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      InícioSociedadeO hotel onde o século XX ficou quando passou por Macau

      O hotel onde o século XX ficou quando passou por Macau

       

      Primeiro prédio com elevador em Macau, o “mais alto de todo o ultramar português”, e “a maior casa de jogo e de autoindulgência do mundo”, de acordo com o criador de James Bond. Depois de fechado durante anos, o Hotel Central volta a abrir portas. A história de Macau tem ali suite reservada com vista para o século XX.

       

      Os engenheiros que anotaram as meticulosas medições para calcular expropriações de terrenos, demolição de edifícios, alinhamento de vielas sinuosas, aplanamento de outeiros e, por fim, a construção de uma avenida que atravessaria o centro de Macau ligando a Praia Grande ao Porto Interior — a cidade cristã ao bazar chinês –, não imaginavam que, além de rasgar a malha urbana da Cidade do Nome de Deus, estariam, também, a profanar o sono de algum ser fantástico, que assim poderia despertar contrariado do seu profundo sossego.

      Mas teriam feito bem em imaginar, porque “com as crenças dos chineses buliram mais os engenheiros estrangeiros que fizeram as primeiras estradas e caminhos-de-ferro na China, do que, propriamente, os nossos padres”. É o que explica Jaime do Inso em “Cenas da Vida de Macau”, de 1941, advertindo que, nas tradições mitológicas chinesas, o mundo é povoado de “dragões que exercem uma influência manifesta sobre os mortais, benéfica ou terrível, conforme a disposição propícia ou irada dos monstros que habitam debaixo da terra ou das águas”.

      Teria mandado a prudência, portanto, que “não se devia fazer coisa alguma que irritasse a fera adormecida, e as escavações por montes e vales, sem preocupações de espécie alguma, sem a consulta aos feng-sui ou espíritos das águas e dos ventos, como praticava a engenharia dos diabos do Ocidente que, desrespeitosamente, investiam com ferramentas e aparelhos diabólicos, pelas entranhas da terra-mãe amarela, era do pior procedimento que se podia ter para com os famigerados dragões que não deixariam, depois disso, de fazer sentir o duro peso da sua cólera sobre os pobres chineses das vizinhanças de tais perfurações…”

      Não sabemos — não foi possível confirmar junto de algum dragão ou qualquer outra entidade mitológica — se a criação da Avenida Almeida Ribeiro, em 1918, ao fim de dez anos de obras, cortando a Rua Central (anterior centro da vida de Macau, e conhecida em chinês, precisamente, como Rua Direita do Cume do Dragão), foi o que provocou a cadeia de vicissitudes e tragédias que atingiram o apogeu durante a invasão japonesa da China e a Guerra do Pacífico (1937-1945). Tudo correndo pela artéria a que os chineses preferiram chamar San Ma Lou (avenida nova) e Tai Ma Lou (grande avenida), indiferentes ao ministro das Colónias que, em 1913, autorizou a verba para expropriação (e posterior demolição) de 130 casas.

      Mas talvez os espíritos não tenham ficado completamente desagradados; afinal, com a Almeida Ribeiro, nasceu também a zona comercial mais importante de Macau, que se mantém ao longo do tempo. A assistir a tudo, com lugar e vista privilegiada, ali mesmo a meio da avenida, esteve o Hotel Central. E assim continua.

       

      Um elevador para o “roof garden”

       

      Nesta história, tal como há uma Macau antes e depois da Avenida Almeida Ribeiro, também antes do Central há, no mesmo edifício, outro hotel, de seu nome President (nada tem a ver com o outro, do mesmo nome, que ainda existe em Macau).

      É preciso recuar aos anos 1920. “O mundo assiste a fenómenos como a ascensão do cinema, a descoberta das praias, a emergência das ‘pin up’ e o papel, cada vez mais redutor, da diferença e da distância, assumido pelos jornais”, conta Luís Andrade de Sá em “A História na Bagagem”, “crónica dos velhos hotéis de Macau”, publicada em 1989. “É uma década de vertigem, e os novos e estranhos ritmos musicais, bem como o aparecimento fulgurante dos aeroplanos, dão-lhe o toque da velocidade a que a mudança se processa”.

      Ainda que repousasse à sombra do progresso estonteante de Hong Kong, com um turismo incipiente, sem planificação nem estruturas, as mudanças que estremeciam o mundo não passavam totalmente ao lado de Macau. Assim prova 1928, “que ficará na história de Macau como o ano da revolução dos hotéis, com a abertura do Riviera [na esquina em frente ao BNU, onde hoje existe um Banco da China] e do President”, cada um puxando os galões e alardeando ser “o melhor hotel do Extremo Oriente” ou que “não há no mundo melhor”.

      O President foi inaugurado no dia 28 de Julho, um domingo. O governador, Artur Tamagnini Barbosa, oficializou a cerimónia que abriu ao público 80 quartos e dez salões que “iniciavam uma nova época na indústria hoteleira”, em que, nota Andrade de Sá, “pela primeira vez era construído um prédio com semelhantes dimensões para funcionar exclusivamente como hotel”. Macau passava a ter o seu primeiro arranha-céus.

      “Macau conheceu, também naquele dia e naquele local, o seu primeiro sistema de elevadores eléctricos que, num minuto, subiam da entrada ao ‘roof garden’ de onde se disfrutava de uma magnífica e arejada vista”. Consta que houve uma correria para experimentar a modernice. “Mas a maior surpresa que o Hotel reservava ao público era, sem dúvida, o seu cinema, o Cinematógrafo President, com capacidade para quatrocentas pessoas”.

       

      De President a Grand Central Hotel

       

      Apesar das novidades de impressionar, o President vai ter vida curta. Em 1930, no final de Outubro (o mês de todas as revoluções, afinal), o hotel muda de dono e de nome, que passa a Grand Central Hotel.

      A nova grande atracção morava no sexto andar, o Clube Hou Hing, que prometia noites de excitante animação. “Do cabaré Hou Hing”, escreve Andrade de Sá, “dir-se-á que era o maior salão de dança da cidade, com jazz privativo, divertimentos e bilhar. Ao pé dele, os chás dançantes do Riviera não existiam e a diferença estava precisamente no grande número de mulheres que se concentravam no Central”. Além das “dançarinas privativas”, havia “as meretrizes da Rua da Felicidade, uma comunhão que não resulta, terminando frequentemente em pancadaria a concorrência entre os dois grupos que disputavam os clientes”. Com as cenas de violência, tornam-se repetentes, também, as fiscalizações da polícia.

      Mas as bulhas nem eram o pior. “Os hóspedes eram roubados [por vezes, pelos próprios empregados] e por diversas vezes explodiram bombas colocadas por piratas numa tentativa de chantagem à companhia Iun Iun, a concessionária do fantan de que havia salas de jogo naquele hotel”, recorda “A História na Bagagem”.

      Naquele tempo, a pirataria fazia parte do dia-a-dia e não se limitava às concorridas águas entre Macau e Hong Kong. As quadrilhas rondavam as casas de ópio e de jogo de Macau, sempre à espreita do próximo golpe. Empreendimentos como o Grand Central Hotel tornam-se centros de atracção para os criminosos e as ameaças não param. Primeiro, as cartas intimidatórias a exigir dinheiro em troca de protecção; depois, as bombas que explodiam quando os pedidos não eram atendidos.

      A imagem de Macau “noir”, antro de vícios e bandidos, corre mundo. Dentro de portas, há quem se indigne. Em Setembro de 1932, o jornal “A Voz de Macau” vai publicar uma série de artigos sobre “a lepra dos vícios”, entre os quais a “maldita jogatina”, as “fontes viciosas do jogo”, acusado de destruir lares e causador de inúmeras vítimas, muitas vezes coberto pelo “manto protector do silêncio”. Preocupações antigas. Em 1925, o jornal “A Pátria”, na primeira página da sua edição de 25 de Abril, perguntava: “Macau será, como lhe chamam, uma cidade de vícios?” Não era uma pergunta difícil, mas a certas almas a realidade tende a ser custosa de absorver.

       

      A guerra bate à porta

       

      A decadência não demorou a instalar-se nos novos hotéis de Macau. Nem o pioneiro elevador escapou. Poucos anos depois da estreia que permitia a “vertiginosa subida” dos seis andares do President em apenas um minuto, Luís Andrade de Sá conta que as avarias eram frequentes. Por isso, nem só de ameaças e bombas se alimentava o sentimento de insegurança. “A Voz de Macau” alertava para as condições de funcionamento da caixa do elevador, suspirando pela “felicidade” que fez com que um grupo de pessoas não se tivesse despedaçado no solo devido a um “desarranjo súbito”.

      Mas o maior transtorno, e nada repentino, começou a viver-se em Macau a partir de meados de 1937, com a progressiva aproximação da invasão japonesa da China.

