativas.

       

      2000 – Lançamento do sítio oficial da TDM na Internet.

       

      2008 – Estúdio de gravação da TDM é inaugurado no Fórum 2, permitindo a produção de programas com forte participação do público.

       

      2008 – A TDM acolhe a 84.ª Reunião do Conselho de Administração da União de Radiodifusão Ásia-Pacífico (ABU).

       

      2009 – A TDM assinala o 60.º aniversário do estabelecimento da República Popular da China e o 10.º aniversário do estabelecimento da RAE de Macau com o lançamento do canal de televisão por satélite Ou Mun-Macau, seguido do TDM Sport e do TDM Life (agora conhecido como TDM Info) em Outubro.

       

      2009 – TDM passa a transmitir o Jornal da CCTV (CCTV-13) num canal de televisão independente.

       

      2014 – Atribuição da Medalha de Mérito – Cultura à TDM

       

      2015 – Extensão dos programas e informações às plataformas de difusão dos transportes públicos.

       

      2016 – Lançamento do canal de televisão por satélite Ou Mun – Macau no Japão

       

      2019 – Criada a Aliança de Radiodifusão da Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, englobando 21 meios de radiodifusão da GBA.

       

      2021: Em simultâneo com a aprovação da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong, a administração da TDM define orientações jornalísticas sobre “patriotismo, respeito e amor” pela China Continental, que levam à demissão de vários jornalistas dos canais portugueses da TDM.

       

      2023 – TDM assina acordos de cooperação com estações de televisão dos países de língua portuguesa para aprofundar o intercâmbio de formação técnica, notícias e informações, entre outras áreas.

       

      2023: Dá-se o fim da transmissão analógica da TDM.

       

      2023 – Canal TDM Ou Mun passa a emitir na região do Delta do Rio das Pérolas, atingindo uma população de mais de 100 milhões de pessoas.

       

      2023 – A TDM e a CTBM (Canais Básicos de Televisão de Macau, S.A.) formalizam a sua fusão.

       

      2024 – Abertura da redação da TDM em Hengqin.

       

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau