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      InícioSociedadeIdeais de Abril celebrados em Macau

      Ideais de Abril celebrados em Macau

      Realizou-se ontem o jantar de comemoração do 50.º aniversário do 25 de Abril, no Clube Militar. O evento serviu para sublinhar alguns dos ideais de 1974 – democracia e liberdade, por exemplo – e pedir às gerações mais jovens que não esqueçam a data.

       

      Democracia e liberdade. Estes foram dois dos ideais de Abril mais repetidos por quem esteve presente no jantar de ontem no Clube Militar, que serviu para celebrar os 50 anos do 25 de Abril de 1974. Em declarações ao PONTO FINAL, Amélia António, presidente da Casa de Portugal, e o cônsul-geral português, Alexandre Leitão, aproveitaram a ocasião para pedirem aos jovens que não dêem os valores de Abril como adquiridos.

       

      AMÉLIA ANTÓNIO DESTACA O SALTO DADO PELO PAÍS

       

      Para a presidente da Casa de Portugal, “é cada vez mais importante” celebrar a data, mas é também essencial fazer uma retrospectiva daquilo que mudou em 74. “Andou-se imenso, as pessoas mais novas não têm a noção exacta do salto que houve no país”, apontou, lembrando que antes da revolução imperava a pobreza, o analfabetismo, a censura e a falta de liberdade a todos os níveis. As gerações mais jovens dão as mudanças como adquiridas, defendeu, ressalvando que “há um profundo sentimento do povo português” que não irá deixar morrer o espírito. “Mas é preciso trabalhar para isso: Os políticos têm de fazer uma reflexão muito séria sobre como têm actuado e como as elites funcionam”. E deixou um aviso: “Quando começamos a ter elites cada vez mais afastadas da realidade e da vida das populações, cada vez nos afastamos mais daquilo pelo qual as pessoas lutaram. E cada vez o risco é maior. E depois, há quem tire partido do que está mal”.

       

      “A CIDADANIA PARA A LIBERDADE É UM ACTO MUITO EXIGENTE”, DEFENDE CÔNSUL

       

      Alexandre Leitão, cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, também esteve presente no jantar do Clube Militar e também alertou para que as gerações mais jovens não dêem os direitos ganhos na revolução como adquiridos, exemplificando com os direitos a dizer o que pensamos livremente e a escolher quem nos governa. “Tudo isso tem de ser cultivado ao lado das famílias, na educação que se dá na escola e na conduta cívica ao longo de uma vida”, até porque “a transmissão desses valores fundamentais de que nós nos orgulhamos não se faz automaticamente”. Deixou ainda um reparo a quem “abusa da liberdade e pensa que a liberdade é poder dizer tudo o que se quer – difamar, protestar sistematicamente contra tudo e mais alguma coisa”. Isso, segundo o cônsul, pode “criar um ambiente em que os cidadãos começam a pensar que, no fundo, está sempre tudo mal e a tentação de ir mudar para outra coisa qualquer é grande”. “A cidadania para a liberdade é um acto muito exigente, é um sacerdócio autêntico”, afirmou.

       

      JOSÉ MANEIRAS RECORDA O ANALFABETISMO, O SUBDESENVOLVIMENTO E A CENSURA ANTES DE 74

       

      O arquitecto José Maneiras soube, em Macau, da notícia da revolução, mas só depois de 25 de Abril. As notícias de Portugal chegavam a Macau a conta-gotas e censuradas pelo regime. No entanto, havia sempre Hong Kong, que contava com a imprensa livre britânica, o que tornavam obsoletos os cortes na imprensa portuguesa da região. Maneiras soube da notícia precisamente através da BBC e, contou agora, sentiu “uma enorme alegria”. Enquanto estudava na cidade do Porto, fez parte de organizações democráticas. Também o arquitecto sublinhou que “tudo mudou”. A revolução dos cravos pôs fim ao analfabetismo, subdesenvolvimento do país e à própria censura, frisou.

       

      25 DE ABRIL “ENSINOU-ME 90% DAQUILO QUE SEI”, DIZ SALES MARQUES

       

      José Luís Sales Marques, economista e antigo presidente do Instituto de Estudos Europeus, era estudante em Portugal quando se deu o golpe militar. “Foi uma experiência absolutamente inesquecível e que me ensinou 90% daquilo que eu sei”, referiu, destacando a liberdade como o ideal fundamental deixado pelo espírito de Abril. Meio século depois, “é muito importante continuar a celebrar a data” porque “é um grande acontecimento histórico, um acontecimento muito feliz na história de Portugal.

       

      “SOLIDARIEDADE, GENEROSIDADE E SOBRETUDO A TOLERÂNCIA”, DESTACA CATARINA COTTINELLI

       

      Descrevendo a data como “muito importante” para Portugal e também para as ex-colónias, Catarina Cottinelli salientou a “solidariedade, generosidade e sobretudo a tolerância”, como os principais valores que Abril lhe transmitiu. “É importante ter tolerância para com aqueles que não pensam como nós. Temos de ter essa tolerância diariamente”, frisou, alertando também para a passagem da mensagem aos mais novos: “Aquilo que celebramos é a liberdade de expressão e de sermos quem somos e o que quisermos ser. A partir daí, é preciso relembrar aos mais novos que é uma data importante porque lhe devemos muito”.

       

      MICHEL REIS DESTACA DATA DE GRANDE IMPORTÂNCIA, MAS RESSALVA QUE “NEM TUDO FORAM CRAVOS”

       

      Para Michel Reis, celebrar o 50.º aniversário do 25 de Abril é um acto de “grande importância”, no entanto, lembra o processo de descolonização que se seguiu. Transformando a expressão “nem tudo foram rosas” para “nem tudo foram cravos”, o assessor do Instituto Cultural, que é natural de Moçambique, apontou para o que correu menos bem: “Pessoas que viviam há muitos anos nas ex-colónias, como é o caso dos meus avós, de um momento para o outro perderam os seus bens devido a um processo de descolonização deficiente”. Pela positiva, Michel Reis apontou a liberdade de expressão e a democracia no seu todo como as grandes vitórias de Abril.

       

      FIM DA CENSURA E ELEIÇÕES LIVRES, DESTACA NUNO SARDINHA DA MATA

       

      O advogado Nuno Sardinha da Mata também atribuiu grande importância à ocasião. Continuar a celebrar o 25 de Abril meio século anos depois da revolução “significa que já passaram 50 anos e continuamos em democracia, isso é um bom sinal”. Em 74 “mudou tudo”: “acabou a censura, passámos a ter eleições livres, passámos a ter um sistema partidário livre”. E concluiu: “Os ideais de Abril fazem parte da vida democrática e continuam a manter-se actuais hoje em dia, desde que nós vivamos em democracia”.