Edição do dia

Quarta-feira, 22 de Maio, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nevoeiro
24 ° C
24.9 °
23.9 °
100 %
2.6kmh
40 %
Qua
26 °
Qui
26 °
Sex
27 °
Sáb
28 °
Dom
28 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioOpiniãoAS MÁGOAS NA LEMBRANÇA

      AS MÁGOAS NA LEMBRANÇA

      Comemorou-se o 25 de Abril de 1974, no seu quinquagésimo aniversário, com mensagens ambivalentes e contraditórias no espaço português. A dualidade das mensagens revela um facto indesmentível: os portugueses estão divididos quanto à forma como relembram uma data importante na história do seu século XX.

      Seria impensável imaginar algo  diferente quando as gerações que o vivenciaram ainda se encontram vivas. O programa oficial possibilitou que os portugueses o comemorassem em festa. Como os franceses comemoram a queda da Bastilha. Ambos os factos históricos consubstanciaram iniciativas de revolta social contra poderes autoritários ou absolutos.

      No caso português o derrube do regime do Estado Novo teve como catalisador o descontentamento de níveis intermediários das Forças Armadas sobre politicas remuneratórias e a sucessão imparável de comissões na frente de guerra. Lançado o rastilho a sublevação militar tornou-se uma revolução popular pela sintonia da necessidade de mudança.

      Mas já na altura foi claro que havia ganhadores e perdedores. Não apenas a elite que rodeava o governo de Marcelo Caetano e o empresariado que ajudara a consolidar o poder absoluto do regime. No Portugal continental mas também nas colónias do Império português.

      Com o fim da guerra colonial, com o regresso dos contingentes que asseguraram a manutenção da ordem pública em Africa foram imediatas as exigências de independência da parte dos movimentos independentistas. No imediato explodiu um movimento de contestação das elites brancas nas colónias o levou à fuga desordenada de milhares de famílias portuguesas que deixando para trás propriedades e bens se apressaram a garantir a sua sobrevivência.

      Este foi o segundo grupo de perdedores que não encontraram da parte do poder politico revolucionário grande audição. Pouco a pouco com resiliência integraram-se na sociedade portuguesa iniciando um segundo projecto de vida. Fazendo justiça à história foram alguns destes os visados nos clamores do morte ao fascismo, abaixo o capitalismo, morte à burguesia que se ouviram entre a metade de 1974 e os fins de 1975 nas manifestações da esquerda vitoriosa.

      Promovendo uma significativa mudança das referências sociais os partidos do eixo central da governabilidade – PS, PPD e CDS – puderam em aliança com o sector moderado do MFA suster a deriva revolucionária. Pararam as ocupações de terras, as nacionalizações, os saneamentos que por pouco não descambaram em linchamentos. O país esteve à beira de uma guerra civil e apenas uma coligação de moderados lideres militares e políticos permitiu que se evitasse a queda no abismo. O país deve gratidão a Costa Gomes, Pinheiro de Azevedo, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral – entre outros – por esse juízo de prudência e abnegação.

      Entre os ganhadores está a geração que viveu o 25 de Abril, na universidade, liberta da ameaça de ser mandada para a frente de guerra, as classes mais pobres que tiveram acesso, pela primeira vez, a um estatuto de dignidade na educação, na saúde, no trabalho, na habitação, na repartição da riqueza social. Também os que se haviam sido forçados a exilar-se por se recusarem a participar numa guerra injusta.

      Cinquenta anos depois o país está profundamente diferente daquele que existia à época. Importa realçá-lo a cada passo.  Contudo a lembrança daqueles tempos e das dificuldades diluiu-se perante os benefícios do desenvolvimento. Numa maioria muito significativa da população e com a excepção de duas minorias que não fizeram contas com as memórias.

      Por um lado, a esquerda revolucionária que vencida em 25 de Novembro de 1975 foi forçada a adiar o seu projecto de cubanização da sociedade portuguesa. Veria recuar a vaga das nacionalizações, o retorno das terras ocupadas no Alentejo, o regresso grandes empresários que no PREC se haviam visto obrigados a fugir do país. Não deixa de ser curioso que na manifestação da Avenida da Liberdade se tenham retomado muitos dos slogans radicais retirados das prateleiras poeirentas dos arquivos. PCP, Bloco de Esquerda e Livre materializam o saudosismo de um guevarismo sem regra e oportunidade.

      Ainda, os que clamam que este é o tempo de ajuste de contas definitivo com a esquerda e a emancipação social impulsionada pelo 25 de Abril de 1974. Poderemos designá-lo por uma direita sidonista e ultranacionalista organizada em redor do partido Chega. Um partido ultranacionalista que agrega os descontentes com as mudanças sociais, as limitações de soberania impostas pela nossa integração na União Europeia, a subida acentuada de impostos, a perda de autoridade do Estado, o crescendo irregulado da imigração, a corrupção na politica e a promiscuidade com os negócios.

      O discurso moralista e ético desta franja significativa do eleitorado denota a incomodidade com o processo de mudança, a emergência de novos valores, de novos paradigmas de família que uma sociedade ainda tradicionalista e conservadora teme.

      Foi este o choque de percepções que se ouviu nos discursos partidários na Assembleia da República, em aplausos circunscritos à esquerda, à direita e ao centro às intervenções dos representantes partidários. Quando chamados a mostrar a unidade nacional num dia festivo os deputados reflectiram, apenas, uma sociedade dividida e antagonizada num processo social que ainda não se interiorizou e emancipou.

      Tenho dúvidas se poderia ter ocorrido de outra forma. Portugal é ainda um país muito dividido. Antagonizado nas expectativas e nas valorizações sociais. Os portugueses têm hoje, comparando-se com 1974, menos paciência para a falência das politicas sociais, a inépcia das elites politicas, a feira de vaidades que a classe política evidencia tantas vezes. Como disse Camões “vemos novidades, diferentes em tudo da esperança, do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem – se algum houve – as saudades”. Se algum houve…..

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e antigo professor de Ciência Política e Relações Internacionais