      Antes, todavia, ainda houve tempo para mais uma grande mudança naquela que se ia afirmando como grande indústria em Macau.

      Em Maio desse fatídico ano de 1937, começa o longo reinado da empresa Tai Heng, que, por um quarto de século, até 1961, detém o exclusivo da exploração do fantan, o jogo preferido dos apostadores chineses. Durante esse período, o Hotel Central (como os novos donos, Fu Tak Iam e Kou Ho Neng, entretanto, rebaptizam) vai continuar a assumir o papel de palco principal. E crescer, passando, de seis para nove andares.

      Outras preocupações surgem no horizonte, no entanto. “A segunda guerra sino-japonesa”, regista Jorge Godinho, em “Os Casinos de Macau”, “começou em 7 de Julho de 1937 – dois meses após a celebração da Tai Heng”.

      No dia 18 de Outubro de 1937, o então ministro das Colónias português, Francisco Machado, escreveu ao presidente do Conselho de Ministros, também ministro dos Negócios Estrangeiros, António de Oliveira Salazar, expressando “preocupações e apreensões quanto à situação financeira de Macau, acrescidas de outras derivadas do aspeto político da Colónia em face [do] conflito” sino-japonês. A Macau, explica Machado, “têm afluído, de Cantão e Xangai, algumas centenas, se não milhares, de refugiados, quer de nacionalidade portuguesa, quer chineses, quase todos em precárias circunstâncias, obrigando o Governo da Colónia a providenciar acerca da sua subsistência, o que deu causa a consideráveis despesas imprevistas”. A “inquietação” apoderava-se da população, avisava o ministro, sublinhando como os apostadores se tinham afastado das lotarias e das casas de jogos, grande fonte de receitas da Administração. A vaga de refugiados estava a começar e iria crescer. Em pouco tempo, duplicam a população de Macau.

      Do outro lado das Portas do Cerco, os japoneses mostravam-se implacáveis. Em Setembro de 1937, o jornal “A Voz de Macau” fazia manchete com “o conflito sino-japonês em Shanghai”, dando conta dos ataques que a aviação nipónica levava a cabo, e de como “todas as fronteiras” dos invasores “foram consideravelmente aumentadas”. Avançam rumo a sul, a Cantão, o principal entreposto comercial chinês.

      A aproximação do conflito sente-se em Macau como uma crescente e palpável ameaça. Dali em diante, a guerra vai afetar “grandemente a marcha dos negócios públicos de Macau”, como resume, num relatório de 1952, Joaquim Marques Esparteiro, o 100.º governador de Macau. Dirigindo-se ao Ministro do Ultramar, Esparteiro recorda como, no início de 1938, se sentiram no território português “os primeiros bombardeamentos na vizinha ilha da Lapa, o que deu início ao êxodo de grandes massas de fugitivos para Macau”, incluindo dezenas de escolas da província de Guangdong, que transferiram as suas actividades para a pequena cidade.

      Os japoneses acabam por dominar o sul da China em Outubro de 1938, quando finalmente tomam Cantão. Com a ocupação do distrito vizinho de Zhongshan, as dificuldades para Macau tornam-se diárias.

       

      “Terra a que nada faltava”

       

      No dia 8 de Dezembro de 1941, menos de 24 horas depois do ataque a Pearl Harbour que chocou os Estados Unidos, os japoneses invadem Hong Kong com o objectivo de impedir a passagem de bens estratégicos para a China. A resistência é insuficiente para deter os nipónicos. No dia 12, ocupam os Novos Territórios e a península de Kowloon. Seis dias depois, alcançam a ilha que dava nome à então colónia britânica. No dia de Natal, o governador de Hong Kong, Sir Mark Young, anuncia a rendição ao Império do País do Sol Nascente.

      Para Macau, as consequências são imediatas. Ao longo dos próximos quatro anos, estará isolado do mundo enquanto decorre um conflito que ficou em suspenso no pequeno território, numa neutralidade que pouco tinha de paz e sossego.

      Ficava exposta como nunca a natureza ambígua de Macau, as suas contradições e contrastes. Porto de abrigo para milhares de refugiados, em Macau, conspirava-se, colaborava-se, resistia-se. Sobrevivia-se. Era tudo ou nada. Enquanto uns lucravam a vender os bens escassos que todos procuravam, outros morriam à fome na rua. Não faltaram cenas de canibalismo, nem banquetes luxuosos.

      Na sua neutralidade comprometida que deixava a porta entreaberta, Macau tornara-se um paraíso para contrabandistas e especuladores. Portugueses, chineses, japoneses, todos se envolveram no comércio, na importação e exportação de mercadorias que eram bem pagas em Macau ou no outro lado da fronteira, onde havia a imperiosa necessidade de manter viva a resistência contra o invasor. Uma vez acabada a guerra, haveria que acertar contas e os assassinatos à luz do dia, em plena rua, não foram incomuns.

      “Macau vivia assim inundado em dinheiro e abastança, terra a que nada faltava, nem as lindas mulheres que se vendem a peso de oiro, ostentando uma vida espetaculosa de prazer e alegria, que constituíam indubitavelmente uma vergonhosa afronta para a Humanidade, que suportava a fúria duma guerra feroz e sem quartel, sofrendo, num mundo alucinado e louco, a miséria mais atroz”, recorda António de Andrade e Silva no livro “Eu Estive em Macau Durante a Guerra”, escrito em 1946, mas só publicado em 1991.

      Nos faustosos manjares que nunca deixaram de se organizar, não faltavam iguarias como sopas de barbatana de tubarão ou ninhos de andorinha. Tudo acompanhado pelos melhores vinhos franceses, ao som das orquestras formadas pelos músicos filipinos que tinham fugido de Hong Kong.

      “Tive grandes festas quase todas as noites”, recordaria mais tarde um dos homens que soube agarrar as oportunidades que as estranhas circunstâncias da guerra proporcionaram, Stanley Ho. Talvez melhor do que ninguém, o futuro rei do jogo sabia que a sorte procura-se.

       

      “Noites de boémia” e miséria no Central

       

      Se o Central tivesse um livro hóspedes de desonra, as suas páginas estariam repletas de nomes japoneses. Era ali que os militares e agentes dos serviços especiais se reuniam numa Macau que só não estava ocupada em termos oficiais.

      Num típico dia de uma cidade sitiada pela guerra, descreve Andrade e Silva, que capitaneou o Porto de Macau, “como habitualmente, os japoneses, que fizeram de Macau o seu Quartel General e estância de turismo, passaram a noite no Hotel Central, onde podem gozar todos os prazeres que a Colónia consegue oferecer neste momento de tragédia – boa comida chinesa, bebidas, jogo e mulheres…”. Na cidade, os japoneses sentiam-se “em casa, tratados com a indulgência dum povo neutral e que recebe por seu intermédio tudo o que lhe é indispensável à vida… a troco de sangue”.

      As noites de “boémia” do Hotel Central começavam com os abundantes jantares acompanhados por “brindes corteses e permanentes”. No final, os estômagos ressentiam-se dos excessos e “alguns convivas saíam do Hotel descrevendo curvas irregulares, muitas vezes depois de conflitos violentos na sala de baile, com amostras ridículas de valentia de pistola na mão. Apareciam então na rua bêbados e inconscientes, numa horrível ofensa à miséria dos famintos que, à porta do Hotel, esperavam uma esmola e que eram escorraçados a pontapé”. Conta Andrade e Silva que “numa destas ocasiões se revelou bem o que era a miséria e a fome dum ser humano: dois garotos cadavéricos, que no passeio esperavam pela esmola de alguns avos, lançaram-se desvairados sobre os vómitos nojentos, e de mãos no chão, aproximaram a boca dos alimentos meio digeridos, comendo como os cães aquela mistura horrível impregnada de álcool”.

      Parecia não haver limite na descida às profundezas. O historiador Manuel Teixeira garantia que, durante a guerra, o Hotel Central “comprava crianças” que, depois de as engordar, “cozinhava e servia aos clientes”.

      Segundo Gabriel Teixeira, que governou Macau neste período, no primeiro ano da guerra morreram 27 mil pessoas na cidade. Na década anterior, a mortalidade tinha oscilado entre as três mil e as quatro mil anuais.

      Alexandre Gomes dos Santos, o médico que dirigiu os Serviços de Saúde de Macau neste tempo, afirma, num relatório de 1946, que “todas as manhãs, a polícia e mesmo os particulares solicitavam do Posto Médico Central a remoção de dezenas de cadáveres encontrados sob as arcadas da cidade, entre indivíduos famintos que ali se acolhiam à noite, fugidos da China em guerra”.

       

      Crimes e associados

       

      A vida, de alguma maneira, tinha de continuar. Em Macau, isso equivalia a dizer que o jogo não podia parar. Apostava-se que a sorte iria mudar.

      Os crupiês do Central não tinham descanso e as seitas, que, entretanto, proliferam no ambiente de generalizada confusão, encontram no hotel mais concorrido de Macau fonte de apetecível riqueza.

      Nas vésperas de Natal de 1939, o Central foi alvo de “uma terrível explosão de bomba”, noticiou “A Voz de Macau”, informando que “a casa estava cheia, com visitantes vindos de Hong Kong e de muitas partes de Guangdong”. Com o pânico, “centenas de pessoas fugiram” e “muitas sofreram ferimentos”. Fu Tak Iam, o dono do Central, encontrava-se no hotel naquele momento.

      O homem mais rico de Macau (e o seu hotel) continuou a ser alvo preferencial das seitas e haveria mesmo de ser sequestrado durante meses, em 1946, tendo ficado sem parte de uma orelha, cortada como prova na exigência de um resgate. O episódio, um dos mais sinuosos deste período, terá envolvido chefias portuguesas da PSP, em alegado conluio com seitosos.

      Eram as tais contas que a guerra tinha deixado por ajustar e que iam marcando o passo quando Macau procurava restaurar a normalidade depois de terminado o conflito. “As grandes orquestras dos hotéis são substituídas por elementos locais sem que isso diminua a afluência aos cabarés”, observa Luís Andrade de Sá. A música era outra, mas o espírito continuava o mesmo.

      Em Outubro de 1949, o “Notícias de Macau” informava que “a pecadora Macau” era “agora a mais limpa cidade no Extremo Oriente”, encontrando-se “em vias de se regenerar completamente”. Era a conclusão de um repórter estrangeiro do jornal “Washington Times – Herald”, assegurando que “antes da guerra abundavam histórias sobre Macau, cidade aberta, com os seus abismos de ópio, infernos de jogo e bairros perigosos”. Pelo contrário, “hoje, o poder administrativo português tem feito guerra contínua aos fumatórios de ópio, tem deitado abaixo as casas de jogo e tornou já mais discreto o tráfico do contrabando”.

      No Hotel Central, garantia o jornal americano, “qualquer pessoa pode passear livremente pelos salões do alto edifício, até nos sábados e domingos, sem encontrar jogadores que excedam em número aos empregados”. Nada havia a temer. “Macau é hoje a mais limpa, a mais sossegada e fresca cidade de todo o Extremo Oriente. As curvas singulares das suas ruas calçadas, são guardadas dia e noite, por patrulhas da polícia e tropa, armados com espingardas, pistolas e metralhadoras de mão. Os seus três jornais em língua portuguesa passam pela censura. As associações operárias são indesejáveis. O poder dos portugueses é temido. Há ali menos risco do que a vizinha Hong Kong”.

       

      A “maior ‘casa de má fama’ do mundo”

       

      Na década de 1940 e na seguinte, no antes e no pós-guerra, o Central foi o núcleo de uma cidade cuja prosperidade ora dependia do comércio feito com os japoneses que ocupavam o continente chinês, ou, depois da guerra, do contrabando para a China comunista.

      Os tempos podiam, agora, ser outros, mas o maior hotel de Macau conservava a sua fama. Afinal, a cidade era “famosa pelo primeiro farol construído em toda a costa da China”, pelas “gigantes ruínas da igreja de S. Paulo, e finalmente – prestem atenção! – pela maior ‘casa de má fama’ do mundo”. É assim que Ian Fleming, criador de James Bond, apresenta ao mundo o Hotel Central, “a maior casa de jogo e de autoindulgência do mundo”.

      Fleming visitou Macau em 1959 quando preparava “Thrilling Cities”, um livro de viagens que publicaria em 1963.

      No capítulo dedicado a Macau, o Hotel Central tem o protagonismo de personagem principal, só ofuscada pelo brilho irradiado pelo “rei do ouro do Oriente”, o “enigmático Doutor Lobo da Villa Verde em Macau”, para o qual Fleming se sentiu “irresistivelmente atraído”, com “o contador Geiger interno de um escritor de thrillers a funcionar furiosamente”.

      O Central, pois então. “Não é exatamente um hotel. É um arranha-céus de nove andares, de longe o maior edifício de Macau, e é dedicado exclusivamente aos chamados vícios humanos. Tem mais uma caraterística original. Quanto mais alto se sobe no edifício, mais bonitas e caras são as raparigas, mais altas são as apostas nas mesas de jogo e melhor é a música”.

      Seguindo os passos, no rés-do-chão, o comum trabalhador chinês, os cules que enchiam as ruas e ruelas de Macau num formigueiro incessante, podia “escolher uma rapariga da sua classe e jogar a cêntimos, colocando a sua aposta numa engenhoca de cana de pesca através de um buraco no chão para as mesas de jogo em baixo”. Os que tinham bolsos mais fundos podiam “subir através de vários céus até chegarem ao paraíso terrestre no sexto andar. Acima deste, encontram-se os quartos”.

      Sem perder tempo, é até ao “paraíso” que o escritor sobe. “O sexto andar era espaçoso e bem iluminado, com o tipo de decoração pseudo-moderna que se encontra num café francês, outrora caro, e que já se encontra em decadência. Do outro lado do hall de entrada, o inferno do jogo, para o qual fomos atraídos pelo barulho dos dados e pelos gritos das atraentes crupiês. Aqui encontrámos fantan a ser jogado e um jogo de dados bastante complicado conhecido como hi-lo. Depois de ter lido sobre o fantan nos meus tempos de Doutor Fu-Manchu, quando partia do princípio de que este era o jogo mais pecaminoso à face da terra, dirigi-me diretamente para a mesa de fantan, troquei cem dólares de Hong Kong por fichas e sentei-me firmemente na mesa escassamente ocupada ao lado da ‘dealer’, uma feiticeira de olhos amendoados vestida com uma cabaia verde. Do outro lado da mesa, junto à prateleira das fichas, estava uma rapariga vestida da mesma forma e com um ar de autoridade. Era ela que dirigia o jogo, enquanto a rapariga à minha direita fazia os movimentos necessários”.

      A noite (e o jogo) procedia. “Enquanto eu perdia alegremente os meus cem dólares, apreciando o ritual gentil, a rapariga autoritária do lado oposto nunca se enganava ao adivinhar o número vencedor a partir do amontoado. Era algo de extraordinário, e a rapariga sorriu com apreço ao ouvir os meus aplausos educados”. Depois desta “delicada pirataria”, tempo para outros vícios.

      Era a vez de rumar até ao salão de dança. “O local tinha uma pista central e bem iluminada e um combo de oito elementos bem disciplinado que tocava um jazz bom, mas convencional. Nas sombras à volta das paredes, sentavam-se umas vinte ou trinta ‘hospedeiras’. Dick e eu instalámo-nos numa confortável banqueta na sala pouco frequentada e pedimos gins tónicos e duas hospedeiras. A minha chamava-se Garbo, ‘o mesmo nome que a estrela de cinema’, explicou”.

      A noite ainda era uma criança, mas “como o leitor ficará aliviado por saber, terminou decentemente numa pequena tempestade de neve de notas de vinte dólares e protestos de amor eterno, e Dick e eu deixámos o magnífico Hotel Central numa onda de virtude e euforia, derramando bênçãos sobre o Sr. Fu [Tak Iam] e o seu muito difamado palácio de nove andares de má fama”.

       

      O fim de uma era

       

      Ian Fleming não sabia, mas, na verdade, estava a despedir-se da época dourada do Hotel Central, e de uma certa época – que teve os seus fulgores, sem dúvida – de Macau.

      Quando “Thrilling Cities” foi posto à venda, já a exploração do jogo pela Tai Heng tinha chegado ao fim. Ainda em 1961, um concurso público decidiu que a concessão do lucrativo negócio exclusivo seria atribuída à Sociedade de Turismo e Diversões de Macau. Novos senhores se perfilavam no horizonte da cidade. Entre eles, Stanley Ho, que iria personificar a nova era em que Macau entrava.

      O contrato de concessão, celebrado em Março de 1962, previa “três obrigações mínimas”, refere Jorge Godinho. “A primeira foi a de construir um ‘casino modelar’ e a segunda a de construir um ‘hotel de luxo'”. Deduz-se que a “qualificação do futuro casino era evidentemente uma crítica à operação que tinha existido no Hotel Central, que, no entender da Administração, não seria de todo um modelo a seguir. A escolha desta palavra visou elevar bastante o padrão de exigência”.

      Em terra de transformações sucessivas, em que muito se perde e pouco se cria, os velhos hotéis “talvez tenham ainda muito que contar”, pondera Luís Andrade de Sá no final do seu livro, o único dedicado às memórias que chegavam e partiam na bagagem com os hóspedes. “Se eles tiverem saudades de ser o que nunca foram talvez sobrevivam”.